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Tibete, essa palavra maldita

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Polícias chineses no exterior do estádio olímpico de Pequim, também chamado “Ninho de Pássaro”

© Jason Lee / Reuters

A escolha de Pequim como cidade organizadora dos Jogos de 2008 foi controversa desde a primeira hora. O registo da China em matéria de respeito pelos direitos humanos e a eterna questão do Tibete mantiveram-na permanentemente sob fogo, apesar da sua pujança económica e desportiva. Este é o vigésimo oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

A atribuição dos XXIX Jogos Olímpicos à República Popular da China foi um processo seguido na sombra pela polémica. Rivais geopolíticos denunciavam o desrespeito pelos direitos humanos e pelo ambiente. Nada que abalasse a determinação do Comité Olímpico Internacional (COI) e do seu presidente que há muito vestira a camisola chinesa.

Juan Antonio Samaranch acreditava que, à semelhança do que tinha acontecido com a Rússia e com a Coreia do Sul, organizar os Jogos impulsionaria o desenvolvimento social, a democratização e contribuiria para “uma China mais aberta”. Defendia também que os Jogos não eram competições do “mundo livre”, mas pura e simplesmente “do mundo”. Se a China era autorizada a participar bos Jogos, por que não poderia organiza-los?

Para os críticos da posição de Samaranch, permitir à China que organizasse os Jogos significaria legitimar o seu regime repressivo. Além de que a China iria usar os Jogos como instrumento de propaganda e de demonstração de poder.

Um favor ao mundo

A decisão do COI estava marcada para 2001. Colin Powell, o secretário de Estado norte-americano de George W. Bush, alertava: Se Pequim for eleita, receberá “sete anos de fiscalização por parte da comunidade internacional”. Pouco importava que, em finais desse ano, os EUA concedessem à China o estatuto de “nação mais favorecida”, com forte impacto ao nível das transações comerciais...

Como previsto, em 2001, o sonho de Pequim tornou-se realidade. “O COI fez um favor ao mundo. Isto irá mudar a China”, vaticinou Samaranch.

Os anéis olímpicos projetados nos céus de Pequim, durante a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos

Os anéis olímpicos projetados nos céus de Pequim, durante a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos

© Daniel Aguilar / Reuters

“A maioria dos membros [do COI] estava convencida que tinha chegado o momento de conceder os Jogos à nação mais populosa do mundo”, explicaria Zhenliang Hé, ex-vice-presidente do COI. “Realizar os Jogos na China não só constituiria uma oportunidade excelente para trazer toda a atmosfera e o espírito dos Jogos até 1300 milhões de chineses, mas também para demonstrar o papel valioso do Movimento Olímpico na promoção do desenvolvimento do país anfitrião.”

Para além do potencial económico, a China tinha credenciais desportivas que não podiam ser ignoradas. Ganhara a sua primeira medalha de ouro em Los Angeles 1984 — ao mesmo tempo de Portugal —, através do atirador Haifeng Xu. Desde então vinha ameaçando de forma consistente a liderança desportiva dos Estados Unidos.

Guardas fronteiriços saúdam os Jogos de Pequim, construindo os anéis olímpicos com bóias de borracha, em Wenzhou, na província de Zhejiang (leste)

Guardas fronteiriços saúdam os Jogos de Pequim, construindo os anéis olímpicos com bóias de borracha, em Wenzhou, na província de Zhejiang (leste)

© Reuters

No reverso da medalha de todo este potencial estava a ocupação chinesa do Tibete, que agitava ativistas um pouco por todo o mundo. Antes e durante os Jogos de Pequim, a campanha “Liberdade para o Tibete” fez-se sentir por várias vezes, criando embaraços à organização.

O transporte da tocha olímpica — que era suposto ser uma celebração do espírito dos Jogos — tornou-se uma verdadeira prova de obstáculos. À sua passagem por Londres, foi permanentemente acompanhada por manifestantes pró-Tibete, agitando bandeiras e gritando “Tem vergonha China!”

