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Momentos de glória, como no filme

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Prova de corta-mato, nos Jogos de Paris, 1924

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

De sonho a pesadelo, os Jogos de 1900 na vaidosa Paris tinham envergonhado o pai das Olimpíadas modernas. Chegados à década de 20, ninguém fizera pior que a cidade natal de Pierre de Coubertin. Paris tinha, por isso, uma dívida para com ele, o qual, em final de mandato na presidência do Comité Olímpico Internacional (COI), estava recetivo a uma nova edição na capital francesa, confiando numa organização mais digna.

Passada a I Guerra, o mundo continuava a cicatrizar as feridas. A Turquia, herdeira do derrotado Império Otomano, foi readmitida nos Jogos. Apesar dos esforços de Coubertin para que a Alemanha fosse tratada de igual forma, tal não aconteceu. Igualmente, não foram convidados a competir a Áustria, a Hungria e a União Soviética. A leste, quase todas as atividades desportivas decorriam no seio do movimento dos trabalhadores.

Na sua estreia nos Jogos, o Uruguai ganhou o torneio de futebol

Na sua estreia nos Jogos, o Uruguai ganhou o torneio de futebol

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Em Paris, os Jogos foram um sucesso e a organização não comprometeu. Até esta altura, os comités olímpicos nacionais costumavam arrendar instalações nas cidades para alojar os participantes, o que se tornava dispendioso. Em 1924, os organizadores construíram cabanas perto do Estádio Olímpico de Colombes para permitir aos atletas um acesso rápido às provas. “A cidade das casitas em madeira”, como ficou conhecida, seria uma espécie de precursora das futuras aldeias olímpicas.

Nos recintos desportivos, Paris deu ao mundo novos heróis. Entre eles, dois talentosos “sprinters” britânicos — o inglês Harold Abrahams, um judeu que competia para superar o preconceito, e o escocês Eric Liddell, um cristão devoto, que corria pela glória de Deus — que veriam as suas corridas replicadas no filme “Momentos de Glória” (“Chariots of Fire”, no original), de 1981.

Harold Abrahams era o mais novo de seis filhos de um imigrante judeu lituano. Educado na escola pública e incentivado pelos irmãos, tornar-se-ia o primeiro europeu a vencer os 100 m, perante o desprezo de alguns companheiros da Universidade de Cambridge. Amador, mas com atitude profissional, Abrahams contratara Sam Mussabini, um treinador “meio árabe”, algo visto como uma traição à ética vigente.

Para vencer, Abrahams contou com o seu mérito e também com as circunstâncias. Em Paris, o seu colega de universidade Eric Liddell fora afastado do seu caminho nos 100 m, em virtude das suas convicções religiosas. Cristão devoto e estudante de Teologia na Universidade de Edimburgo, ele recusara-se competir nos 100 m quando percebeu que a eliminatória seria disputada a um domingo. Quando Abrahams venceu os 100 m, Liddell rezava na Scots Kirk, em Paris. Venceria os 400 m e, de regresso à Escócia, seria literalmente levado em ombros.

Após vencer os 400 m em Paris, Eric Liddell foi recebido na Escócia como um herói. Junto à Universidade de Edimburgo, levaram-no em ombros. Foi um dos atletas que inspirou o filme “Momentos de glória”

Após vencer os 400 m em Paris, Eric Liddell foi recebido na Escócia como um herói. Junto à Universidade de Edimburgo, levaram-no em ombros. Foi um dos atletas que inspirou o filme “Momentos de glória”

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Os Estados Unidos ganharam 45 medalhas de ouro, seguidos da Finlândia que, com 14, confirmavam o estatuto de grande potência desportiva. A excecional capacidade dos nórdicos atesta-se no facto de os EUA terem, à época, 105 milhões de habitantes enquanto a Finlândia tinha apenas três milhões. Um deles, Paavo Nurmi, confirmou o valor demonstrado quatro anos antes e amealhou cinco medalhas de ouro, duas delas no espaço de uma hora (1500 e 5000).

O finlandês Paavo Nurmi, na foto a cortar a meta, conquistou cinco medalhas de ouro nos Jogos de Paris

O finlandês Paavo Nurmi, na foto a cortar a meta, conquistou cinco medalhas de ouro nos Jogos de Paris

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Outro herói foi um norte-americano nascido na Roménia, Johnny Weissmuller, que se destacou na natação e no polo aquático. Em criança, a poliomielite afetou-lhe a coordenação motora. Começou a nadar para combater a doença e tornou-se um dos melhores nadadores de todos os tempos, batendo 67 recordes mundiais e ganhando 52 campeonatos nacionais.

Em Paris, ganhou três medalhas de ouro, nos 100, 400 e na estafeta 4x200 m livres. Tornou-se o primeiro nadador a baixar de um minuto nos 100 m: fez 59 segundos. Ganharia mais dois ouros, nos Jogos de Amesterdão, em 1928.

Dos mergulhos na piscina para “os saltos de árvore em árvore”, Weissmuller haveria de tornar-se, na década de 30, o Tarzan mais famoso de Hollywood. Curiosamente, três outros medalhados olímpicos representariam essa personagem no cinema: o nadador Buster Crabbe, o lançador de peso Herman Brix e o corredor Glenn Morris.

O nadador norte-americano Johnny Weissmuller. Após a glória olímpica veio a fama em Hollywwod

O nadador norte-americano Johnny Weissmuller. Após a glória olímpica veio a fama em Hollywwod

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Para Portugal, Paris significou as primeiras medalhas. No hipismo, os cavaleiros Helder de Sousa Martins, Aníbal Borges de Almeida e José Mouzinho de Albuquerque conseguiram o bronze na prova de obstáculos. As deslocações dos atletas portugueses constituíam sempre uma dor de cabeça, pelas dificuldades em angariar financiamento. Foi feita uma subscrição nacional para assegurar a missão.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época