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Acontecimento Nacional de 2016: O país inteiro em campo

Foram semanas com os nervos à flor da pele. Portugal ganhou por fim uma grande prova de seleções

Pedro Candeias

Pedro Candeias

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André de Atayde

André de Atayde

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Jornalista

Isto tem o seu quê de poético, porque houve um deus que quis, um homem que sonhou com o que Deus quis, e uma obra que nasceu. Claro, o homem é Fernando Santos, profundamente católico e crente e o primeiro (e único) a dizer desde o início que Portugal se qualificaria para o Campeonato da Europa — e que sairia de lá vencedor. E mesmo quando tudo parecia desencaminhado e inquinado, com um empate com a Islândia (1-1), um segundo empate com a Áustria (0-0), com Cristiano Ronaldo a jogar mal, a falhar penáltis, um sistema tático que não se compreendia e mudava, ora com dois avançados ora com três, com jogadores em sub-rendimento; mesmo depois de tudo isto, o selecionador reconfirmou as suas certezas: 
“Já avisei a minha família de que só volto a Portugal no dia 11 de julho e que vou ser recebido em festa”. Fernando Santos tinha razão.

A bola

No dia 10 de julho, Portugal ganhou o Europeu no prolongamento, com um golo de Éder ao minuto 109 numa jogada em que o domínio de bola é frágil, o pé bate mal na bola e o remate sai estupidamente colocado; e, convém não esquecer, sem Cristiano Ronaldo desde o minuto 25, e diante da França que jogava em casa, numa tarde de calor em que muitas traças fizeram uma visita inesperada e caricata. Como foi isto possível? Ninguém sabe e aí é que está a piada da coisa.

Repare no contexto: antes da final, Éder tinha apenas três golos marcados pela seleção nacional, todos eles em encontros particulares; Ronaldo tem quatro Bolas de Ouro, marca mais de um golo por jogo há cinco anos, é o maior goleador da história de Portugal — e saiu lesionado e andou a meio-gás durante o Euro; a seleção empatara três vezes e passara em terceiro lugar um grupo comezinho (Áustria, Islândia e Hungria); ultrapassara a Croácia nos oitavos de final, no minuto 117, com um golo de Ricardo Quaresma, que toda a gente julgava estar morto para o futebol; nos quartos de final salvou-se nos penáltis e ganhou, enfim, ao País de Gales por 2-0 nas meias-finais. Pelo meio, Ronaldo foi criticado por falhar a bola na baliza, por acertar com um microfone num lago, e por ser individualista — e acabou amado, como ele sempre quis, com os seus penteados e o seu físico, com o vernáculo e o “falhares que se f***”, os abraços a Quaresma, os incentivos aos colegas, a dor em Saint-Dennis ao sair do teatro como um soldado ferido em combate, o murro na perna de Adrien Silva e a sua perna ligada, os encontrões a Fernando Santos e as indicações aos companheiros naqueles últimos e longos segundos finais. Ronaldo humanizou-se aos olhos dos portugueses. Tornou-se um de nós.

Foi um percurso estranho e atípico, consistentemente baseado no pragmatismo e também na sorte de quem aproveitou as circunstâncias e ganhou o que nunca ganhara.

A portugalidade

Parece que alguém se deu ao trabalho de escrever este roteiro tuga, em que tudo foi resolvido à última hora, numa reviravolta sofrida e inesperada, baseada no talento, na curiosidade e na fé, como os navegadores que achavam estar a descobrir o caminho para a Índia e deram de caras com o Brasil e com isso mudaram a cartografia do mundo.

A vitória no Euro foi uma vitória da portugalidade, da emigração em Marcoussis, em particular, e em França, no geral, que arrancou com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa a celebrarem o dia de Portugal no Palácio do Eliseu, desejando o melhor para os franceses e para a seleção francesa, como se soubessem que, dali a um mês, estariam reunidos em Saint-Denis para celebrar um triunfo sobre aqueles. E foi uma pequena vingança para a seleção do Euro-84 de França; a equipa de Chalana, Manuel Bento, Jordão, Jaime Pacheco, Sousa, da très portugaise liderança a quatro (Toni, Cabrita, António Morais e José Augusto) para não ferir suscetibilidades clubísticas, que caíra diante de Michel Platini — o mesmo Platini que hoje foi afastado da UEFA por suspeitas de corrupção. Não deixa de ser irónico.

Por cá, o país parou, em suspenso, com o cachecol no carro e a bandeira à janela, à espera do que estava para acontecer, sendo que se pressentia que o vento lhe era favorável. As televisões, os jornais, os sites, os comentadores e os jornalistas cavalgaram a improvável história da seleção nacional em França com diretos, especiais, comentários, análises — enfim, um frenesim que incluiu os mergulhos de Bessone Basto à procura do microfone perdido.

Quem não gostava de futebol passou a gostar de futebol porque se tornou impossível não gostar daqueles rapazes que vestiam as quinas e diziam estar a jogar por Portugal e pelos portugueses contra os outros, maiores e mais fortes do que nós. Foi como revisitar a Batalha dos Atoleiros, a Batalha de Aljubarrota, o Caminho Marítimo para a Índia e a Restauração da Independência, marcos históricos conseguidos à custa do génio, da criatividade, da luta, da perseverança, e, sobretudo, porque alguém se lembrou de acreditar nas causas impossíveis.

Durante o Euro e após o Euro, Portugal redescobriu por inteiro o orgulho perdido após anos, décadas e séculos de derrotas, de depressão e de conformismo, em que pouco ou nada aconteceu a não ser o “quase” que nos definia enquanto povo; passáramos do Tratado de Tordesilhas para o vazio. O 25 de Abril e o fim da ditadura foram, no século XX, as últimas vezes que os sonhos se tornaram reais, a nossa última afirmação coletiva e, desde então, pouco tínhamos de que nos gabarmos a não ser do sol, do peixe, do vinho, da vista, da capacidade de organizar exposições, boas festas e bons festivais. E um campeonato europeu que se perdeu em casa contra a Grécia.

A casa comum

Ganhar o Europeu, por outro lado, significou o triunfo do Portugal suave, moderado e inclusivo, onde idealmente todos podem caber e contribuir para o bem comum: Fernando Santos é um lisboeta de gema, Cristiano Ronaldo é madeirense, Eliseu é açoriano, Nani nasceu em Cabo Verde e Éder na Guiné, Raphaël Guerreiro e Adrien Silva são dois luso-franceses e Cédric é luso-alemão, William é filho de angolanos e Bruno Alves de um brasileiro; Quaresma é orgulhosamente cigano. Isto é Portugal na medida em que Portugal saiu da costa para se espalhar pelo planeta.

De agora em diante, os pais contarão aos filhos e os filhos aos seus futuros filhos histórias sobre este grupo de homens que zarparam de Lisboa para conquistar a Europa. E isto ficará na memória coletiva e passará a fazer parte da nossa cultura popular como uma das nossas maiores conquistas. Até que alguém se lembre de fazer melhor.