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Os sprinters desaparecidos

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Prova de estrada em ciclismo, muito próximo da Acrópole, Atenas

© Reuters Photographer / Reuter

A “jogar” em casa, dois “sprinters” gregos envergonharam o país ao serem apanhados a mentir para justificar a falta a um controlo antidoping. Este foi apenas um de vários escândalos que marcaram os Jogos de Atenas, em 2004. Este é o vigésimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

Após ceder aos interesses comerciais e entregar os Jogos do Centenário aos EUA, o Comité Olímpico Internacional (COI) procurou emendar a mão e atribuiu à Grécia a edição de 2004. Os Jogos estavam de volta a casa.

Para assinala-lo de forma especial, o lançamento do peso masculino e feminino foi agendado para o sítio arqueológico da antiga Olímpia. O torneio não exigia muito espaço físico pelo que o património não correria riscos.

Pierre de Coubertin não teria aprovado a presença de mulheres em Olímpia. E mais incomodado teria ficado com o desfecho da competição feminina. A russa Irina Korzhanenko, que ganhou a medalha de ouro, acusou positivo no controlo antidoping e foi expulsa. Realizada num sítio tão simbólico, esta prova tinha manchado os Jogos com aquilo que de pior eles tinham chegados ao século XXI.

A russa Irina Korzhanenko, durante a prova do arremesso do peso, no sítio arqueológico de Olímpia

A russa Irina Korzhanenko, durante a prova do arremesso do peso, no sítio arqueológico de Olímpia

© Kieran Doherty / Reuters

Após o escândalo “Ben Johnson”, os amantes do atletismo quase tinham perdido a fé nos “sprinters” e nos seus resultados aparentemente impossíveis. Em Atenas, dois velocistas gregos contribuíram para esse estado de alma. Kostas Kederis e Katerina Thanou, medalhados com o ouro em Sidney, ele nos 200 metros, ela nos 100, faltaram a um controlo antidoping obrigatório, alegando terem ficado retidos num acidente de trânsito.

A desculpa não colheu e eles retiraram-se dos Jogos, antecipando-se a uma expulsão anunciada. Ficaria provado que forjaram a cena do acidente e foram suspensos durante dois anos. Em 2008, Katerina Thanou seria selecionada para competir nos Jogos de Pequim, mas o COI recomendou que a sua acreditação fosse recusada.

Vodafone e Siemens no pior dos Jogos

O regresso dos Jogos à origem ficou marcado por outros escândalos que implicaram grandes empresas internacionais, uma delas a Vodafone. Antes e durante as competições, a rede móvel no país ficou vulnerável devido à instalação de software ilegal que permitiu escutas dos preparativos de segurança e a altas figuras políticas gregas.

Outro caso atingiu a Siemens. Na Alemanha, investigadores descobriram que a empresa injetara “dinheiro sujo” em partidos políticos gregos para garantir contratos significativos de fornecimento de equipamentos à organização dos Jogos Olímpicos. Os subornos implicaram dirigentes do PASOK (socialista) e da Nova Democracia (direita).

Prova de ginástica acrobática, em Atenas

Prova de ginástica acrobática, em Atenas

© Reuters

Não foi um escândalo, mas a proposta feita por uma marca produtora de acessórios de natação ao debutante Michael Phelps tem contornos questionáveis. A Speedo ofereceria ao nadador um milhão de dólares se ele igualasse o registo de Mike Spitz nos Jogos de 1972, em Munique: sete medalhas de ouro. Foi por pouco: Phelps ganhou seis de ouro e duas de bronze, nos seus primeiros Jogos...

Michael Phelps coincidiu na piscina de Atenas com outro grande campeão, o australiano Ian Thorpe, que competia pela última vez nos Jogos. A final dos 200 metros livres, que ambos disputaram, ficou conhecida como “a corrida do século”.

Na sua primeira participação olímpica, Michael Phelps já se projetava como um dos grandes de sempre — na natação, nos Jogos e na carteira de patrocínios.

