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O dia em que a tocha olímpica chorou

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CHOQUE Operacionais palestinianos do Setembro Negro invadem a aldeia olímpica de Munique, na noite de 5 de setembro de 1972, e fazem reféns entre a comitiva de Israel. Cinco atletas israelitas e seis treinadores morreram no ataque. Cinco dos oito terroristas também, assim como um polícia alemão. Uma das páginas mais negras das Olimpíadas, que Eduardo Gageiro registou nesta fotografia histórica

FOTO EDUARDO GAGEIRO

Há 44 anos, um ataque terrorista ensanguentou os Jogos Olímpicos de Munique. Onze atletas israelitas mortos, o desporto de luto. Estas são as histórias dos portugueses que viveram o primeiro atentado com transmissão televisiva. O passado é tempo presente

ANA SOFIA FONSECA

Está um calor dos diabos e o fato cinzento, quinas de Portugal ao peito, mal deixa respirar. Mas nada belisca a felicidade de José Lopes Marques.

PERSONAGENS Lopes Marques, que mal dormia a pensar nos barcos dos adversários, acredita, hoje, que um dos terroristas abriu a porta do seu quarto a meio da noite. Estava com Gageiro na varanda

PERSONAGENS Lopes Marques, que mal dormia a pensar nos barcos dos adversários, acredita, hoje, que um dos terroristas abriu a porta do seu quarto a meio da noite. Estava com Gageiro na varanda

Tem 25 anos, ser atleta olímpico é o maior sonho que conhece. Desde a convocatória, suspira pela partida — 23 de agosto de 1972. O avião para Munique já está na pista, a bagagem despachada. Daqui a um par de horas, a aldeia olímpica. O aeroporto da Portela ainda longe de enchentes, mais ainda de ser Humberto Delgado. Viajar é luxo e o defunto general encabeça os excomungados do regime. Os atletas têm o sorriso estampado no rosto, até à meta não há ouro impossível. O que ninguém adivinha é que a 20ª edição dos Jogos Olímpicos ficará marcada pela mais negra das medalhas. O mundo a léguas de atentados terroristas. Faltavam décadas para o 11 de Setembro. Para Madrid. Paris. Bruxelas. Nice.

Na porta de embarque, não há meio do calor amainar nem do sorriso descolar. José Lopes Marques ajeita o casaco cinzento, oferta do Comité Olímpico Português. Tantos anos com equipamentos amanhados pela mãe e agora um fato “do melhor corte”. Três botões em cada punho, etiqueta a garantir qualidade “Rodrigues & Rodrigues”, casa de muita fama no coração do Cais do Sodré. Apertam-se para a fotografia, uns de pé, outros de cócoras. José arruma-se atrás do halterofilista Raul Dinis. À lembrança, vem-lhe a promessa feita aos 12 anos: “Hei de ir aos Jogos Olímpicos.” As mãos em calos, as noites de Natal a treinar, os sacrifícios. O último mês numa pensão em Ponte de Sor a remar na barragem de Montargil. Última chamada para o embarque. O sonho prometido a cumprir-se, “não há palavras para descrever”. Até já, Lisboa.

Munique é outro mundo. Mulheres em decotes generosos, ruas coloridas, nem sombra de Estado Novo. O globo inteiro na cidade das Olimpíadas, 7234 atletas de 121 países. A comitiva portuguesa estreia-se na aldeia olímpica ainda o sol vai alto. O registo é mais uma alegria — a cada um, cartão de identidade e livre-trânsito. Portugal encaixado num bloco para delegações pequenas, perto de israelitas, dos craques de Hong Kong e do Uruguai. Mas, de repente, o funcionário hesita. As malas apeadas, a ansiedade a engordar os minutos. Os alemães folheiam papéis. “Não sabíamos o que se passava e nunca mais nos diziam nada”, recorda Lopes Marques. Finalmente, o veredicto — a delegação não ficará no espaço inicialmente indicado, mas no edifício dos serviços administrativos. O atleta volta a pegar na bagagem. Falta-lhe adivinhar que a mudança é bem mais do que isso. O destino. Daqui a dias, o seu quarto havia de ter vista privilegiada para o atentado terrorista.

