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Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

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Equipa belga de hóquei em campo, em Antuérpia

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

Quando as armas se calaram e o armistício foi assinado, Pierre de Coubertin reuniu o Comité Olímpico Internacional (COI) para determinar a sede dos próximos Jogos. Aos poucos, a Europa erguia-se dos escombros e o movimento olímpico, inspirado no ideial de que os Jogos promoviam a harmonia entre as nações, sentia-se na obrigação de contribuir para consolidar a paz.

A belga Antuérpia vinha sendo hipotese, mas a preferência recaía sobre a húngara Budapeste. As posições de ambos os países na Grande Guerra determinaria a escolha: o COI decidiu castigar a Áustria-Hungria e, por uma questão simbólica, optou por Antuérpia, já que a Bélgica, ainda que neutral, tinha estado ocupada durante quatro anos.

A cidade estava devastada, com ruas e caminhos de ferro destruídos, mas os belgas prontificaram-se a organizar o evento dali a um ano. Erguer os Jogos era uma questão de orgulho nacional, ainda que o país fosse forçado a gastar dinheiro que não tinha. Tudo ficaria pronto a tempo e horas, ainda que sem os padrões de excelência de Estocolmo.

Cerimónia de abertura no estádio olímpico de Antuérpia

Cerimónia de abertura no estádio olímpico de Antuérpia

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Em inícios do século, o transporte dos atletas era sempre problemático. A equipa norte-americana viajou para a Europa a bordo do Princess Matoika, um antigo cargueiro tristemente conhecido por “navio da morte”, já que tinha sido usado para levar para a América combatentes mortos na I Guerra. Os atletas queixavam-se das condições de comodidade e de treino, o que originou um protesto dentro do barco que teve ampla cobertura da imprensa.

Os queixosos elaboraram uma lista de exigências e ameaçavam não competir se não fossem cumpridas. Dan Ahearn, norte-americano nascido na Irlanda, foi um dos líderes do que ficou conhecido como o “motim do Matoika”. Discursou perante os colegas e teceu críticas ao “regime capitalista” e à “opressão aristocrática”.

Acusado de indisciplina, foi suspenso da equipa. Solidários, os colegas ameaçaram faltar às provas caso Dan fosse impedido de participar. A posição dos atletas vingou e Dan foi sexto no triplo salto. A agitação não impediu os EUA de serem o país mais medalhado em Antuérpia.

Prova de natação, em Antuérpia

Prova de natação, em Antuérpia

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Integrada nas cerimónias dos Jogos, realizou-se uma Missa Fúnebre na Catedral de Antuérpia, em memória dos atletas que morreram em combate. Entre eles, estavam o francês Jean Bouin (prata nos 5000 m, em 1912) e o britânico George Hutson (bronze nos 5000 m e 3000 m por equipas).

Pelo seu papel no conflito, Alemanha, Áustria, Hungria, Bulgária e Turquia não foram convidadas pela organização. Apesar das ausências, houve um número recorde de participantes (2624 de 29 países). Pela primeira vez, foi hasteada a bandeira olímpica com os cinco anéis estampados, representativos dos cinco continentes. Os Jogos queriam-se globais e vários países apresentaram-se pela primeira vez de forma independente: Nova Zelândia (até então integrada na equipa da Australásia), Brasil, Argentina e Finlândia.

Com uma equipa de 60 atletas, os finlandeses ganharam 34 medalhas. Se Haanes Kolehmainen foi o herói nacional em 1912, agora esse estatuto pertenceu a Paavo Nurmi, um dos maiores atletas de sempre — até aos Jogos de Hensínquia (1952), ele ganharia nove medalhas de ouro e três de prata e ainda bateria 29 recordes mundiais, em distâncias entre os 1500 m e os 20 km.

Em Antuérpia, Paavo Nurmi — que ficaria conhecido como “o finlandês voador” — venceu os 10.000 m e o corta-mato. A primeira final que disputou foi a dos 5000 m que perdeu nos últimos metros para o francês Joseph Guillemot, um atleta que tinha nascido com o coração do lado direito. Guillemot tinha combatido nas trincheiras da Guerra, onde ficou com os pulmões fortemente afetados por gás mostarda. Nestes Jogos, ele ambicionava conquistar uma medalha para homenagear os companheiros mortos, como Jean Bouin, e lidar melhor com as cicatrizes e os pulmões quase destroçados. Conseguiu.

Ethelda Bleibtrey (EUA), a primeira mulher a ganhar várias medalhas olímpicas

Ethelda Bleibtrey (EUA), a primeira mulher a ganhar várias medalhas olímpicas

Wikimedia Commons

À sétima edição das Olimpíadas, as mulheres ainda continuavam a desbravar o acidentado caminho da igualdade. No relatório oficial dos Jogos de Estocolmo, em 1912, podia ler-se: “Uma Olimpíada com fêmeas seria impraticável, desinteressante, inestético e impróprio”.

Pierre de Coubertin era um confesso defensor da não participação das mulheres, mas aos poucos ia moderando a sua posição. Em Antuérpia, a presença de atletas femininas continuou a ser muito baixa: 63 em 2624 atletas.

Aos 18 anos, a nadadora norte-americana Ethelda Bleibtrey tornou-se a primeira mulher a ganhar mais do que uma medalha olímpica. Venceu as três provas de natação destinadas às mulheres: os 100, os 300 e a estafeta 4x100 m livres. No ano anterior, no seu país, tinha sido presa por nadar “nua” numa praia pública. Tinha tirado as meias...

John Kelly numa foto datada de 1920. A filha Grace nasceria nove anos depois

John Kelly numa foto datada de 1920. A filha Grace nasceria nove anos depois

Wikimedia Commons

Na prova de remo em Skiff, o vencedor foi o norte-americano John Kelly, futuro pai de Grace, atriz e princesa do Mónaco. Operário irlandês emigrado nos EUA, era um apaixonado pelo desporto, em especial o remo. No passado, inscrevera-se para participar nas famosas regatas reais em Inglaterra. Ao chegar a Henley, vendo que o seu nome não constava na lista de participantes, perguntou à organização se não tinham recebido a sua inscrição. Responderam-lhe que sim e pediram-lhe que confirmasse se era operário, o que ele fez. “Sentimos muito, mas os nossos regulamentos não consentem que um operário, um artesão ou um jornaleiro entrem em competição com os ‘gentlemen’”, disseram-lhe. Em Antuérpia, na prova de Skiff, John Kelly deixou em segundo lugar um “gentleman”, o inglês J. Beresford.

Os Jogos não foram férteis em grandes marcas. A maioria dos atletas não treinou com regularidade nos anos da guerra. Mas o grande objetivo tinha sido alcançado: os Jogos estavam de volta e o ideal olímpico não tinha morrido sob escombros.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época