O holandês Pieter van den Hoogenband (prata, à esquerda), o australiano Ian Thorpe (ouro, ao centro) e o norte-americano Michael Phelps (bronze, à direita): três protagonistas da “corrida do século” na natação, os 200 m livres, nos Jogos de Atenas

O holandês Pieter van den Hoogenband (prata, à esquerda), o australiano Ian Thorpe (ouro, ao centro) e o norte-americano Michael Phelps (bronze, à direita): três protagonistas da “corrida do século” na natação, os 200 m livres, nos Jogos de Atenas

© Reuters

O flagelo do doping desacreditava os Jogos, mas exemplos como o do marroquino Hicham El Guerrouj – de quem o grande atleta britânico Sebastian Coe disse ser “sem dúvida, o melhor corredor de meia distância que alguma vez vimos” – devolviam o entusiasmo a quem vibra com o desporto.

Em Atlanta, o marroquino repetiu a façanha do finlandês Paavo Nurmi, 80 anos antes, e venceu os 1500 e os 5000 metros, no espaço de 24 horas. E enterrou de vez um trauma com oito anos.

Nos Jogos de Atlanta (1996), El Guerrouj caiu durante a última volta dos 1500 metros. À frustração do falhanço teve de digerir a pergunta de um jornalista do seu país: Como explicava ele aquela vergonha a milhões de marroquinos?

“Aos poucos, comecei a aceitar que aquilo não tinha sido uma derrota, e alterei a minha atitude: toda a estratégia, os treinos, a filosofia, até ao ponto em que o resultado de Atlanta ficou reduzido na minha mente a um pequeno momento passageiro da minha carreira”, recordaria El Guerrouj. “Eu tinha uma foto daquela queda em Atlanta por cima da minha cama, tive-a durante quatro anos, mas sentia-me deprimido quando olhava para ela. Depois de Sidney tirei a foto dali.”

Em Sidney (2000), ele foi prata e em Atenas ouro, numa corrida em que o português Rui Silva foi bronze.

O marroquino Hicham El Guerrouj após vencer a prova dos 1500 m, em Atenas

O marroquino Hicham El Guerrouj após vencer a prova dos 1500 m, em Atenas

© Jason Reed / Reuters

Uma prova heróica que comoveu até o COI foi a da maratona masculina. O brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima foi empurrado para fora da estrada, cerca do quilómetro 35, por um antigo padre irlandês, Cornelius Horan, que já tinha um histórico de invasão de recintos desportivos.

Ajudado por um espectador, Polyvios Kossivas, Vanderlei livrou-se do agressor e retomou a corrida, ainda na liderança. “O ataque apanhou-me de surpresa. Eu não me conseguia defender porque só estava concentrado na minha corrida. Não sei o que teria acontecido se aquele grego não tivesse reagido tão rapidamente como fez. Atribuo-lhe muito mérito pela sua coragem.”

Abalado e desconcentrado, o brasileiro seria ultrapassado por dois atletas e faria terceiro. Junto à meta, celebrou o bronze como que se fosse ouro. O COI atribuiu-lhe a Medalha Pierre de Coubertin, a condecoração máxima concedida pelo organismo, pelo espírito que revelou naquela prova.

Doze anos depois, o Brasil mostrava que não esquecia Vanderlei. Foi ele que teve o privilégio de acender a pira olímpica na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Polyvios Kossivas, de t-shirt cinzenta, vai em socorro do brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, empurrado para fora da estrada por um antigo padre irlandês

Polyvios Kossivas, de t-shirt cinzenta, vai em socorro do brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, empurrado para fora da estrada por um antigo padre irlandês

© Reuters

Em Atenas, a China conquistou o segundo lugar na tabela das medalhas, com 63 no total (32 de ouro). Os EUA ganharam 101, mas apenas mais quatro de ouro do que os chineses. Quatro quintos dos atletas chineses faziam a sua estreia nos Jogos de Atenas — um registo auspicioso para o que poderia acontecer nos Jogos seguintes, em Pequim.

“Eles têm uma grande máquina desportiva de que estamos a ver só o início”, disse Jim Scherr, dirigente do comité olímpico americano. “A equipa deles vai ser verdadeiramente impressionante em Pequim.”

A China trocava de lugar com a Rússia, que ficou em terceiro, com 90 medalhas (28 de ouro). Muito do antigo sistema soviético estava em queda, incluindo a utilização de instalações para treino em antigos países satélites. Anatoly Kolesov, chefe de missão dos russos, comentava a situação da forma mais crua possível: “Isso faz parte do passado”.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época