Cinco de setembro ao cair do sol, carrascos e reféns à sua frente. Passara a manhã, a tarde inteira, a boca seca de palavras, os olhos incrédulos. Como imaginar o inimaginável? Os jogos da paz palco de guerra? O mundo ainda não se habituara a atentados terroristas quando, naquela madrugada, oito palestinianos do Setembro Negro, grupo ligado à Organização de Libertação da Palestina, entraram na aldeia olímpica. Na mira, a delegação de Israel. Mortos, reféns, uma condição — os israelitas vivos pela libertação de 234 palestinianos, a maioria presa em Israel. As provas canceladas, as ruas povoadas de surpresa e medo. Às nove da noite, a polícia parece ceder à exigência dos terroristas: um autocarro para alcançar dois helicópteros. Levantar voo, aterrar no aeroporto da cidade e descolar para um país árabe. Às voltas na aldeia, o remador pressente que algo está para acontecer. Sobe no elevador até ao 16º andar, estaca na varanda. Esfrega os olhos para acreditar no que vê — os helicópteros ali mesmo. Atiradores nos telhados, blindados no asfalto.

Numa varanda vizinha, Luís Grilo, louvores na luta greco-romana, também duvida do que vê. Os terroristas caminham para os helicópteros colados aos reféns. Sabe desde manhã cedo “que há bronca”, mas nunca pensou “numa coisa daquelas”. Estivera no México, podia jurar que Olimpíadas eram alegria. O que era aquilo? Mais atónito ficaria ao saber que um dos atletas assassinados era halterofilista. Como ele. Filho de Campo Maior, tinha 11 anos quando os pais acartaram trouxa e vida para Lisboa. Nunca antes ouvira falar de luta, “lá no Alentejo não havia disso”, mas em Alvalade era a festa dos catraios. “O que é isto?”, repete agora para si mesmo. Naquela manhã, saltara cedo da cama, tinha combate à primeira hora e, antes da prova, os atletas tinham de subir à balança. O primeiro alarme soou na fila para a pesagem — nem sombra dos lutadores israelitas. A certeza chegou depois da vitória na prova. Chamado ao controlo antidopping, o português aguarda com os olhos na televisão. A aldeia em estado de sítio, um atentado terrorista pela primeira vez em direto.

A notícia do atentado é servida ao pequeno-almoço a Arnaldo de Oliveira Sales, lusodescendente, responsável pelo comité olímpico de Hong Kong. Sem perder segundo, deixa o hotel e avança para a aldeia. A sua delegação está um andar acima dos israelitas, ao lado dos uruguaios, para chegar à rua têm de passar pelos terroristas. A meio da manhã, sabe-se que alguns atletas fugiram pelo telhado e que três escaparam pela porta. O nadador Ronnie Wong é um deles. “Dissemos aos terroristas que éramos chineses e eles, num inglês perfeito, deram-nos autorização para sair. Não vimos os reféns, só sangue no chão”, recorda ao Expresso. Sales apercebe-se que faltam ainda dois dos seus homens. A polícia cerca o edifício, mas nada o demove de os salvar. Aproveita a distração de um agente, lança-se para o interior e negoceia a saída com o líder dos palestinianos, lembrará à “Revista Macau”, antes das Olimpíadas de Pequim.

Na aldeia, ninguém sabe ao certo o que se passa, mas a noite está à espreita. Em rigor, serão precisas décadas para a verdade vir à tona. Só ao cabo de 20 anos, os familiares dos atletas assassinados alcançaram respostas, relatórios e fotografias. Foi assim que as viúvas conheceram o horror. Foi assim que Ilana Romano descobriu que o marido, o halterofilista Yossef Romano, além de baleado, fora castrado. A chacina à frente dos colegas. Os mortos junto dos vivos. Em 2015, depois de terem aberto o coração para o documentário “Munich 1972 & Beyond”, contaram os seus fantasmas ao “The New York Times”.

