18 de abril de 2014 às 15:54
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Deus não é para o bico da ciência

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
A Tempo e a Desmodo - Deus não é para o bico da ciência

Antony Flew (1923-2010) não foi um ateu de garagem. Flew foi o Dawkins do século XX, o líder do ateísmo que se julgava legitimado pela ciência. É por isso que a sua conversão foi um acontecimento tão polémico. Deus existe é a explicação dessa polémica descoberta. O grande motor da mudança? A teoria do Big Bang. Steiner diz, algures em Gramáticas da Criação, que a teoria do Big Bang é a tradução científica do livro do Génesis. Flew navegou por águas similares. Para este filósofo britânico, a teoria do Big Bang fornece a prova científica para aquilo que São Tomás de Aquino considerava inacessível ao conceito de prova: o começo do universo. Enquanto pensou que o universo era apenas um espaço ilimitado mas atemporal (sem um começo), Flew encarou o dito universo como um conjunto de factos fechado e à mercê de uma ciência toda-poderosa. Mas tudo mudou com o Big Bang. Se o universo teve um começo, então, a pergunta é inevitável: o que produziu esse começo? Quem deu o primeiro pontapé na bola cósmica? 

O que torna Flew num caso subversivo para o ateísmo hegemónico não é a mera conversão à ideia de Deus. A subversão está na forma, porque Flew chegou a Deus através da ciência, e não através da fé. Flew atingiu Deus através da física e da cosmologia. O ex-papa dos ateus pegou nos dados científicos, e Eureka: há um Deus subjacente à racionalidade da natureza e do universo. Tudo bem? Tudo mal. Deus não é um assunto científico. Deus não se prova ou desprova cientificamente. Deus é um salto de fé abraâmico, kierkegaardiano. Se Dawkins está errado, Flew também não está certo.

Sim, Dawkins tem direito ao seu ateísmo, mas já não tem direito a pensar que esse ateísmo tem certificado científico. A ciência não prova a não-existência de Deus. Deus é um assunto não-científico por excelência, porque Deus não está ao alcance do método científico. Mais: quando afirma que o seu ateísmo darwinista é a única resposta aceitável, Dawkins deixa de lado qualquer ceticismo em relação à sua própria teoria, acabando por esquecer que a ciência não anda à procura da verdade redentora. Todo o conhecimento científico assenta nesta arquitectura céptica: só podemos ter estabilidades teóricas, e nunca certezas teóricas; todas as teorias têm de ser falsificáveis, logo, todas as teorias são apenas possivelmente verdadeiras. Sem este mar de dúvidas, o espírito científico não sobrevive. Preso na fúria de negar Deus em nome da ciência, Dawkins acaba por desrespeitar a própria ciência.

Ora, se não prova a não-existência de Deus desejada por Dawkins, a ciência também não prova a existência de Deus. Flew diz que esta foi uma peregrinação da razão: "segui a razão até onde ela me levou. E ela levou-me a aceitar a existência de um Ser auto-existente, imutável, imaterial, omnipotente e omnisciente". Problema? Apesar das diferenças a jusante, Flew partilha com Dawkins um erro a montante: encara Deus como um desafio científico. Sucede que Deus e a fé não são assuntos empíricos, não são temas para o bico da ciência. Deus não se esconde na relação gravitacional entre planetas, mas na relação moral entre homens. Deus é um salto de fé ético, e não uma descoberta com tubos de ensaio. Flew percebeu que o ateísmo não era a resposta, mas teve medo de atravessar o deserto.

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Inacessibilidades
O bicho homem é curioso e é relutante à ideia do inexplicável.Quanto mais se sabe sobre o Universo, dimensão e funcionamento, o espantoso jogo de equilíbrios da natureza, mais difícil se torna enquadrar em explicações científicas.

As noções do tempo e do espaço, quando medidos em anos-luz, são difíceis de digerir,
  Os milhões de quilómetros cúbicos ocupados pelo Universo que continham ,antes do Big Bang?

A invenção de Deuses, pretende dar um autor ao incompreensível, tornando simples algo que nos escapa. Mas é uma invenção humana, a que se juntou a ameaça de torturas eternas, para malfeitorias terrenas e , com o decorrer dos séculos, o poder do clero.

