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De Silva para Silva: "Espero que o Bernardo seja como o nosso Rui Costa"

Perguntámos a Pedro Adão e Silva porque é que os benfiquistas gostam tanto de um puto de 20 anos que não cumpriu um único jogo completo pela equipa principal e que foi vendido ao Mónaco por 15,75 milhões de euros. A resposta veio em forma de crónica.

Terá sido Tony Adams, mítico capitão do Arsenal, que disse que "se jogares pelo nome inscrito na frente da camisola, os adeptos recordarão o nome inscrito nas costas". A frase fixa uma visão romântica do futebol, de um jogo que já não existe, onde a figura do jogador-adepto era uma possibilidade realista.

Os tempos "desportivos" já não estão para isso. Nós, benfiquistas, não mais devemos esperar exemplos como os daqueles que resistiram às propostas materialmente tentadoras de clubes mais (novos) ricos, no momento da fundação - mantendo o espírito popular, definido pelo grande Cosme Damião na Farmácia Franco.

Vivemos por isso uma tensão permanente: queremos perpetuar uma visão romântica do futebol, própria do adepto, mas a realidade chama-nos de forma sistemática.

O Bernardo era uma raridade e um resquício de um passado que teima em nos abandonar. Jogador adepto como nós, mas com o talento com que todos sonhamos. Uma predisposição natural para jogar futebol (que, como é sabido, é daquelas coisas que não se aprende, nem se ensina, mas que se vislumbra logo no primeiro toque na bola) e, a pairar sobre isso, um amor filial ao Glorioso.

Há mais de um ano, escrevi no Record que "de quando em quando surge um jogador adepto como nós, mas com o talento que ambicionámos ter. Um sofredor que tem a sorte de poder sofrer no relvado, de camisola ao peito. Há jogadores profissionais que honram a camisola; mas uma coisa é jogar com afinco, outra é jogar com afinco com a camisola do clube do coração. Momentos há em que, numa espécie de epifania, ao adepto se junta o empenho e o talento. É desta conjugação que nascem os jogadores que nos fazem sonhar".

O texto era sobre o Bernardo. O mesmo Bernardo que, num desfecho anunciado, mas que nos procuraram esconder de forma tosca, deixa agora o Benfica, onde na verdade nunca chegou a jogar.

Bem sei que, nos tempos modernos, o que nos prende a um clube são as camisolas, a ideia de equipa e os jogadores que (muito) transitoriamente as vestem com profissionalismo. Sei também que um clube português não tem condições financeiras para rejeitar ofertas de 15 milhões por projetos de jogador (por muito que gostemos do Bernardo, é ainda o que ele é). Mas, o adepto que há em mim vive com frustração os choques com a realidade.

No prolongamento da infância e fuga ao real, que são as formas como vivo o futebol, o Bernardo seria o nosso capitão, marcaria golos atrás de golos e o seu pé-esquerdo resgataria a memória que guardo do Chalana da minha infância. Sei bem que nada será como eu sonhei, mas sei também que teremos cá o Maxi e o Luisão para mostrarem como o amor à camisola também se aprende; o Talisca para alimentar fantasias; o Gaitán para nos fazer crer que podemos ambicionar toda a grandeza e o Gonçalo Guedes para fazer de Bernardo. De resto, podemos sempre manter a esperança de que, um dia, o Bernardo se cansará do sucesso desportivo e material e, como o nosso Rui Costa, nos concederá (e conceder-se-á) a Glória de regressar à Luz.