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Mulheres fazem o pleno

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Londres, a única cidade com três Jogos Olímpicos na sua história (1908, 1948 e 2012)

© Andrew Winning / Reuters

Ao organizar os XXX Jogos Olímpicos, em 2012, Londres tornou-se a primeira cidade a inscrever no seu historial três edições. Para as mulheres, o evento foi histórico: por pressão do Comité Olímpico Internacional (COI), os três países que nunca tinham enviado atletas do sexo feminino fizeram-no pela primeira vez. Este é o último de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

A atribuição a Londres dos Jogos de 2012 conferiu à cidade um duplo reconhecimento. Por um lado, elevou-a ao patamar único de ser a primeira cidade do mundo com três edições dos Jogos no currículo — a primeira há mais de 100 anos (1908), a outra no pós-II Guerra Mundial (1948).

Por outro lado, deu relevância à sua multiculturalidade — uma cidade de quase dez milhões de habitantes com muitas bolsas étnico-religiosas no seu seio —, elogiando essa mais valia para a organização do evento.

A mensagem sobreviveria 24 horas... No dia seguinte à reunião do Comité Olímpico Internacional (COI), em Singapura a 6 de julho de 2005, que atribuiu os Jogos a Londres, a cidade sofreria “o seu 11 de Setembro”.

A 7 de julho, quando os londrinos ainda sorriam de satisfação com o presente dos Jogos, e nas ruas ainda havia sinais de festa, quatro ataques suicidas visaram o sistema de transportes públicos da cidade, mataram 52 pessoas e criaram nos londrinos um sensação de grande desconfiança em relação, precisamente, a esse multiculturalismo.

O logotipo dos Jogos de Londres foi muito criticado, mas sobreviveu com destaque até ao fim do evento

O logotipo dos Jogos de Londres foi muito criticado, mas sobreviveu com destaque até ao fim do evento

© Murad Sezer / Reuters

Com uma candidatura liderada pelo campeão olímpico Sebastian Coe, Londres ganhou os Jogos a Paris, que também já tinha recebido duas edições. Mais três cidades foram a votos: Nova Iorque foi a primeira a sair do caminho, depois Moscovo e por fim Madrid.

Conquistada a organização, Londres preocupou-se em desenvolver um projeto verde e sustentável. No centro do projeto estaria o Parque Olímpico, previsto para uma zona deprimida da cidade, castigada pelos bombardeamentos da Luftwaffe durante a II Guerra Mundial, e que graças aos Jogos tinha a expectativa de um futuro diferente.

Para a organização era tão importante a utilidade das infraestruturas passado o evento como o sucesso desportivo do mesmo. E a verba desembolsada pela norte-americana NBC — a estação dos Jogos desde Seul (1988) — em muito ajudaria ao equilíbrio do projeto. Pela primeira vez, os direitos de transmissão superaram os 1000 milhões de dólares — Londres recebeu 1181 milhões, mais 287 milhões do que Pequim.

Três países mandam mulheres pela primeira vez

Quando foram inaugurados, a 27 de julho, os Jogos de Londres fizeram história nesse mesmo dia. Pela primeira vez, e após pressão do COI, três países enviaram atletas do sexo feminino pela primeira vez: Arábia Saudita, Qatar e Brunei. Eram os únicos que nunca o tinham feito.

A Arábia Saudita, onde a atividade desportiva para as mulheres é bastante restrita, enviou a judoca Wojdan Shaherkani, que tinha começado a praticar a modalidade havia dois anos, e a corredora de 800 metros Sarah Attar, nascida nos Estados Unidos, onde vive atualmente.

Sarah Attar, uma das duas atletas sauditas que competiram em Londres

Sarah Attar, uma das duas atletas sauditas que competiram em Londres

© Suzanne Plunkett / Reuters

No seio do contingente de árabes, algumas prestações foram apontadas a dedo. Dois atletas da Tunísia — que liderara, no ano anterior aos Jogos, o arranque da Primavera Árabe — foram visados por extremistas, acusados de comportamentos anti-islâmicos.

Habiba Ghribi, que corria de cabelos ao vento, foi criticada por usar equipamento insinuante. Em Londres, ela foi segunda nos 3000 metros obstáculos, um resultado que em 2016 sofreria uma reviravolta. Em junho passado, ela foi oficialmente presenteada com a medalha de ouro referente a essa prova, retirada à primeira classificada, a russa Yuliya Zaripova, acusada de ter corrido dopada.

Um outro tunisino, o nadador Oussama Mellouli — campeão olímpico na maratona de 10 km, uma novidade no programa de provas — foi alvo de uma campanha de ódio no Facebook, desencadeada pelo grupo extremista Ansar al-Sharia. Mellouli tinha bebido sumo antes de uma prova. Os Jogos de Londres coincidiram com o Ramadão...

Habiba Ghribi (à esquerda) e a russa Yuliya Zaripova, que perderia o ouro dos 3000 m obstáculos para a tunisina por causa do doping

Habiba Ghribi (à esquerda) e a russa Yuliya Zaripova, que perderia o ouro dos 3000 m obstáculos para a tunisina por causa do doping

© Dylan Martinez / Reuters

Antes dos Jogos, o presidente do COI, Jacques Rogge, prevenira os atletas que não haveria contemplações se se fingissem lesionados para não confrontarem adversários de determinados países por razões políticas. A questão vinha-se colocando com frequência quando estavam em presença atletas árabes e israelitas.

Invocando uma “infeção intestinal”, o judoca iraniano Javad Mahjoob retirou-se dos Jogos de Londres, evitando assim combater contra um israelita.

Cortina no ginásio

Igualmente no judo, a equipa libanesa recusou treinar ao lado da equipa de Israel e exigiu que fosse instalada uma cortina para que os seus atletas não tivessem de olhar para os israelitas.

Nos Jogos das mulheres, a grande estrela foi... um homem. Ao conquistar a sua 22º medalha, o nadador norte-americano Michael Phelps tornou-se o atleta olímpico mais medalhado de todos os tempos.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os sprinters desaparecidos

    A “jogar” em casa, dois “sprinters” gregos envergonharam o país ao serem apanhados a mentir para justificar a falta a um controlo antidoping. Este foi apenas um de vários escândalos que marcaram os Jogos de Atenas, em 2004. Este é o vigésimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Tibete, essa palavra maldita

    A escolha de Pequim como cidade organizadora dos Jogos de 2008 foi controversa desde a primeira hora. O registo da China em matéria de respeito pelos direitos humanos e a eterna questão do Tibete mantiveram-na permanentemente sob fogo, apesar da sua pujança económica e desportiva. Este é o vigésimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época