Por mim , perfilho a posição de J.L.Borges "Sobre a verdade nada sabemos". É a mais cómoda e a que produz menos problemas existenciais!!!!!
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Quem tem mêdo da morte?
Só tem mêdo da morte quem não tem, em vida a consciência tranquila: na sua relação com os outros, na solidariedade com o próximo e na prática da justça quotidiana.Porque Deus não é o problema. não dificulta o caminho, não cria limites.
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Deus não é para o bico da ciência
Dizem os crentes que a fé é que nos salva, mas se a Deus nada é impossível e fez o Mundo, porque não fazer pequenos milagres, tão simples como dar uma pena de carne e osso, a quem vai a pé a Fátima com uma de pau. Já sei que há explicação para tudo, mas como a Deus nada é impossível, porque deu às plantas a possibilidade de se renovarem, cada vez que lhe cortamos um ramo e não acontece o mesmo com o seu semelhante. Milagres contam muitos, mas uma prova assim era sem duvida mais credível, ou talvez não. Aliás contam que na antiga Grécia não sabiam a razão porque as mulheres tinham filhos e pensavam que era o mesmo fenómeno que acontecia com a fruta nas árvores. Tenho um amigo que opina que as religiões são todas más e não há nenhuma boa. Invoca o sofrimento que têm causado à Humanidade, em guerras eternas entre Árabes e Cristãos desde o tempo das Cruzadas e Inquisição.
ENALTEÇO A SUA INTENÇÃO DE HOJE, HENRIQUE
Poucos entenderão o alcance do seu artigo de hoje. Enalteço a coragem de hoje em trazer e invocar alguém que a ditadura do politicamente correcto transformou em besta depois de ter andado décadas a considera-lo bestial. Infelizmente, tal como noutros registos, no fórum do Expresso também abunda a opinião fácil de gente desinteressante e desinteressada. É um preocupante sinal dos tempos. Não sei se sabe mas ontem teve lugar na universidade de Oxford, na aula magna da faculdade de Teologia, um debate sobre a questão por si hoje aflorada e sob um título idiota cuja tradução poderá talvez ser “A natureza do ser humano e a questão da sua origem”. Os convidados foram o sempre inconsequente Rowan Williams, bispo de Cantuária e, o ateu militante Richard Dawkins. Eu pessoalmente acho o representante anglicano muito fraco e sempre preocupado em ser politicamente correcto o que no debate em questão foi penalizador acima de tudo para ele mesmo. A discussão não foi esclarecedora pois se Dawkins está hoje muito mais polido já Rowan Williams não tem bagagem para quem se digladie com ele com argumentos racionalmente bem encadeados e estruturados. Para mim em qualquer contenda tem que haver sempre um vencedor e a haver um foi, infelizmente, este ateu militante. Qualquer Príncipe da Igreja Católica teria arrumado com a argumentação fácil e por vezes insultuosa usada por Dawkins mas enfim como se depreende do seu artigo de hoje Deus não está ao alcance do entendimento de todos. Se poder ...
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'Deus não é para o bico da ciência
Bom post, Henrique. Não sei se se trata da apresentação de um livro (a aparecer no Expresso ou noutro lado) ou da crítica a um, mas não penso que haja nada a apontar a ele. Concordo com tudo o que disse, em primeira abordagem.

Em segunda abordagem, haveria que considerar o que diz no fim, que Deus estaria escondido na "relação moral entre homens". Parece-me pelos vistos que "alguém" não desistiu de encontrar a prova de Deus na normalidade da realidade... não se contentando com a história, que pode sempre nos chegar falsificada.

A este assunto só posso acrescentar que a ciência é essencial para provar a existência de Deus. Porque ao esforçar-se para estudar o natural, ela tenta definir o que não é natural, e logo, é a melhor ferramenta para reconhecer Deus se este se manifestar. E no entanto, também é verdade que a sua constante procura em explicar tudo, introduz uma dúvida sistémica em toda a prova que fizer: o que não consegue explicar hoje talvez possa explicar amanhã. Paradoxalmente, acho que é isto que evita que se possa considerar o ateísmo uma teoria científica... é que negar a existência de alguma coisa é falsificável, desde que essa coisa apareça... mas como se pode fazer a prova se o objectivo da ciência é precisamente recusar essa prova?

(um segundo problema é que o argumento da falsificação resulta para negar afirmações universais, leis!... como é que o ateísmo poderia ser reformulado para exprimir as mesmas?)
O homem
desde sempre que gosta de histórias, mas quando ficam obcecados com um conto desta forma, já é um exagero. Deus e suas historietas deviam estar na secção de livros infantis e não darem azo a milhões e milhões de debates e histerias.

http://barbarraridades.bl...
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Tome juizo, Henrique Raposo
Deus vs ciencia tem a ver com a cultura e retorica dos Republicanos nos Estados Unidos (neocons). O que tem a Europa a ver com isto?