Com vista para a tragédia

Os portugueses acompanham a operação de camarote. Os helicópteros com os motores ligados. O incidente ultrapassou há muito as fronteiras da Baviera. A primeira-ministra israelita, Golda Meir, e o chanceler da Alemanha Ocidental, Willy Brandt, multiplicam esforços. O mundo de olhos em Munique. O embaixador português em Bona, João Freitas Cruz, está na cidade há duas semanas. Viajou de carro, quarto no luxuoso Hotel Koenigshof Karlsplatz, remodelado para as Olimpíadas. Às 22 horas, envia um telegrama para Lisboa: “Urgente (...) terroristas palestinianos continuam ameaçar executar reféns (...) Prosseguem nos bastidores discussões para se encontrar uma solução. Israelitas exigem cancelamento Olimpíadas”.

PERSONAGENS Carlos Lopes fugiu da política em Munique. Era a estreia nos Jogos Olímpicos e na alta-roda do atletismo mundial. Foi por pouco que não pediu um autógrafo ao seu corredor preferido (o treinador impediu-o)

PERSONAGENS Carlos Lopes fugiu da política em Munique. Era a estreia nos Jogos Olímpicos e na alta-roda do atletismo mundial. Foi por pouco que não pediu um autógrafo ao seu corredor preferido (o treinador impediu-o)

Munique ainda não acredita que vão ser os Jogos Olímpicos do massacre, Carlos Lopes já sabe que vai ser Carlos Lopes. Que haverá mais Jogos, prata e ouro à sua espera. A estadia na Alemanha vale como ida à escola. É a primeira vez que prova uma olimpíada, tudo o que quer é uma lição para a vida. Certo de que “estávamos a anos luz”, empenha os dias no estádio e no centro de treino, “a observar o que os outros faziam”. Tinha 25 anos, “não ia atrás de medalhas, mas de aprender para lá chegar no tempo certo”. Demorava-se a admirar o seu herói, o belga Emiel Puttemans, voar na pista. Tentara pedir-lhe um autógrafo, mas o treinador cortara-lhe a marcha: “Nem me deixou aproximar e eu pensei cá para mim: ‘Daqui a 4 anos vai ser ele a pedir-me.’ Nunca mais quis autógrafos.” Havia, isso sim, de assinar milhares, depois do ouro na maratona dos Jogos de Los Angeles.

Apanhado de surpresa, e à margem das zangas do Médio Oriente, Lopes apressa-se a sacudir o atentado para trás do pensamento. Só tinha alma para a competição. O aparato policial e a má sorte dos atletas mexe-lhe com as entranhas, mas depressa jura que aquela não é a sua guerra. Afasta-se o mais possível da tensão das ruas e das notícias: “Estava ali com uma missão, tudo o resto passou-me um pouco ao lado. Até o atentado.” Ainda catraio, alombara nas obras, suara como marçano. Aos 16 anos, o Sporting bateu-lhe à porta: “Queres vir para Lisboa?” Mas de Viseu à capital só curvas de saudade: “Quando cheguei à Batalha, desatei a chorar.” As lágrimas enxugadas à porta de Alvalade: “Disse para mim mesmo, não vou regressar à minha aldeia como um falhado. Foi por isso que lutei.” Desde que chegou a Munique, apenas respira fundo ao final do dia, quando a rua se povoa de atletas de muitas bandeiras. Não arrisca francês nem inglês, mas isso pouco importa, change é palavra mágica. Tudo se troca, crachás, canetas, t-shirts... Até roupa interior. “Era fenomenal.” Ainda mais para quem vinha de Portugal, cinzento como o fato.

Esta tarde, nem rasto de alegria. A salvo do alvoroço de polícias, Carlos Lopes ganha certezas: “Não deviam usar o desporto para política.” Dias antes, virara costas a outra “coisa de política”. Um par de colegas a sussurrar que a mudança de alojamento acontecera por causa da guerra colonial e ele com a cabeça na meta. Não acabou a rastejar no mato, G3 a tiracolo, graças ao desporto. “Ainda bem”, aquela também não era a sua guerra. A pátria de Marcelo Caetano tem mau retrato, mas na sua ideia só cabem os traços da pista de atletismo.

