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"O jogador era o analfabeto que não comia com talheres"

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Oliveira é filho de um músico e gosta de pintura, mas a sua arte sempre foi a da bola. E a do bitaite. Nesta conversa longa, o antigo jogador fala da infância, da família, do FCP, das lesões, e de Jesus, "que está à frente do campeonato com uma equipa menor.". Republicamos a entrevista saída no Expresso de 14 de março de 2015

Pedro Candeias (texto), Rui Duarte Silva (fotos)

Ligo-lhe duas e três vezes e a resposta chega numa mensagem horas depois: "Impossível, estou na água." No dia seguinte, a secretária telefona-me do escritório e diz-me que o "doutor Oliveira" já está disponível para falar e que eu devo fazer a chamada logo que possa. Logo que possa é logo a seguir e António Oliveira atende para me cortar o pio: "Ó Pedro, falar do quê? Eu não tenho a memória dos meus amigos." Ainda por cima, confessou, estava a arrumar gavetas e recortes de jornais e fotografias, porque tem uma biografia na forja. A custo, lá se convenceu a "dar uns bitaites rápidos" que se transformaram numa conversa e numa entrevista curta que se tornou comprida. António Oliveira, antigo jogador do FC Porto, Bétis, Penafiel, Sporting e da seleção nacional, fez o que quis e quando quis. Pelo caminho, enriqueceu e fez-se "doutor". "Fui diferente dos outros", garante. É diferente.

O que é isso de estar na água? Tenho uma casa na aldeia onde passa o rio e às vezes vou até lá e fico a pescar, a falar e a ouvir o silêncio. Sabe que o barulho da água cria notas musicais. Por isso é que eu lhe disse que estava na água.

O António é filho de um músico. Sim. E sobrinho. O meu pai e o meu tio tocavam instrumentos de sopro e ainda me lembro dos coretos e dos ensaios lá em casa. Mas eu era duro de ouvido, não tinha jeitinho. Mas tinha jeito para o futebol. Só que os meus pais não gostavam que eu jogasse e era obrigado a fazer tudo à socapa. Recordo-me que a melhor coisa que aconteceu foi quando o meu pai começou a tocar violino. Sabe porquê?

Não. Eu conto-lhe. É que o meu pai obrigava-me a ouvi-lo tocar e o violino - que ele aprendeu de ouvido - exige muita concentração, pelos vistos. E eu aproveitava quando ele estava agarrado ao violino, perdido naquela concentração, para sair de casa de mansinho e jogar futebol. E eu queria jogar tanto à bola que me meteram num colégio interno, o Colégio da Formiga. A minha cama era o nº 62 e eu saltava muitas vezes o muro para ir ter com os meus amigos. Mas não gostei.

Do colégio? Porquê? Digo sempre que é o senhor Amadeu - não lhe digo o verdadeiro nome - que nos vendia cigarros. A miúdos de 12, 13 anos que vinham de aldeias, como eu. Imagine um clima daqueles, santificado, beatificado, de Jesus Cristo e os seus acólitos, e, depois, esta incoerência.

Era padre? Não, era o funcionário da camarata.

O António fumava? Se ele vendia, nós íamos atrás.

E o futebol? Só pensava em bola. Furava as bolas e dormia com elas.

Como foi parar ao FC Porto? À revelia dos meus pais. Eu é que dei o nome Oliveira porque eu não era conhecido como Oliveira coisa nenhuma. Dei só esse nome para despistar os meus pais [nome completo é António Luís Alves Ribeiro Oliveira] porque tratavam-me por Ribeiro e não Oliveira. Fui fazer um treino às escondidas e fui escolhido para os juvenis do FC Porto.

Como é que os pais descobriram? O barbeiro da família, o senhor Clemente, era um portista dos sete costados e assistia a todos os jogos. Estava eu a cortar o cabelo com o meu pai e ouvia o senhor Clemente: "Ó Ribeiro (o meu pai era tratado por Ribeiro Oliveira), ontem fui ver os miúdos a jogar e há lá um que é uma coisa..." E eu fiquei sem um pingo de sangue. Pensei: Pronto, estou feito. Está-se a referir a mim. Ele continuou com aquela conversa e piscou-me o olho e não revelou que era eu que andava a jogar nos juvenis do FC Porto. Outro dia, um padre do colégio, que já deixou de ser padre porque renunciou e casou-se, insistiu para ir treinar ao FC Porto. E quando lá chegámos eu disse-lhe: "Olhe que eu já jogo no FC Porto." Ele ficou perplexo. Não treinava e jogava só ao fim de semana e quando lá chegava já o jogo estava no intervalo e eu nunca queria dizer que estava a fugir do colégio e a esconder-me dos meus pais. E andei assim neste joguinho até que o meu pai descobriu que eu lhe tinha falsificado a assinatura - bem, falsificar, não, imitar. E depois resignaram-se, com uma condição: jogas, mas continuas a estudar. E fui para o lar do FC Porto para estudar.

E estudava? Então não estudava? As jogadas, os livres, os golos, passeava os livros pela Sá da Bandeira e na Brasileira.

