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Helena Villalva, a campeã que não foi aos Jogos Olímpicos

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CAMPEÃ Helena Villalva e algumas das medalhas que ganhou na vida dedicada ao desporto, ao mesmo tempo que trabalhava nos Correios

Na era em que um grupo de raparigas, por “carolice”, se lança na ginástica desportiva, sem quaisquer condições, quatro são selecionadas para ir aos Jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952, mas uma não irá: Helena Villalva, que daí a quatro anos será campeã nacional, foi impedida de integrar a primeira comitiva feminina portuguesa às olimpíadas. O Expresso falou com ela. “Era assim...”

Anabela Natário

Anabela Natário

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Jornalista

Ana Baião

Ana Baião

FOTOGRAFIAS

Quando correu os 100 metros, foi a meta que a cortou, a corda rompeu-lhe a cintura. Os exercícios físicos, praticava-os em chão de cimento ou de pedra, por isso os joelhos andavam sempre esfolados e hoje sofre da coluna. No liceu, desistiu das aulas, as professoras de ginástica ensinavam sentadas à secretária, de casaco vestido e escalfeta nos pés. Mesmo assim, conseguiu ser selecionada para os Jogos Olímpicos, mas não chegou a ir… o pai não a deixou.

Maria Helena Villalva não partiu a 9 de julho de 1952 rumo à Finlândia. Falhou a "maior excursão desportiva de todos os tempos, jamais organizada no nosso país", tal como o trissemanário desportivo "A Bola" classificava a delegação de 71 atletas (neste ano de 2016, foram 92) que se preparava para viajar no navio Serpa Pinto, na companhia de mais de 400 pessoas, cujo objetivo era ir a Helsínquia assistir à XV edição dos Jogos Olímpicos da era moderna.

O jornalista Afonso Lacerda descreveu o colorido da partida, as emoções, pormenorizou os trajes, todavia deixou de lado um acontecimento: pela primeira vez, uma equipa feminina portuguesa ia participar nos Jogos Olímpicos, um trio de ginastas, Natália Silva, Dália Cunha e Laura Amorim. As duas primeiras são as famosas "irmãs Cunha", filhas de pai moderno, que praticam de ginástica a automobilismo, passando por tiro e ciclismo. Natália, de 24 anos, é casada e mãe, morrerá sete anos depois num acidente de carro, com o marido e o filho; Dália, um ano mais nova e a viver ainda em Torres Vedras, há de casar com o professor e conquistar diversos campeonatos, dedicando a vida ao ensino.

TREINOS Quatro atletas quando abriam portas à ginástica desportiva em Portugal

TREINOS Quatro atletas quando abriam portas à ginástica desportiva em Portugal

Helena, a 19 dias de fazer 19 anos de idade, não foi ao cais da Rocha do Conde de Óbidos despedir-se das suas colegas do Ginásio Clube Português, com quem iniciara Portugal na ginástica desportiva feminina. Queria muito ter ido aos Jogos, pôr à prova as suas aptidões que no futuro a transformarão numa campeã medalhada em ginástica e recordista em atletismo, mas o pai "era assim"... Tinha "muito medo" que lhe acontecesse alguma coisa indo sem família. "A mãe faz falta, a mãe faz falta", dizia a quem perguntasse.

"Ninguém ia acompanhado por ninguém, não ia só a mãe de uma e de outras não", conta ao Expresso Helena Villalva, hoje com 82 anos, dizendo que aceitou "bem" a determinação paterna,. Mais tarde, teve pena: "Via aquelas homenagens a elas e a mim ninguém... apesar de o Comité Olímpico me convidar sempre para qualquer coisa que houvesse".

Helena, claro, não se esqueceu desse episódio, como também tem ainda bem vivas na memória as "péssimas condições" em que praticavam desporto. "Cá estávamos muito atrasados", confirma, salientando o facto de se ter dado um salto com a vinda de um professor alemão, em novembro de 1951, para dar aulas de ginástica rítmica e desportiva. Joseph Summer, que se casaria com Dália Cunha, trouxe experiência e novas ideias, e o sonho de levar uma equipa feminina aos Jogos Olímpicos.

“A carolice era muita. Se não fosse a carolice e a vontade... Treinávamos quatro horas por dia, incluindo fins de semana. Até íamos treinar ao Lisboa Ginásio. Apesar de as direções estarem zangadas nós demo-nos sempre muito bem uns com os outros", diz Helena, que quando andou no liceu pôs um atestado para não frequentar as aulas de ginástica. "Era uma coisa horrorosa. As professoras estavam de casacos vestidos, sentadas na secretária, com aquelas coisas de aquecer os pés,

EXIBIÇÕES Helena com o pai, Alfredo Villalva, praticando na rua

EXIBIÇÕES Helena com o pai, Alfredo Villalva, praticando na rua

Ao mesmo tempo que diz ter aceitado a decisão, à primeira pergunta sobre o porquê da proibição paterna, Helena responde: "Não faço ideia". E como se ainda quisesse entender reflete: "O meu pai era um desportista nato, aquilo nasceu com ele. Foi para o ginásio... antigamente até nem era muito fácil entrar, aquilo era o Real Clube, só com cunha, mas ele lá entrou. Lá fez, sozinho e… “ Ali, inscreveu a filha quando esta fez cinco anos e ela gostou e continuou.