Quem sabe bem quanto o mundo anda às avessas com Portugal é a mala diplomática. Dois meses antes, a 15 de junho, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, através de informação recebida dos serviços em Bona, enviava à Direção Geral de Segurança, sucessora da PIDE, uma notícia publicada no jornal ‘Neues Deutschland’, dando conta da deslocação, “a convite das autoridades da RDA”, de uma delegação da Frelimo, liderada por Samora Machel. O mesmo jornal publicara uma entrevista com o guerrilheiro moçambicano, afirmando que “mais de um quarto do país” se encontrava libertado.

Outras notícias sustentam a tese dos portugueses. “Black is beautiful” não rima com racismo nem colonialismo. À conta da política de apartheid, a África do Sul estava afastada dos Jogos desde 1960. E o Comité Olímpico Internacional acabava de suspender a participação da Rodésia, país onde a minoria branca abocanhava o poder. A embaixada de Bona confidencia então ao Palácio das Necessidades: “Não excluo [que o Governo alemão] tenha sentido certo alívio com recusa admissão Rodésia pois ameaça africanos de boicotarem os Jogos torná-los-ia numa manifestação desportiva exclusivamente de brancos e não se apagou ainda memória alemães carácter racista nazis pretendiam dar Olimpíadas e fúria manifestada por Hitler perante vitória negro americano Jess Owens nos Jogos de Berlim de 1936”.

Uma porta na madrugada

De olhar colado aos helicópteros, Lopes Marques revive a madrugada. Ninguém lhe tira da cabeça que esteve com um terrorista. A prova de remo fora um desencanto, e doía-lhe saber que o resultado podia ser outro, se não tivesse entrado na água com o espírito naufragado: “Dá para acreditar que não enviaram os barcos a tempo? O amadorismo era enorme.” Os remadores portugueses levaram uma semana “numa frustração horrível”, a andar de bicicleta para não perder a forma e a ver os rivais treinar. Lopes Marques queimava por dentro. Sem dinheiro para um Stampfli, marca suíça com provas dadas, mandara construir um barco num carpinteiro de Lisboa, Luís de batismo: “Os desportistas não tinham qualquer apoio.” Pesava mais 10 quilos do que o original, mas tinha o seu encanto: “Chamava-se Luigi, em homenagem ao carpinteiro.” Para as Olimpíadas, um amigo emprestou-lhe um Stampfli, mas de pouco valeu. Só chegou na véspera de dar asas ao remo, uma semana depois do previsto e com um rombo à frente. Naquela noite de 4 de setembro, para amainar a tristeza, alinhara numa ida à famosa cervejaria Hofbrauhaus, no centro da cidade. Mas acabou por se despedir dos companheiros mais cedo, nunca fora de beber e o corpo reclamava colchão. Apanhou o metro até à estação Olympiazentrum, mostrou o livre-trânsito e subiu ao 16º andar. Estava sozinho. Escuro que nem breu. De repente, uma luz acorda-o sem cerimónia. A porta do quarto aberta, uma lanterna a correr as camas. O remador enfurecido: “Deixem-me dormir!” A porta fechada, duas voltas no travesseiro: “Pensei que era uma partida de algum dos portugueses... Só me assustei na manhã seguinte, ao perceber que não era. Andaram na aldeia e parece que estiveram no nosso edifício. Acredito que possa ter sido um dos terroristas...”

PERSONAGENS Eduardo Gageiro entrava e saía da aldeia olímpica sem problemas. Subiu 16 andares para estar no sítio certo à hora certa e fotografou a última viagem dos atletas israelitas.

PERSONAGENS Eduardo Gageiro entrava e saía da aldeia olímpica sem problemas. Subiu 16 andares para estar no sítio certo à hora certa e fotografou a última viagem dos atletas israelitas.