Diz-se que era muito talentoso. É o que se diz.

E uma das críticas que lhe fazem era que treinava pouco. Alto lá, não é bem assim. O que dizem é que eu só jogava bem quando queria. Se visse que estava com um avanço aos outros jogadores, eu afrouxava, descansava e punha-me em banho-maria; mas se sentia que havia ameaça ou perigo eu recuperava logo. E não se esqueça que eu ganhei o prémio CNID (Associação dos Jornalistas de Desporto) três vezes (1978, 81 e 82) - não foi o prémio gandulo, ok? Mas o CNID - você tem respeito pelo CNID não tem?

Tenho. Pronto, e esse prémio distingue o melhor futebolista português e até ao Eusébio eu ganhei alguns prémios. E era um médio e não avançado.

De todos os jogadores com quem jogou, qual o melhor? Foi o Oliveira.

O António Oliveira? Você é que está a dizer.

Estou a perguntar-lhe quem foi o melhor... (Gargalhada) Foi o Oliveira, pá... Joguei com muitos bons jogadores, o Pavão, o Cubillas.

Porque saiu do FC Porto? Houve um movimento em 1980 a favor do Jorge Nuno Pinto da Costa, que viria a ser o presidente porque injustamente o tinham afastado do cargo de diretor para o futebol. O Pedroto foi para Guimarães, eu fui para Penafiel e o Pinto da Costa ficou sem fazer nada. Depois, surge o convite do Sporting, que, por acaso, também foi dirigido ao senhor José Maria Pedroto, que me disse: "Assina pelo Sporting, que eu vou ser treinador do Sporting." E eu assinei e o Pedroto não foi para o Sporting.

Sentiu-se enganado? Ninguém engana ninguém. Fui muito bem recebido em Alvalade.

Teve uma carreira curta porquê? Por causa das lesões? Tive uma lesão complicada. Andava há meses e meses, com mais de mil infiltrações, e descobriram que tinha Neuroma de Morton (lesão que ocorre num nervo dos dedos dos pés) e que era coisa chique e que só tinham os bai-la-ri-nos e os esquiadores - ora eu nunca foi esquiador nem bailarino. Perdi quase uma época no Sporting. Fui operado às duas plantas dos pés e um mês depois já estava operacional. Regressei, provei que conseguia ser melhor como os melhores e disse ao presidente do Sporting, João Rocha: "Não jogo mais futebol." E ele: "Mas olhe que tem aqui um contrato em branco." E eu: "Pois, mas eu não jogo mais futebol." (silêncio)

Foi uma decisão difícil? Sou de decisões ponderadas. Eu tinha-me dito que iria deixar de jogar futebol aos 30 anos e acabei com quase 31. Ainda fiz uns joguinhos no Marítimo, como treinador-jogador, depois do Sporting. E se viesse a ser treinador, aos 50 anos deixaria. Só não saí aos 50 anos porque caí no erro de regressar à Federação. A fase seguinte era licenciar-me até aos 60 anos - licenciei-me aos 54 anos.

Conseguiu deixar o futebol porque não precisava do dinheiro. Não admitia que nenhum jogador ganhasse mais um cêntimo do que eu. Podia ganhar igual; mais, não. E foi assim em todo o lado, até no Bétis. Fiz uma gestão da minha carreira e depois como treinador e selecionador. Eu não sabia que podia ser remunerado até ter 18 anos e por isso ganhava seis contos, e para ganhar oito contos ou me casava ou era internacional. Agora, eu fiz a gestão do que ganhava - o meu avô, o senhor Manuel Ribeiro, ensinou o meu pai, Joaquim Ribeiro de Oliveira, e o meu pai ensinou-me a mim que não se deve gastar mais do que aquilo que se ganha. Temos uma carreira curta e podemos perder o lugar para outro e se não jogarmos durante três ou quatro jogos já ninguém se lembra de nós.

Jogou no estrangeiro, no Bétis, mas esteve lá apenas uma época. O que correu mal? Um bocadinho de saudades e uma lesão, porque fui infiltrado na coxa num jogo que fiz pela Seleção - um célebre Bélgica-Portugal (17 de outubro de 1979) - e quando regressei falhei um penálti contra o Real Madrid e rasguei-me outra vez. E tive um período muito grande lesionado e desmotivei-me. E tive muitas saudades do Porto, como é evidente. Vinha tomar café ao Porto, jantar e voltava de madrugada a Sevilha, para o treino, que, por acaso, era às 10 horas.

De onde nasceu a frase: "Por cada leão que cair, outro se levantará." Quer que eu lhe diga? Vai rir-se, acredite. Veio da minha cabeça (risos).

Gosta de arte. Eu podia ter sido músico mas não tive essa vocação. A pintura (terá mais de 400 quadros de Júlio Pomar) foi-me apresentada pelo Vítor Campos e o Manuel António, jogadores da Académica, quando estive em Coimbra. A pintura, toda ela é diferente, não há quadros iguais, todos eles têm uma mensagem, uma época, uma textura, uma história.

