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Desviem o olhar. Este é o eclipse da bola de ouro

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Barcelona e Real defrontam-se este domingo (20h, SportTV1) numa altura em que Messi brilha e Cristiano Ronaldo desapareceu.

Mariana Cabral (texto) Carlos Esteves (infografia)

Cristiano Ronaldo e Messi, as duas estrelas maiores do Real Madrid e do Barcelona

Cristiano Ronaldo e Messi, as duas estrelas maiores do Real Madrid e do Barcelona

GERARD JULIEN/AFP/Getty Images

Macacos me mordam!, diria um tipo barbudo quando confrontado com a ideia que se segue. Explicando: já se sabe que Ronaldo está, desde a semana passada, em blackout para os jornalistas até ao final da época, mas há um jovem repórter que podia ser a salvação do astro português. Ele é belga, chama-se Tintin e dizem que consegue controlar as estrelas quando lhe apetece. Pelo menos foi o que fez no "Templo do Sol". Ok, era só uma banda desenhada. Mas, neste momento, perante o eclipse de Ronaldo, até uma ideia absurda parece boa.

Depois de um início de época demolidor - nos primeiros oito jogos da Liga espanhola foram q-u-i-n-z-e golos -, que deixou quase todo o mundo do futebol rendido, o vencedor da Bola de Ouro desapareceu. Quando? No início de 2015. Quando ganhou a Bola de Ouro, precisamente.

A 12 de janeiro, Ronaldo superou Messi em mais uma eleição de melhor do mundo, com mais do dobro dos votos. E elevou a fasquia. "Nunca pensei ganhar três vezes esta bolinha, mas espero não parar por aqui. Espero apanhar o Messi já na próxima época. Já disse que quero entrar na história do futebol como o melhor." 

Ronaldo diz: odeio-te, 2015Cristiano quer, Ronaldo sonha e a história faz-se, acreditou ele e acreditámos todos nós, porque se um miúdo madeirense pobre e lingrinhas consegue fazer-se craque no meio da improbabilidade, tudo é possível.

Só que 2015 não tem sido favorável à ambição do CR7. Primeiro, foi a separação de Irina Shayk, com quem namorava desde 2010. Com o coração partido, o melhor mesmo era focar-se no trabalho. Certo? Errado. A 24 de janeiro, Ronaldo perdeu a cabeça contra o Córdoba e pontapeou e esmurrou um adversário. Foi expulso pela nona vez na carreira e à saída ainda teve um gesto feio para as bancadas, ao mostrar ostensivamente o símbolo de campeão do mundo, conquistado em dezembro.

Foi suspenso por dois jogos, mas os adeptos ficaram felizes porque o craque podia jogar contra o Atlético de Madrid, a 7 de fevereiro. Já trintão (fez 30 anos dois dias antes), Cristiano jogou e foi humilhado juntamente com os restantes merengues com uma goleada. Se perder já era mau, pior foi o que aconteceu depois. Ronaldo já tinha a festa de aniversário marcada para aquela noite e, em pleno período de azia merengue, apareceu a cantar com um cantor colombiano.

Se a relação com os adeptos já estava tremida, pior ficou quando o Real perdeu com o Atlético de Bilbau e deixou o Barcelona roubar-lhe a liderança (um ponto separa as duas equipas). Seguiram-se assobios, que continuaram na derrota com o Schalke 04 em Madrid e na vitória da semana passada com o Levante, quando Ronaldo parou a meio do jogo, pôs as mãos nas ancas e soltou um "foda-se" de frustração. Os espanhóis perceberam mal a coisa e no dia seguinte já diziam que Cristiano tinha insultado os adeptos. Com traduções assim, é mesmo caso para dizer asneiras.  

Messi diz: 'te amo', 2015  Polémicas à parte, consideremos os números. Nove golos e cinco assistências em 14 jogos não é um registo tão mau quanto isso para um avançado. Certo? Errado. Porque quando falamos nos números de Ronaldo, os critérios são outros. De excelência e não de mediania.

Especialmente porque o grande rival começou o ano com a pica toda: 20 golos e 11 assistências em 18 jogos. Convenhamos que é uma goleada das antigas em termos estatísticos. "Não se pode comparar um mito a um jogador que está praticamente na reta final da carreira", disse com rispidez o ex-Barcelona Stoichkov.

É verdade que quando Ronaldo estava a receber a Bola de Ouro, Messi estava debaixo de fogo porque tinha discutido com Luis Enrique, mas desde então tem sido sempre a subir, com o astro argentino a ultrapassar Ronaldo como melhor marcador da Liga (tem 32 golos, mais dois do que o rival) e deliciando os adeptos - incluindo Pep Guardiola, que estava na bancada e metia as mãos à cabeça - com fintas inacreditáveis esta semana perante o Manchester City.

Os jornais catalães dizem que o segredo do Messi renovado está num dietista novo, italiano, que o fez perder 3,5 kg. Mas o brilho, como o apagão de CR, parece mais psicológico do que outra coisa qualquer. Certo é que a rivalidade continuará forte, aconteça o que acontecer. O bom do eclipse? É temporário.