Na varanda, a tensão sobe de tom. A incredulidade também. Sem aviso, a porta de um dos quartos estremece. É Eduardo Gageiro, fotógrafo de “O Século Ilustrado”. Os elevadores bloqueados, 16 andares de escadas num fôlego só. A voz sumida, a respiração exaltada: “Apaguem as luzes! Vou para a varanda fotografar!” Tem 37 anos, sabe que câmara é alvo. Traz a máquina na mão, uma Canon com o seu nome gravado. Luzes caladas. Diante dos portugueses, os terroristas caminham para os helicópteros. “Fiquei impressionado com o sangue frio daqueles tipos. Cercados por atiradores e sempre tranquilos.” Apoia o braço no parapeito, começa a disparar. Fotografa sem parar, um disparo, outro. Lopes Marques está a dois passos, respira no compasso da máquina. Num segundo, a cerimónia de inauguração das Olimpíadas passa-lhe pela ideia. O desfile, a entrada no estádio olímpico. Há de guardar cada emoção no álbum da viagem. Na primeira página, um retrato da cerimónia e a legenda emocionada: “(...) espetáculo belo e arrebatador. Nesse momento honroso, ganhavam forma real os sonhos de 12 mil atletas da elite de todo o mundo. Uma realização, um orgulho, uma honra: SER OLÍMPICO”. Agora, o pesadelo. Nove olímpicos entram nos helicópteros, levantam voo. A varanda palpita desconcertada, o que iria na cabeça daqueles homens, o que lhes aconteceria? O rolo no fim, a história também. Aquela seria a última imagem dos reféns vivos. Aterrariam num banho de sangue, os alemães a dispararem, os palestinianos a responderem. Mais nove atletas sem vida, cinco terroristas mortos, três algemados.

MEMÓRIAS Lopes Marques descreveu assim, na primeira página do álbum fotográfico de sonhos, a cerimónia de abertura dos jogos olímpicos do pesadelo: “(...) espetáculo belo e arrebatador. Nesse momento honroso, ganhavam forma real os sonhos de 12 mil atletas da elite de todo o mundo. Uma realização, um orgulho, uma honra: SER OLÍMPICO”

MEMÓRIAS Lopes Marques descreveu assim, na primeira página do álbum fotográfico de sonhos, a cerimónia de abertura dos jogos olímpicos do pesadelo: “(...) espetáculo belo e arrebatador. Nesse momento honroso, ganhavam forma real os sonhos de 12 mil atletas da elite de todo o mundo. Uma realização, um orgulho, uma honra: SER OLÍMPICO”

Eduardo Gageiro encosta-se à parede, leva a máquina aos lábios. Beija-a, agradecido “por não ter falhado” no instante decisivo. Havia de repetir o gesto vezes sem conta, dois anos depois, por entre militares e cravos, no 25 de Abril. Vagueia o olhar pela aldeia olímpica, respira fundo e apressa-se a arranjar portador para o rolo. A “emoção do furo” é adrenalina sem par. As mãos ainda tremem quando gatafunha um bilhete para o jornal: “Tenho a impressão que isto é uma lança em África. Foi feito quase às escuras, puxem pelo rolo até ao limite.” Despede-se dos portugueses, passos largos para o centro de imprensa. Aos primeiros verbos, ganha certezas: “O maior furo era meu.” A fotografia única. Distrai a euforia com cervejas. Os colegas da Associated Press oferecem-lhe 250 contos pela imagem. “Era muito dinheiro, dava para um Volkswagen... Mas já estava com os copos e não tinha o rolo comigo. Fui parvo, não quis saber.”

Tudo o que queria era festejar. Partira para Munique “à maluca”, a revista sem orçamento para fotógrafo e ele decidido a não perder a oportunidade. Dormia no corredor de uma alemã, namorada de um português cuja irmã namorava com um “camarada” do jornal. Não tinha acreditação nem dinheiro, mas a simpatia de atletas e jornalistas portugueses: “As fotografias da inauguração são tiradas da bancada, deram-me bilhetes.” Entra na aldeia olímpica vezes sem conta “com um jeitinho”. A segurança é branda, ser “penetra” tarefa fácil. “Bastava caminhar uns metros para longe da porta de entrada e passar o livre-trânsito pela rede”, recorda Lopes Marques. Assim entraram amigos e amigas. De bolsa vazia e aventura cheia, “comiam nos refeitórios e tudo”. Assim entraram os terroristas.

