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Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

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Atletas dos EUA, Itália e Canadá remam pela glória, em Los Angeles

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

Pela segunda vez os Jogos saíram da Europa e pela segunda vez rumaram aos Estados Unidos. À semelhança do que acontecera com França — que teve uma segunda oportunidade para se redimir de uma má organização (1900) —, Los Angeles era a esperança dos EUA para limparem a má imagem deixada em St. Louis (1904).

Mas em inícios da década de 30, a economia mundial sofria uma “Grande Depressão” com epicentro precisamente nos EUA. Bancos faliam, o desemprego devorava milhões de pessoas, havia revolta nas ruas. Tomado pelas preocupações, o Presidente Herbert Hoover não marcaria presença nos Jogos realizados no seu país.

A crise financeira dificultou grandemente as viagens para Los Angeles, mesmo a partir de países não muito longínquos quanto o Brasil. Sem ajuda oficial, os 69 atletas brasileiros zarparam no navio “Itaquicê”, carregado com 55 mil sacas de café que deviam vender nos portos onde fizessem escala, entre o Rio e LA. O produto da venda reverteria a favor da sua participação.

O negócio não rendeu e quando chegaram ao porto de São Pedro, onde tinham de pagar um dólar por cada pessoa que saísse para terra, não tinham dinheiro suficiente para todos. Desembarcaram os que tinham maior hipótese de ganhar, outros pagaram do seu bolso. Os que sobraram seguiram para São Francisco, onde o desembarque era gratuito. Mas como havia depois que fazer viagem por terra, desistiram e regressaram ao Brasil.

Também a braços com dificuldades financeiras, a Federação Indiana de Hóquei apelou a Mahatma Ghandi para que apelasse à população no sentido de contribuir financeiramente para a viagem da equipa de hóquei em campo. Ghandi ouviu e perguntou: “O que é hóquei?” A Índia acabaria por participar e vencer o torneio.

Prova de natação, em Los Angeles. Em primeiro plano está Buster Crabbe, futuro Tarzan nos cinemas

Prova de natação, em Los Angeles. Em primeiro plano está Buster Crabbe, futuro Tarzan nos cinemas

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Apesar da conjuntura, a organização queria brilhar. Disponibilizou dinheiro suficiente para cobrir a estadia e providenciar alguns luxos aos atletas, nomeadamente uma aldeia olímpica em Baldwin Hills, com condições de conforto como nunca antes os participantes tinham usufruído: bungalows modernos, hospital, lavandaria, posto de correios, biblioteca, um grande número de refeitórios, saunas, massagens e toalhas frescas.

Na aldeia ficaram alojados os homens. As 126 atletas do sexo feminino foram espalhadas por hotéis da cidade. As norte-americanas ficaram no Chapman Park Hotel, na Wiltshire Boulevard.

O japonês Chuhei Nambu, no triplo salto, em Los Angeles

O japonês Chuhei Nambu, no triplo salto, em Los Angeles

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Comparativamente à edição anterior — em Amesterdão competiram 2883 atletas, de 46 países —, o número de participantes em LA diminuiu: apenas 1334 (incluindo seis portugueses, a menor representação de sempre) oriundos de 37 nações. Mas, sendo os norte-americanos um povo amante de desporto, o número de espectadores pulverizou qualquer uma das assistências anteriores. E as boas infraestruturas contribuíram para que caíssem muitos recordes.

A cidade pôs de pé um estádio imponente, o Los Angeles Memorial Coliseum, com capacidade para 105 mil espectadores, uma piscina com bancadas para 10 mil pessoas, um auditório de 10 mil lugares para o boxe, wrestling e halterofilismo, e um velódromo para o ciclismo. Para o atletismo, havia equipamentos de “photo-finish”. Nas cerimónias de consagração, começou a usar-se o pódio de três degraus.

Salto com vara, nos Jogos de 1932. Os colchões para amortecer a queda ainda não existiam

Salto com vara, nos Jogos de 1932. Os colchões para amortecer a queda ainda não existiam

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

A organização não poupou esforços e, em colaboração com Hollywood, estava determinada em apresentar os Jogos mais glamorosos de sempre. Estrelas como Douglas Fairbanks, Charlie Chaplin, Marlene Dietrich e Mary Pickford disponibilizaram-se para entreter as multidões, contribuindo para o aumento do interesse à volta das provas.

A estreia do filme “Tarzan”, com o campeão olímpico Johnny Weissmuller como protagonista, inseriu-se nessa estratégia. Os Jogos chegaram à primeira página dos jornais ainda antes de terem começado.

Ginástica artística no relvado do estádio olímpico, em 1932

Ginástica artística no relvado do estádio olímpico, em 1932

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Com as mulheres cada vez mais participantes nos Jogos, a norte-americana Mildred “Babe” Didrikson, uma estudante de 21 anos, afirmou-se como uma das atletas mais versáteis de sempre. Qualificou-se para cinco modalidades, mas os regulamentos limitavam a participação de mulheres a um máximo de três.

Ganhou duas medalhas de ouro (80m barreiras e lançamento do dardo) e uma de prata, no salto em altura, apesar de ter terminado empatada com a vencedora. Foi penalizada pelos juízes que não aprovaram o seu estilo de salto que fazia passar a cabeça por cima da fasquia antes do corpo...

O brilho de alguns atletas não fez esquecer a ausência de outros, designadamente a do finlandês Paavo Nurmi, expulso da competição — após 22 recordes do mundo, nove medalhas de ouro e três de prata —, acusado de ter recebido dinheiro em provas na Europa. Outra ausência notada foi a do francês Jules Ladoumègue, detentor de vários recordes mundiais, também ele banido por profissionalismo. O estatuto competitivo dos atletas era uma questão cada vez mais impossível de ignorar por parte do Comité Olímpico Internacional.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época