O cordão de segurança em torno da tocha chegou a ser quebrado uma vez e, noutra situação, um homem quase conseguiu apagar a chama com um extintor. Na Grécia, durante a primeira etapa do percurso da tocha — que parte sempre de Olímpia —, o fogo chegou mesmo a ser apagado por manifestantes pró-Tibete.

Tentativa falhada de interceção da tocha olímpica, à sua passagem por Londres, a 6 de abril de 2008

Tentativa falhada de interceção da tocha olímpica, à sua passagem por Londres, a 6 de abril de 2008

© Reuters

Um outro protesto original aconteceu no coração dos Jogos, junto ao estádio olímpico. O escocês Iain Thom e a britânica Lucy Fairbrother conseguiram iludir a segurança e penduraram, num poste elétrico, um cartaz adaptando o slogan dos Jogos à sua causa. Em vez de “Um mundo, um sonho”, escreveram “Um mundo, um sonho, liberdade para o Tibete”. Foram deportados, não sem antes Iain fazer número para captar a atenção dos media. Pendurado no poste, conversou ao telemóvel com jornalistas que estavam no chão.

Durante as competições, no primeiro dia de provas equestres, em Hong Kong, uma ativista invadiu a arena. Menos efusivo, mas igualmente comprometido com a causa, o ciclista australiano Cadel Evans (vencedor de várias etapas no Tour) foi proibido de envergar uma camisola com o lema “Free Tibet” (Tibete Livre), como o tinha feito numa Volta à França.

Minoria com 20 milhões

Pela sua quantidade e intensidade, os protestos pró-Tibete quase ofuscaram outros embaraços para Pequim. Antes e durante os Jogos, atentados na província ocidental chinesa de Xinjiang revelaram problemas maiores dentro da China. Num desses ataques, atribuído à minoria separatista muçulmana uigur (uma minoria de 20 milhões de pessoas), morreram 16 polícias.

Medalha de prata Natalia Paderina (Rússia, à esquerda) e medalha de bronze Nino Salukvadze (Geógia), no tiro, posam juntas num apelo à paz entre os respetivos países

Medalha de prata Natalia Paderina (Rússia, à esquerda) e medalha de bronze Nino Salukvadze (Geógia), no tiro, posam juntas num apelo à paz entre os respetivos países

© Desmond Boylan / Reuters

Com os Jogos de Pequim em curso, a Geórgia e a Rússia entraram em conflito a propósito da região separatista da Ossétia do Sul. Desde Pequim, alguns atletas reagiram à guerra enviando mensagens de paz. Foi o que aconteceu no pódio da prova feminina de tiro com pistola a 10 m. As medalhadas Natalia Paderina (Rússia) e Nino Salukvadze (Geórgia) fizeram questão de posar juntas, num apelo implícito à trégua e ao diálogo entre os respetivos países.

A organização chinesa dos Jogos seria coroada com a liderança no quadro das medalhas. Apesar dos EUA terem conquistado mais medalhas (110, comparativamente a 100 da China), os chineses amealharam mais ouros (51, enquanto os norte-americanos levaram 36).

Os XXIX Jogos ficarão na memória de muitos por uma maravilha da arquitetura: o estádio “Ninho de Pássaro”, um palco de excelência para atletas de excelência — como Usain Bolt. O jamaicano saiu de Pequim como “o ser humano mais rápido de sempre”. O “relâmpago” venceu os 100 e os 200 metros e ainda a estafeta 4x100 metros, com três recordes do mundo. Nos Jogos de Londres, quatro anos depois, repetiria tudo outra vez.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os sprinters desaparecidos

    A “jogar” em casa, dois “sprinters” gregos envergonharam o país ao serem apanhados a mentir para justificar a falta a um controlo antidoping. Este foi apenas um de vários escândalos que marcaram os Jogos de Atenas, em 2004. Este é o vigésimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época