Alfredo Villalva, ginasta no tempo que o seu patrão António Sommer Champalimaud lhe deixava livre, levou a filha a seguir-lhe as pisadas, porém, Portugal era governado pelo ditador Salazar, a mulher era considerada um ser de segunda, educada para procriar e tratar do lar. A maioridade atingia-se aos 21 anos, mas no caso feminino a lei não lhe concedia os mesmos direitos do que aos homens, quando a tutela deixava de ser do pai, passava para o marido.

A dada altura, pressionado… o pai Villalva quis voltar atrás. "Tivemos um sarau no Algés e Dafundo. Punham um estrado em cima da piscina e fazia-se lá um sarau, foi num aniversário. A Dália fez paralelas antes de mim, ela era muito grande e muito forte e partiu o banzo (aquilo partia-se com a alguma facilidade) e eu já não pude fazer paralelas. Imaginei uns exercícios de movimentos livres e sai-me muito bem."

Perante a exibição, "o senhor que estava lá do Comité disse: esta rapariga também vai aos Jogos Olímpicos não vai?", conta Helena. "Não, não vai o pai não deixa. Não quer que vá sozinha, queria que fosse com a mãe", ouviu por resposta o representante do COP que retorquiu: "Ah, mas a mãe também vai..."

"Nessa altura, já deixavam ir a minha mãe", comenta a ex-atleta que quatro anos depois seria campeã nacional de ginástica, e hoje será, na certa, uma das mais medalhadas do país. "Mas, depois, fui eu quem não quis ir. Não tinha treinado os obrigatórios e para fazer figuras tristes, não. Ir por ir... A mim, faz-me impressão como há muita gente que hoje vai e não devia de lá estar.”

DE PEQUENINA... A ginasta Helena Villalva um ano depois da sua estreia, ou seja, quando tinha seis anos

DE PEQUENINA... A ginasta Helena Villalva um ano depois da sua estreia, ou seja, quando tinha seis anos

"Antigamente não era como agora. Tínhamos de fazer os quatro aparelhos. Hoje, podem fazer só um que não há problema. Tínhamos obrigatório nas traves, nas paralelas, no solo e no salto de cavalo", explica, lembrando que seis meses antes da partida no Serpa Pinto, ainda não tinham chegado os aparelhos. "Começámos a ginástica desportiva cá em Portugal, com o banco sueco. O banco virado ao contrário é que servia de trave. As paralelas eram a dos homens, subíamos o banzo ao máximo para ficarem assimétricas, era ai que a gente treinava".

"Nunca fiquei contrariada, nunca fiquei triste com o meu pai. O meu pai mais tarde arrependeu-se", diz engolindo em seco. Mas no ano seguinte a Helsínquia, chegaria a recompensa. Pode integrar a delegação dos 50 atletas que representou Portugal no primeiro grande encontro internacional de ginastas realizado em 1953, na Holanda. "Gostei muito de ir ao Gimnoestrada. Quanto a mim, tem uma filosofia mais pura. É uma coisa em conjunto, há competição mas não é aquela competição maluca de ficar em primeira. Fazemos o nosso melhor, tem uma cerimónia lindíssima do içar a bandeira e cantar o hino..."

Já campeã nacional de atletismo (1955) e de ginástica (1956), foi a Angola participar em festivais de propaganda de ginástica e também não levou a mãe. Mas como ia o presidente do ginásio, que era amigo do pai, ia a mulher deste... "Ficas entregue a ele", disse Alfredo Villalva. Foram de barco, Helena ficou separada das restantes ginastas. "Eu fiquei num camarote com a pianista, que nunca aparecia, estava sempre com o comandante não sei onde. Fiquei sozinha, em vez de estar na brincadeira com elas..."

"Era assim. o que é que a gente havia de fazer? eu tinha sempre de ir entregue a qualquer pessoa que depois não me ligava", conta, rindo-se, e ainda a rir recorda que, ao chegar a Angola, no quarto de hotel "já lá tinha uma carta de um africano, branco, de bigode, com fotos nas cataratas dos duques de Bragança, que já não tem esse nome [são as Quedas de Kalandula]", a pedi-la em casamento. Não o conhecia de lado algum nem nunca falaram, ele sabia dela pelas notícias dos jornais.

Nos jogos seguintes aos de Helsínquia, Portugal não levou atletas mulheres. Entretanto, Helena Villalva começara a trabalhar na estação dos Correios do Rato, em Lisboa, e a namorar com um rapaz mais velho oito anos que conhecera nas aulas de natação. Casa com 24 anos de idade e abandona a ginástica. Tirara o curso de secretariado e línguas, nunca quisera dar aulas, mas, mais tarde, ainda ensinará ginástica a senhoras e crianças. "Saía dos correios, onde era secretária da administração, vestia-me na garagem, ia a correr, nunca chegava a horas, era das 7 às 9." Um grande esforço para quem tinha de criar dois filhos, e já tratara de um marido que adoeceu e acabou por morrer ao fim de 11 anos acamado.

