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Nuno Delgado: “O teu adversário és tu”

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João Lima

Um dia depois de Telma Monteiro (categoria -57kg) ter conquistado a segunda medalha olímpica do judo português, contamos-lhe a história de Nuno Delgado, o primeiro judoca nacional a subir a um pódio olímpico. E o próprio atleta conta como foi ganhar a medalha de bronze em Sydney 2000 e viver o reverso, em Atenas 2004, onde perdeu logo nas eliminatórias

Vamos começar esta história pelo fim. Qual foi a maior lição que o judo deu a Nuno Delgado? “Perceber que quando estás a combater o teu adversário, ele é o teu companheiro. Estás agarrado a ele e se ele cair, tu cais também. O teu adversário és tu.”

Cresceu na barriga da mãe na cidade Invicta, há 40 anos, e com poucos meses de vida foi para Cabo Verde, a terra natal dos pais, que tinham ido para Santarém estudar Agronomia. A separação dos progenitores ditou o regresso a Lisboa, com apenas dois anos. Irrequieto, traquinas e desajeitado, partiu a cabeça mais de meia dúzia de vezes ainda na infância. “Lembro-me que chegaram a oferecer-me capacetes para eu andar na rua, porque tinha muita dificuldade em gerir espaços. Era um pouco disléxico”, revela hoje a rir-se.

Aos sete anos, o trabalho do padrasto, médico, leva a nova mudança de morada, desta vez para Santarém. E é na cidade ribatejana que surge o judo. “O meu padrasto já tinha praticado a modalidade e achou que me fazia bem, dizia que era para me dar foco e concentração.”

Nuno lembra-se da primeira aula como se fosse hoje. “O dojo ficava nas ruínas viradas para as Portas do Sol, zona histórica de Santarém, num antigo celeiro. Era um espaço espetacular. Quando lá cheguei vi um homem grande vestido de branco e com um cinto preto, chamado mestre Anjinho. Tinha uma voz dura. Fiquei logo fascinado. E tinha uma coisa que adorei: disciplina. A disciplina fazia-me sentir bem. Havia uma gestão inteligente da concentração. Num momento estava a gastar energia e a fazer maluquices e noutro sentia uma tranquilidade e uma paz que não conhecia, porque eu estava sempre em ebulição.”

No judo Nuno Delgado diz ter encontrado “uma família”, em que o mestre “era como se fosse um pai” os outros judocas “irmãos”. “ Havia uma espírito de união muito forte”, o que ajudou a integrar-se melhor numa cidade “marialva e onde quase não havia pretos”.

Da primeira competição a Sydney

A primeira vez que competiu a sério foi no Entroncamento, num campeonato regional de juvenis. Tinha 11 anos e não entendeu muito bem o que se estava a passar. ”Eu não conhecia as regras, não percebia se estava a ganhar ou a perder. Mas quando no fim o mestre veio dizer-me que não tinha ficado apurado para o nacional, só pensei ‘tenho de treinar mais’”.

No ano seguinte não só foi ao tal nacional como ganhou todos os combates e estreou-se como campeão. A partir daí o palmarés de Nuno Delgado nunca mais parou de crescer. Entretanto, a par do judo nasce outra paixão, pelo basquetebol, à conta dos jogos da NBA que passavam domingo à tarde na televisão com os comentário de Carlos Barroca.

“Ainda consegui convencer a minha mãe a deixar-me conciliar os treinos de judo com os de basquetebol na Académica de Santarém. Cheguei a jogar na II Divisão e fiz também basquetebol universitário. Mas como não brilhei tanto como no judo a opção foi óbvia. Mas foi uma boa experiência que guardei.”

Aos 18 anos, o ingresso no curso de desporto na Faculdade de Motricidade Humana leva-o de novo para Lisboa. Prossegue os treinos no mítico Sport Algés e Dafundo. Nessa altura o sonho olímpico, que já cirandava na sua cabeça faz tempo, começa a ganhar outro corpo. Até que, no último ano da faculdade, percebe que para poder afirmar-se internacionalmente teria que ter uma bolsa de apoio, “porque sem financiamento não há alta competição” e estruturou um plano.

“Descobri que quando nos comprometemos com um objetivo e colocamos uma consequência, se não o atingirmos, o nosso foco é completamente diferente. A decisão de conseguir o apuramento e ganhar uma medalha começa em 1998/99. Disse a mim mesmo que tinha de conciliar estudos e treinos para terminar a faculdade e ficar pelo menos em 5º lugar no Europeu de judo. Se conseguisse dedicava-me 100% ao judo e não faria mais nada, abdicava de ser professor de
educação física. Assim foi. Deixei a tese final feita, acabei o curso com 14 valores e…fui campeão da Europa”.

A partir daquele momento estava traçado o caminho até ao pódio de Sydney. Os amigos ofereceram-lhe um cinto com a assinatura de todos (que usou na Austrália), a família apoiou-o e quem trabalhava com ele “percebeu que o pódio era coisa séria”. O judoca português focou-se na sua preparação, treinava diariamente, cuidava da alimentação e passou a fazer algo que ainda não era muito comum.

“Visionava vídeos e preparava-me mentalmente para o treino. Muita gente preparava-se assim para a competição, eu preparava-me para o treino. E quando chegava ao treino da noite, tinha objetivos concretos para aquela sessão, sabia o que queria tirar daquele treino”. Confessa que lhe tremeram as pernas quando subiu ao tatami para disputar o acesso à medalha de ouro, em Sydney 2000, mas adora essa sensação. E quando percebeu que era impossível chegar ao ouro, só pensou: “Como é que é possível?!”.