Licenciou-se aos 54 anos em Direito. Porquê? Para fazer a vontade à minha mãe e provar a mim próprio aquilo que eu dizia há anos - qualquer gajo pode ser doutor, mas, jogar à bola, pode andar 100 anos que não chega lá. Ninguém consegue fazer o que o Cristiano Ronaldo faz. Ninguém consegue fazer o que o Messi faz. Ninguém consegue fazer o que o Rui Costa fazia mas o Rui Costa se quiser pode ir para a Universidade e licencia-se. O jogador era o analfabeto, que não sabia comer com os talheres.

E porque gosta tanto do Rui Costa, se treinou o Figo também? Era um jogador diferente, elegantíssimo do ponto de vista estético e plástico.

Aqui fala-se de portismo, de Jesus, da família que "não se escolhe", dos jornais e do futebol ao qual nunca mais se voltará. E de hotelaria e construção civil.

No início do campeonato, disse que Jorge Jesus não teria perdido um jogo com a equipa que o FC Porto tem. Mantém essa opinião? Disse isso como poderia ter dito que o Mourinho seria campeão europeu com este plantel. Do meu ponto de vista - do ponto de vista de um adepto, OK?, que eu sou portista e serei portista até morrer, carago! - o FC Porto está aquém do potencial que tem. E ninguém me tira isto da cabeça. Ninguém! E o tempo está a dar-me razão, não está? Este FC Porto tem grandes, grandes jogadores, que podem discutir a Liga dos Campeões e o campeonato também. A cultura do FC Porto tem de ser ganhar e, depois de ganhar, tem de ser ganhar. Ganhar sempre.

E o Jesus? (pausa) Tem de se gostar do trabalho que ele tem feito. O Jesus é um bom treinador e está à frente do campeonato deste a quinta jornada com uma equipa que é menor - aliás, que é muito inferior ao FC Porto.

O que lhe parece este Sporting? O que acho deste Sporting? Acho o mesmo que toda a gente acha: não basta dizermos que somos candidatos, temos de provar que somos candidatos. Mas, enfim, é normal que o FC Porto, que o Benfica e que o Sporting digam sempre que são candidatos porque isso está no ADN deles. Por outro lado, tem de haver uma gestão inteligente daquilo que se faz e do que se vai dizendo.

Está a criticar Bruno de Carvalho? Não, não. Então não me perguntou pelo Sporting? Eu estou a responder à sua pergunta, porque o Sporting não é só o Bruno de Carvalho, como o FC Porto não é só o Jorge Nuno Pinto da Costa e o Benfica não é o Luís Filipe Vieira. Os clubes existem muito para lá das pessoas que lá estão. Convém não esquecer.

Gostou de ser treinador? Naa... Eu gostei foi de jogar à boola, pá. Repito: eu gostei foi de jogar à bola! Quer ouvir outra vez? Paixão, amor, chamamento, dom... Olhe escreva aí que é um dom, com letras garrafais. Quem tem esse dom joga futebol; quem não o tem... Olhe, quem não o tem dá uns chutos contra a parede.

Esteve ligado a algumas polémicas na seleção: o 'Caso Paula', os problemas no Mundial-2002... Olhe, quanto ao 'Caso Paula' ficou provado em tribunal que eu não tinha nada a ver com o que se passou. Soube quais foram os jogadores envolvidos mas nunca direi nomes - sei apenas que tentaram pôr o meu nome lá misturado. Já no Mundial-2002... Cometi um erro em voltar à Federação e algumas pessoas que ainda lá estão (e outras que já saíram) quiseram fazer-me a cama quando lhes mostrei o plano de renovação para o Euro-2004. Não houve alhos, não houve bichos enterrados, nada - não estive metido em nada disso.

E o seu irmão, Joaquim Oliveira? As pessoas esquecem-se de algumas coisas e uma delas é que eu é que fui o fundador da Olivedesportos e eu sou cofundador da SportTV. Está lá escrito o meu nome embora o meu irmão [Joaquim Oliveira] venda por aí a ideia de que aquilo é tudo dele, da cabeça dele. Mas não é. Fui eu quem começou com o negócio e dei-lhe uma mãozinha e um empurrão. Ele tem o mérito de ter continuado e feito outras coisas, mas eu estive no arranque porque já pensava nisso ainda andava a jogar futebol.

Porque rompeu com ele? Porque sim, porque a dada altura ele quis começar a comprar jornais. E eu não queria nada com aquilo porque sei que o papel está condenado a deixar de existir nesta era digital. E, portanto, saí. Eu não escolho a família que tenho.

O que anda a fazer agora? Sou empresário e até lhe vou dizer que estou a recuperar a Brasileira para a transformar num hotel de cinco estrelas com 84 quartos. Não percebo nada de construção, mas quando quero fazer alguma coisa rodeio-me das pessoas mais capazes. Mais tarde também poderá haver uma participação de alguém para a gestão do hotel porque, lá está, também não percebo nada de hotelaria!

E o futebol? Foi um capítulo que fechei.