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O casamento com a Coca Cola

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O remador norte-americano Kenneth Myers corta a linha de meta nos Jogos de Amesterdão, em 1928

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

Há mais de uma década que a Holanda perseguia o objetivo de organizar os Jogos. Em 1920, foi preterida a favor de Antuérpia, martirizada pela I Guerra Mundial, que o Comité Olímpico Internacional (COI) quis acarinhar. Em 1924, foi sacrificada pelo desejo de Pierre de Coubertin de ver a sua Paris natal limpar a imagem de uma organização desastrosa em 1900.

A vez da Holanda chegou em 1928. A Europa vivia um período intermédio entre o primeiro conflito mundial e a ascensão de Adolf Hitler e do partido nazi na Alemanha. Em Amesterdão, onde vivia uma comunidade judia numerosa, havia uma inquietação latente perante o crescimento do fascismo.

De pás na mão, os atletas dos 100 m dos Jogos de Amesterdão preparam o terreno para partirem com rapidez, mal soe o tiro

De pás na mão, os atletas dos 100 m dos Jogos de Amesterdão preparam o terreno para partirem com rapidez, mal soe o tiro

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Banida durante 16 anos pelo seu papel na Grande Guerra, a Alemanha e os seus aliados Áustria, Hungria e Bulgária estavam de volta aos Jogos. O regresso alemão seria em grande — apenas os atletas norte-americanos fizeram melhor.

“Estamos aqui para representar o maior país à face da Terra”, afirmara, antes dos Jogos, o general Douglas MacArthur, chefe de missão dos EUA e presidente do Comité Olímpico Americano. “Não viemos cá para perder graciosamente. Viemos cá para ganhar — e ganhar decisivamente.” O desporto estava no ADN norte-americano — e dois dos seus futuros maiores rivais continuavam ausentes das competições: URSS e China.

Combate de esgrima, nos Jogos de 1928

Combate de esgrima, nos Jogos de 1928

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Por um acaso da História, a organização destes Jogos escapou à grande recessão económica que se seguiu ao “crash” da Bolsa de Nova Iorque (1929). Mas sem apoio económico do Estado e perante o fracasso de uma lotaria para financiar o evento, foram os holandeses residentes nas Índias que salvaram os Jogos.

Não havendo ainda aldeia olímpica, os atletas ficaram alojados em escolas, quartéis e transatlânticos ancorados no porto da cidade. Dentro do estádio, uma pista de 400 metros com raias marcadas no chão foi a grande novidade.

Dois finlandeses na liderança dos 10.000 metros, em Amesterdão. O segundo é Paavo Nurmi

Dois finlandeses na liderança dos 10.000 metros, em Amesterdão. O segundo é Paavo Nurmi

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Amesterdão marcou a entrada da Coca Cola no mundo das Olimpíadas. Fundada em 1886, a fabricante de refrigerantes de Atlanta (EUA) patrocinou a organização e não mais deixaria de o fazer. Hoje mantém com o movimento olímpico a relação comercial mais duradoura de todas.

A cada edição, a organização ia-se tornando mais complexa refletindo o próprio desenvolvimento da sociedade e do mundo. Em Amesterdão, levantou-se a questão dos direitos de imagem e foi equacionada a possibilidade de se proibir que o público entrasse no estádio com máquinas fotográficas. As grandes filas de espera geradas pelo controlo das entradas provocaram protestos, o que levou a organização a desistir da medida. Falhou a tentativa de criação de um monopólio fotográfico.

Atleta suíço num exercício de ginástica, nos Jogos de 1928

Atleta suíço num exercício de ginástica, nos Jogos de 1928

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Em setembro de 1925, Henri de Baillet-Latour sucedera a Pierre de Coubertin na presidência do COI. O afastamento do “pai dos Jogos” escancarou as portas a uma maior participação das mulheres.

Nas primeiras edições, os Jogos eram uma celebração da pujança física dos homens e um bastião da sua supremacia desportiva em relação às mulheres. Popularizara-se a ideia que os desportos vigorosos não eram indicados para o sexo feminino, apenas o exercício moderado, sem excessos físicos ou esforços arriscados. Coubertin considerava desportos “apropriados” — sem esforço físico “inapropriado” ou violento — o ténis, o golfe, o tiro com arco, a patinagem no gelo, a esgrima e a natação.

Se em 1908, apenas 37 mulheres entraram em competição, em Amesterdão já eram 277. Aos poucos, elas iam conquistando novas modalidades, como o atletismo e a ginástica, inseridas no programa feminino pela primeira vez em Amesterdão. A “modéstia” dos seus uniformes foi, naturalmente, um assunto discutido.

À direita, a alemã Lina Radke-Batschauer, vencedora da medalha de ouro nos 800 m, em Amesterdão

À direita, a alemã Lina Radke-Batschauer, vencedora da medalha de ouro nos 800 m, em Amesterdão

Wikimedia Commons

Na prova dos 800 metros femininos, ganha pela alemã Lina Radke-Batschauer, muitas atletas colapsaram após cortar a meta. Os juízes, homens, justificaram aquele esgotamento com o “corpo disfuncional” das mulheres. Esta prova desapareceria do programa destinado às mulheres e só voltaria às pistas em 1960.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época