Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Tiki taka há muitos. Guardiola só há um

  • 333

O balneário do Bayern de Munique está cheio de craques, sim, mas Pep Guardiola é a maior estrela

Getty

Em Munique mora um catalão que mudou o futebol mundial e que é a "referência" de Julen Lopetegui, com quem jogou no Barcelona e que reencontra esta quarta-feira (19h45, TVI).

Temos de consultar um dicionário urbano (sim, há dessas coisas na internet) para conseguir clarificar o significado de "hipster". E, mesmo assim, não é fácil. Resumindo a coisa, que não tem tradução direta para português: um hipster é alguém que não se conforma com a norma e que valoriza mais o pensamento diferente e independente (e o próprio). Modernices? Ok, simplificando isto: estão a ver aqueles tipos barbudos, com camisas aos quadrados, lenços ao pescoço e ténis vintage, com ideias inovadoras e idealistas? Pronto, são hipsters.

Como - era aqui que eu queria chegar - um catalão de 44 anos chamado Pep Guardiola. Não só pelo que impecavelmente veste (até quando vai para os jogos com o casaquinho de malha bem abotoado por baixo do blazer pontuado com um lenço - desculpa, Mourinho, o teu sobretudo já era, há muito tempo), mas essencialmente pelo que criou-barra-inovou quando assumiu o banco do Barcelona, em 2008: a ideia de que as vitórias (naquela época de estreia: o campeonato, a Taça e a Liga dos Campeões) podem estar aliadas a um futebol bonito, quase romântico, que valoriza acima de tudo a posse da bola paciente como forma de vencer.

Em quatro anos, a filosofia de jogo a que se convencionou chamar de tiki taka (um nome que não é apreciado pelo treinador, que diz que não valoriza a posse pela posse - apenas como meio de chegar ao golo) rendeu 14 troféus ao Barcelona e milhões de fãs a Guardiola. Como, por exemplo, o ex-colega de balneário Julen Lopetegui. "O seu estilo de jogo, esteticamente apelativo e, ao mesmo tempo, eficiente, é maravilhoso", disse o treinador do Porto à revista da federação espanhola, confessando que Guardiola é uma "referência" para ele, a par de Vicente del Bosque.

Pep, o golfista descontraído

Depois de um ano sabático e de ofertas de praticamente todos os grandes clubes ingleses nas mãos, na época passada, Guardiola decidiu levar o seu romantismo (hipsterismo será uma palavra?) para a mui pragmática Bundesliga. Resultado: ganhou o campeonato, a taça e a supertaça europeia (só faltou a Champions), vencendo 44 dos 56 jogos oficiais disputados e continuando a inovar, passando o sistema da equipa de 4-3-3 para 3-5-2 num piscar de olhos.

"Havia quem tivesse dúvidas do sucesso dele fora do Barcelona, mas ele vai para um país completamente diferente e põe o Bayern de Munique a jogar 'à Guardiola'. Acho que é um exemplo para todos os treinadores", diz ao Expresso Marco Couto, que foi colega de Guardiola quando ambos jogavam no Al Ahli, no Qatar, em 2004/05.

"Na altura, o Pep já estava em fim de carreira e notava-se que tinha uma grande preocupação em tentar transmitir conhecimento aos jogadores qataris, o que fez dele uma pessoa muito querida por lá", explica Marco, atualmente diretor desportivo do Moreirense. "Falávamos bem, mas ele dava-se mais com o Batistuta, que também vivia no Ritz, como ele, e passavam os dias a jogar golfe", conta.

O então defesa central acabou por regressar a Portugal, para o Beira-Mar, mas voltou a ouvir Guardiola. "Ligou-me, passados alguns meses, porque um clube espanhol tinha falado com ele a pedir referências minhas. Avisou-me que tinha dito o melhor sobre mim como central, mas que nunca me tinha visto a médio, que era o que eles queriam. Desde então perdeu-me o rasto e eu também. Se bem que agora é mais fácil eu seguir o rasto dele do que o contrário [risos]", diz. "Todos gostávamos muito dele porque, apesar do estatuto que tinha como jogador, era muito humilde, comunicativo e interessado nos outros."

Lopetegui, o mini Guardiola 

"Temos uma ideia de jogo que queremos implementar, uma filosofia, para sermos protagonistas em todas as competições e em todos os jogos que realizarmos." A frase podia ser de Guardiola, mas foi de um ex-colega de balneário no Barcelona (em 1996/97, quando Vítor Baía também estava lá - leia as questões a Baía no texto relacionado): Julen Lopetegui, aquando da sua apresentação como treinador do Porto.

O ex-selecionador sub-21 de Espanha trouxe para o Dragão uma ideia de jogo baseada, claro está, na exacerbação da posse da bola e na reação forte à perda da mesma, tal como reconheceu há cerca de dois meses, numa formação interna com técnicos e scouts do Porto. Lopetegui, disse um elemento portista ao Expresso, defendeu a inteligência e a tomada de decisão como características mais importantes de um jogador, ainda que garanta conhecer veteranos que não entendem bem o jogo de futebol - que é como quem diz, por exemplo, que às vezes a melhor opção não é tentar fintar três adversários e ignorar os colegas (alô, Quaresma?).

Quarta-feira, o Dragão assistirá a um choque de filosofias semelhantes, sendo certo que o Bayern, ainda assim, poderá não ter o domínio habitual, não só porque terá pela frente um adversário com o mesmíssimo propósito, mas também devido à onda de lesões na equipa (são seis e das fortes: Robben, Ribéry, Alaba, Schweinsteiger, Javi Martinez e Benatia), que a levou a encarar encontros recentes (Dortmund e Leverkusen) com muito mais cautela e muito menos bola do que o normal. Mas venceu. Às vezes até os hipsters precisam de controlar o idealismo.

 

Texto publicado na edição do Expresso de 11 de abril de 2015