Polícia à porta

A quilómetros de distância, em Kiel, no Norte da Alemanha, morada das provas de vela, os portugueses recebem um telefonema de Munique. É um jornalista: “Eh pá, estão a dizer que os de Angola vão aí acima limpar-vos o sebo!” Os ânimos ao rubro, já ninguém crê em impossíveis. Mário Gentil Quina demora dois segundos a reagir, o que lhe importa é pôr o barco no mar e competir. Está nos Jogos pela quarta vez, já provou a alegria de uma medalha de prata com o irmão José, agora disputa glória na categoria Dragões, com o irmão Francisco e um amigo. Vem de uma família de médicos — o avô dera vida ao Instituto Português de Oncologia — e de amantes da vela — dos seis irmãos, os cinco rapazes brilharam na modalidade.

Começaram ainda miúdos, eles a ajeitarem-se ao barco e o pai na estrada, a dar instruções com um apito. Tem 42 anos, consultório e filhos para criar. Consciência de que o colonialismo não anda nas boas graças. Com os colegas, toma decisões: “Vamos à polícia.” Num instante, os alemães pregam-lhes um carro com dois agentes e um cão polícia à porta. “Estávamos longe de Munique, o ambiente lá não se alterou muito, mas havia um certo receio”, relembra o médico.

RECORDAÇÕES Cinco objetos que contam a história de um português em Munique, no mês de setembro de 1972. Lá está a chave do quarto improvável, a capa de uma revista, o livre-trânsito, a medalha que recebeu no aniversário... Cinco pequenas linhas de uma história de terror que chocou o mundo e deixou marcas na memória dos atletas nacionais

RECORDAÇÕES Cinco objetos que contam a história de um português em Munique, no mês de setembro de 1972. Lá está a chave do quarto improvável, a capa de uma revista, o livre-trânsito, a medalha que recebeu no aniversário... Cinco pequenas linhas de uma história de terror que chocou o mundo e deixou marcas na memória dos atletas nacionais

Munique vestida de tristeza. De novo, sangue judeu em chão alemão. A atuação das autoridades debaixo de fogo, a resposta ao ataque cravada de críticas. A Alemanha tanto queria que aquelas fossem as Olimpíadas da paz, passaporte para uma imagem livre de suásticas e bombas, que a segurança pouco se via. Nos meandros da política, o assunto escalda. Em Bona, o embaixador português mantém Lisboa informada. Três dias depois do encerramento dos Jogos, dá conta de desilusões: “Atentado terroristas palestinianos em Munique continua ser objeto de largo comentário (...) Alemães preocupados redimirem-se dum passado que ainda parece recente e em apresentarem uma imagem de liberalismo, que os leva por vezes a exagerar na benevolência reações perante os elementos extremistas perturbadores da ordem — veja-se por exemplo a demora na liquidação do Grupo Baader-Meinhof”. No final do mês, novo telegrama: “Assisti ontem dia 28 a jantar chanceler federal oferece anualmente (...). No fim jantar Sr. Brandt fez discurso de circunstância (...). Ponto mais saliente foi referência a atentado de Munique (...) Embaixador Marrocos respondeu ao discurso aproveitando (...) para fazer defesa reivindicações dos palestinianos, aludindo a que não havia “fumo sem fogo” e que talvez atentado não se tivesse efetuado se condições Próximo Oriente fossem diferentes.”

Passaram 44 anos. A memória das Olimpíadas continua no sorriso de quem lá esteve. O atentado, a noite mais longa. A cada novo ato terrorista, recordam aquele 5 de setembro, o primeiro massacre com transmissão televisiva. O primeiro de muitos. José Lopes Marques deixou o remo a seguir a Munique, fez-se dirigente. Para o bem e para o mal, os Jogos são o ouro da sua vida. De férias na Europa, talvez passe pela antiga aldeia olímpica. Continua a guardar o porta-chaves do quarto, acrílico com anéis olímpicos. Já chegou a subir o elevador até ao 16º andar, um dia, há de ganhar coragem e bater à porta de quem lá vive. Carlos Lopes, que sabe bem o que é “a vitória”, quer ver as portuguesas do atletismo no pódio. Vai estar no Brasil a torcer “pelas miúdas”, certo de que “não se pode deixar de fazer as coisas por causa do terrorismo”. Luís Grilo, Mário Quina e Eduardo Gageiro hão de ver as provas na televisão. E suspirar: “Tomara que não aconteça nada.”