A desilusão em Atenas, o fim da carreira e a construção da escola

Depois da festa e de um contacto mais a sério com a fama e a exposição pública, o judoca aponta todas as baterias para os Jogos de Atenas 2004. E tudo parecia correr bem. Teve um ano de 2002 fantástico ao nível dos resultados e 2003 também estava a correr muito bem. Até que, de repente, os astros parecem ter desalinhado. Separa-se da namorada, a mãe fica muito doente e a precisar do seu acompanhamento. “Todos esses problemas à minha volta acabam por desviar-me o foco e transformam-se em lesões”.

Na preparação para o Campeonato do Mundo parte a mão e falha o mundial. Quando recupera da mão parte uma costela. Na primeira prova em que regressa depois à competição faz uma lesão grave num joelho e é operado, a três meses dos JO. “Fui percebendo que as coisas não estavam a correr bem e que o plano tinha ido por água abaixo”. Mesmo assim, Nuno não desistiu e com grande esforço só parou no tatami de Atenas. Acabou por perder logo na primeira ronda, lesionado e com dores, depois de mais um azar, que conta aqui na primeira pessoa.

Poucos dias depois de aterrar em Lisboa, vindo da Grécia, o judoca casa-se e tenta digerir tudo o que estava a acontecer-lhe. Passados uns meses, quando tenta voltar à competição, percebe que o seu corpo já não respondia da mesma forma e que os problemas nas costas, fruto de cargas excessivas de treino antes de partir para Atenas, para recuperar o tempo perdido em lesões, se tinham agravado.

“Fui ao médico, e ele disse-me: ‘posso operar-te, mas pensa muito bem no que queres fazer na tua vida, porque depois vem uma hérnia e mais outra e outra e tu nunca mais vais voltar a fazer judo na vida’”.

Com uma sentença destas Nuno não conseguiu imaginar chegar ao ponto de nunca mais poder praticar judo. “Isso era demais. Não fazer desporto é muito para dar em troca de tentar continuar a competir”. E na verdade, também já não tinha a certeza se estava preparado para aguentar a disciplina, o rigor e o sofrimento que implicam quatro anos só a treinar. Além do mais Nuno já tinha lançado uma marca de roupa com nome próprio e a ideia de criar uma escola de judo já bailava na sua cabeça.

Em março de 2006 Nuno Delgado anunciou o fim da carreira desportiva. “Foi triste, porque foi uma porta que se fechou, mas por outro lado estava muito entusiasmado com aquilo que iria começar a fazer. Entretanto, em 2008 nasce a primeira filha, Ayla, que atualmente vive em Espanha, com a mãe, onde pratica judo.

Em março de 2006 Nuno Delgado anunciou o fim da carreira desportiva. “Foi triste, porque foi uma porta que se fechou, mas por outro lado estava muito entusiasmado com aquilo que iria começar a fazer. Entretanto, em 2008 nasce a primeira filha, Ayla, que atualmente vive em Espanha, com a mãe, onde pratica judo.

João Lima


A escola de judo comemora este ano o seu 10º aniversário e conta com 40 polos, com 950 alunos regulares, ou seja, sócios que treinam frequentemente. Porém toca num universo de mais de 2000 pessoas, pois tem projetos de integração social e trabalha com várias escolas do país. Além da escola, Nuno resolveu apostar na sua formação enquanto treinador, é 5º Dan, e passou a colaborar com a federação e com o Comité Olímpico de Portugal. De 2007 a 2009 foi selecionador Nacional do Escalão de Esperanças (sub17) e nos Jogos de Londres 2012 foi chefe adjunto de missão. Agora está no Rio como chefe de equipa técnica nacional de judo.

Casado em segundas núpcias com uma ex-colega de turma do curso na FMH, foi pai há uns meses de outra menina, Maria, e descobriu um novo hobby: o skate.

PALMARÉS:

Resultados individuais:

- BRONZE NOS JOGOS OLíMPICOS DE SYDNEY (2000)

- CAMPEÃO EUROPEU DE SENIORES EM BRATISLAVA (1999)

- VICECAMPEÃO EUROPEU DE SENIORES (2003)

- Vice campeão GRAND PRIX DE MOSCOVO (2001)

- 5º classificado no Mundial de Birmingham, em Inglaterra (1999)

- 5º classificado no Europeu de seniores (2002)

- 3º classificado no Mundial Universitário, na República Checa (1998)

- Medalhado em 6 Torneios de nível A e 3 Torneios super A, no Circuito Europeu

- Hexacampeão nacional de seniores

Resultados por equipas:

- Vice-campeão europeu de seleções por Portugal, FUNCHAL (2001)

- Campeão europeu de Clubes pelo TSV ABENSBERG (2000)

- Tetracampeão nacional por equipas pelo Sport Algés e Dafundo (2001\02\03\04)

- Tetravencedor da Taça de Portugal pelo Sport Algés e Dafundo (1997\98\99\2000)

- Tetracampeão da Bundesliga pelo TSV ABENSBERG (2000\02\03\04)

- Vice-campeão no Mundo Universitário por Portugal (1998)

Artigo publicado na edição do Expresso diário de 08/08/2016