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Telma: “Foi na garra, foi no querer, foi na raça lusitana, teve de ser, tinha de dar”

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Inácio Rosa / Lusa

Depois dos falhanços de Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012, à quarta participação olímpica a judoca Telma Monteiro jogou também com essas experiências para ganhar a medalha de bronze. Aos 30 anos, fala para os que hão de vir a seguir a ela: “Só quero transmitir a mensagem de que se eu consegui, eu que precisei de quatro Jogos Olímpicos e 12 anos para ganhar uma medalha, e tive de ser operada, acho que os outros também conseguem”. E o futuro de Telma é já ali, nos Jogos de Tóquio 2020: “Quero aproveitar, desfrutar e despedir-me em grande nesse país, que é o país do meu desporto”

A medalha de bronze conquistada por Telma Monteiro na categoria -57kg dos Jogos Olímpicos Rio 2016 não marca qualquer ponto final na sua carreira e a judoca só pensa em continuar a competir e a ganhar, já com Tóquio 2020 no horizonte.

“Se conseguir continuar ao mais alto nível, o meu objetivo é estar em Tóquio. Nos próximos quatro anos quero continuar a ganhar medalhas, somar à minha lista, nunca é de mais”, garante.

A judoca do Benfica, que já havia arrebatado cinco medalhas em Mundiais e 11 em Europeus, à quarta participação nuns Jogos Olímpicos conseguiu a medalha com que sonhava, o que lhe dá uma “energia diferente” para traçar os Jogos nipónicos como meta final de uma carreira carregada de títulos.

“Já conquistei o que queria muito, mas Tóquio é uma cidade muito bonita. É muito especial para mim, porque o Japão é o país do judo e foi lá que cresci muito. Foi lá que, graças às minhas adversárias japonesas com quem treinei, evoluí muito, cresci, ganhei muitas coisas", explica. “Quero aproveitar, desfrutar e despedir-me em grande nesse país que é o país do meu desporto.”

Mas Tóquio ainda vem longe e, para já, é tempo de Telma saborear o bronze: “É uma emoção muito grande. Subir ao pódio nos Jogos Olímpicos é, sem dúvida, o momento mais emocionante da minha carreira, uma consagração”, reconhece. “Esta medalha define a maneira como lutei por ela, depois de 16 medalhas em Europeus e Mundiais. Era a medalha que faltava e já cá canta, Está completa a lista. Agora, é continuar a ganhar mais.”

Por enquanto, as emoções ainda estão muito à flor da pele: “Já chorei muito. É uma grande emoção viver este momento, ter a oportunidade de fazer história pelo país, conquistar a primeira medalha do judo feminino”.

“É mais uma para Portugal e tudo o que eu queria era poder retribuir a todas as pessoas que acreditaram em mim. Foi algo para o qual trabalhei milhares de horas. Houve lágrimas e receios, mas prevaleceu a garra e a coragem sobre tudo isso”, reflete.

O troféu foi conseguido à quarta tentativa, depois dos falhanços de 2004 (Atenas), 2008 (Tóquio) e 2012 (Londres), e apenas seis meses após uma intervenção cirúrgica que lhe atrapalhou a preparação. “A operação deu-me mais força, foram meses de muito receio, muita luta. Fiquei naquela cama de hospital e pensei que poderia não estar aqui hoje e lutar por esta medalha. Felizmente superei-me. Foram mais os meses que estive a recuperar do que a treinar, mas às vezes as coisas são assim”, reflete.

INÁCIO ROSA / Lusa

Uma competição de judo também não é matemática: “Já fui a Jogos em pico de forma, já fui favorita e não deu, mas hoje, com o joelho ligado e com o ombro com uma luxação, foi na garra, foi no querer, foi na raça lusitana, teve de ser, tinha de dar”.

“Vou demorar algum tempo a assimilar este momento. Não se trata apenas de ganhar uma medalha que eu queira muito, é um momento que aproveito para dizer que vale a pena não desistirmos dos nossos sonhos, vale a pena lutarmos. Não interessa a idade, não interessa o tempo que temos de esperar, o mais importante é não desistir”, diz.

Para a judoca do Benfica, a medalha serve ainda para mostrar a outros atletas que também podem conseguir os seus objetivos: “Não quero ser excecional. Só quero transmitir a mensagem de que se eu consegui, eu que precisei de quatro Jogos Olímpicos e 12 anos para ganhar uma medalha, e tive de ser operada, acho que os outros também conseguem. Não desistir é importante, porque os portugueses não são diferentes dos outros”.

Recuando no tempo, Telma lembra o que aconteceu “há oito anos, em Pequim”, onde não teve “maturidade”. “Perdi nessa repescagem porque estava obcecada com a medalha de ouro. Hoje não, sabia que o mais importante era fazer história pelo meu país, independentemente de tudo, e portanto quando perdi com a mongol, embora tendo sido por pouco, no ‘golden score’, pensei: ‘O judo é assim e agora não posso desistir’”, diz com a voz da experiência.

Recordando os combates que lhe valeram o bronze, primeiro com a francesa Automne Pavia e depois com a romena Corina Caprioriu, Telma diz que o caminho não se antevia fácil: “Tinha à frente a francesa campeã da Europa, que já me ganhou algumas vezes, mas treinei muito para poder vencer aquela adversária e disse à minha equipa: ‘Se eu conseguir vencer a francesa, levo a medalha para casa’”.

Assim aconteceu, na verdade, mas ainda faltava derrotar a romena: “Queria entrar no meu ritmo. Sabia que ela ia jogar no meu erro, mas queria aproveitar o facto de ela ter tido pouco tempo para descansar depois de um combate anterior muito desgastante. Tentei ser inteligente e jogar com isso, quis atacar forte logo de início. Não estava ali para fazer bonito ou para lutar bem, estava para ganhar. No combate magoei-me no ombro e é possível que tenha feito uma subluxação, mas eu tinha de dar tudo e deixar as pessoas orgulhosas. Não podia desistir. Quando olhei para o relógio, faltavam dois minutos e eu acreditei que a medalha era minha”, recorda.

Já com o troféu ao pescoço, Telma diz não saber se esta é a medalha mais pesada, “mas é a mais saborosa”, definitivamente.

INÁCIO ROSA / Lusa