ATLETISMO A meio do século passado, as atletas faziam tudo. Helena Villalva foi campeã nacional e regional nos 100 metros e estafetas 400x100, no salto em altura . E também vice-campeã nacional e regional no salto em comprimento

ATLETISMO A meio do século passado, as atletas faziam tudo. Helena Villalva foi campeã nacional e regional nos 100 metros e estafetas 400x100, no salto em altura . E também vice-campeã nacional e regional no salto em comprimento

O ano de 1956 foi um ano de glória para Helena Villalva, mas podia ter sido o último da sua vida. A 10 de junho, dia da raça como então se designava o feriado nacional, o Sporting inaugura o seu estádio em Lisboa e o Ginásio Clube Português é convidado a participar com ginastas de ambos os sexos. "Para entrar nas paralelas tinha que pôr o trampolim por baixo e depois rodava o corpo todo. A minha colega em vez de tirar o trampolim de uma maneira, tirou-o contra a minha cabeça... Ia morrendo. Foi horrível, aquilo ecoou no pavilhão, de tal maneira... nos altifalantes, perguntavam se havia ali algum médico, o meu pai foi ter comigo aos balneários, de escantilhão..."

Helena partiu a cabeça e foi parar ao hospital, mas Pitta Castelejo, no dia seguinte, no "Diário de Lisboa" escreverá: "Deliciosa a exibição das classes de ginástica feminina do Ginásio Clube de Português, Associação Académica da Amadora, Campo de Ourique e Sporting, este também com as classes infantis mista, homens e aplicada".

“Era assim que trabalhávamos. Agora ando aqui aflita da coluna porque o chão era de cimento. Hoje têm o chão amortecido, por isso é que elas fazem duplos e triplos. Mas quem é que atrevia com o chão de cimento? muitos fazíamos nós. Se tivéssemos as condições de hoje, não sei onde tínhamos chegado. Tínhamos muito gosto e éramos amadoras, totalmente, a gente pagava até os fatos que vestíamos", recorda.

RECORDAÇÕES Helena aponta no álbum, que organizou há três anos apenas, a foto em que estão as quatro pioneiras muito antes de serem selecionadas paras o Jogos Olímpicos de 1952 (a quarta a contar da esquerda praticou com elas mas não foi escolhida, era "muito fraquita")

RECORDAÇÕES Helena aponta no álbum, que organizou há três anos apenas, a foto em que estão as quatro pioneiras muito antes de serem selecionadas paras o Jogos Olímpicos de 1952 (a quarta a contar da esquerda praticou com elas mas não foi escolhida, era "muito fraquita")

"Não voltei à ginástica. Quando se inauguraram as instalações do Ginásio Clube Português foi aberta a porta pelo meu filho mais novo, Pedro. Era muito pequenininho, foi ele e a aluna mais nova", conta, referindo-se à passagem do GCP, em 7 de janeiro de 1973, para a "casa" onde ainda se encontra, na rua das Amoreiras. Antes, localizava-se na rua Serpa Pinto (nome do militar e explorador de África português do século XIX) que até 1937 se designara "16 de outubro" (com algumas variantes), por ali terem sido mortos a tiro, nesse dia de 1918, opositores ao ditador Sidónio Pais.

Foi nesses tempos da implantação da ditadura de Sidónio, concretizada em dezembro de 1917, que a avó e uma tia paternas de Helena ficaram feridas com um tiro na barriga, quando iam comprar pão. A família Villalva - escreve-se com dois éles, vem do seu bisavô espanhol que escolheu Lisboa para se radicar, e para aportuguesar o apelido trocou o último b por v - vivia no largo do Rato, ao lado do edifício dos Correios, onde a ginasta começaria a sua carreira de 47 anos, quase interruptos, nos CTT.

Helena Villalva, cuja forma física aparente não dá a adivinhar os seus problemas de coluna, que foi árbitro, júri de ginástica desportiva e faz parte do Conselho Geral do Ginásio Clube Português, encontra-se reformada há 12 anos. Não perde a transmissão dos Jogos Olímpicos pela TV nem a companhia da família, da qual fazem parte quatro netos. Dois são de Pedro, agora com 51 anos: um tem 22, é engenheiro, pratica ténis e fez ginástica no Sporting, e a menina, de 15, faz vólei, foi campeã regional.

Os outros dois netos são do seu filho mais velho João, hoje com 55 anos. O mais pequeno conta 9 anos, pratica futsal. Ela tem 16 e, para espanto da avó, não gosta nada de ginástica."Nem de ver as minhas fotografias", diz sorrindo Helena, olhando os álbuns de recordações.