Encher chouriço?
Um fundamentalista Hindu, acusa Krishnamurti: - Quanto mais o ouço mais convicto fico que és ateu!
Krishnamurti responde: - Eu costumava ser ateu até ter percebido que era Deus.
...irritado o fundamentalista acusa: - ...negas a divindade de Krishna!!? (cá diriamos negas a divindade de Jesus).
JK remata: - ...ceus, nunca neguei a divindade de ninguem, porque o faria a Krishna?

Raio de tema meu caro, armazéns cheios de prateleiras com caixotes imensos cheios de livros foram escritos sobre estas matéria, só faltava mesmo o seu contributo de 4 parágrafos... Fico abismado com a forma como preenche este seu espaço de opinião...
O humanamente incompreensível...
A este respeito, recordo Fernando Pessoa:

“É como se houvesse uma joia ou uma flor, cuja cor maravilhosa só pudesse existir na noite, desaparecendo logo que se estabelecesse a luz, com a qual se veria”

Realmente, um segredo revelado perde a virtude mística do segredo. E citando Tertuliano: revelá-los é destrui-los
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A ciência não prova a existência de Deus.
A ciência não prova a existência de Deus porque não se chega a Ele através das certezas matemáticas mas sim mediante a certeza da fé. Neste sentido a resposta à questão quem produziu o começo do universo é apenas um pequeno elemento na construção da certeza que conduz à prova da existência Divina.
Parabéns a H. Raposo pela qualidade do seu texto.
Não é pelo fato de ele ter mudado de ideia,
que a ideia de um deus está provada. Rio Grande
Equilíbrio instável
Parece-me interessante esta conclusão do HR.

Se Deus estivesse ao alcance do nosso raciocínio, seria apreensível, explicável, compreensível por nós. Nós poderíamos explicá-lo. Era como se a peça de barro pudesse algum dia compreender, explicar o oleiro. Claro que as comparações falham mas dá para tentarmos compreender.

Nisto da fé num Princípio para o TODO, cada qual deverá encontrar o seu ponto de equilíbrio entre a certeza e a dúvida.
Quem acredita não deverá esquecer o uso e o fundamento na razão; a crença não pode ser irracional, deve fazer sentido!
Quem não acredita não se poderá radicar unicamente na razão; pela razão, ou pela ciência não chegamos a grandes verdades absolutas.

A FÉ penso que estará sempre presente numa e noutra das nossas posições de equilíbrio “instável” perante o mistério do SER.
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Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo...
Todo o mortal é como a erva
E toda a sua glória como a flor da erva.
Seca-se a erva e cai a flor,
Mas a palavra do Senhor permanece para sempre.
Deus/ciência
Alguém disse: "O muito conhecimento conduz a Deus, o pouco afasta Dele"

Aplica-se a este caso que nem uma luva.
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Argumentos sem originalidade.
Em relação a este debate, existe uma verdadeira falta de originalidade no lado dos crentes.

Tradução científica do Génésis? O Génésis não tem absolutamente nada a ver com a teoria do Big-bang,
  é um conto de fadas reminiscênte de religiões neolíticas de deusas matriarcais, onde o universo não é criado, mas parido.
O que produziu esse começo? Quem deu o primeiro pontapé na bola cósmica? Reposta dos crentes, Deus.
Isso simplesmente deixa ainda MAIS perguntas em cima da mesa, não responde ou explica absolutamente nada. De onde é que veio esse Deus, quem o criou a ele, e como é que ele criou o Big-Bang?
A ciência não prova a não-existência de Deus. Quantas vezes tem de se repetir a mesma coisa, não é assim que a ciência funciona! O Charles Darwin passou anos a pesquisar antes de publicar 'The origin of species' para provar a sua teoria. Os crentes é que tem de provar a existência de Deus, e essas provas é que são depois analisadas.
Deus é um assunto não-ciêntifico, essa é boa. E se eu lhe digo que acredito firmamente que existe um Panda cor de laranja que vive no centro da terra que controla isto tudo, e para validar a minha teoria ponho em cima da mesa os mesmo argumentos, é um assunto não ciêntífico e é um salto de fé ético?
É obvio que a ciência não responde a toda as perguntas, e é provável que nunca o faça. Mas como é que isso pode validar uma das centenas de crenças medievais ou pré-históricas? Qualquer conto de fadas serve, desde que EU esteja no centro!!
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