Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Desastre no futebol masculino: há Brasil menos brasileiro do que este?

  • 333

UESLEI MARCELINO/REUTERS

Depois de empatar sem golos frente à África do Sul nos Jogos Olímpicos, o Brasil voltou a fazer o mesmo frente ao modesto Iraque. Seguiram-se aplausos para os iraquianos e assobios para os brasileiros, entre gritos por Marta, a futebolista brasileira que já conseguiu duas vitórias com a seleção feminina. O que se passa com este Brasil?

9 de julho de 2014. Lembra-se? Os brasileiros devem lembrar-se, ainda que provavelmente façam tudo para esquecer aquele inesperado 1-7 frente à Alemanha. Dois anos depois de um dos momentos mais humilhantes do futebol brasileiro (pior do que o Maracanaço de 1950?), o Brasil voltou a ser envergonhado em casa.

Não perdeu, é verdade, mas não conseguiu marcar um único golo à modesta seleção do Iraque, 99ª classificada no ranking da FIFA, tal como não tinha conseguido marcar à África do Sul, 67ª no tal ranking. Nem com Neymar em campo. “Temos de pedir desculpa aos adeptos e ao povo de Brasília que esteve no estádio”, admitiu o selecionador Rogério Micale. “Não jogámos o nosso futebol.”

A questão impõe-se: há quanto tempo é que o Brasil não joga o seu futebol? Fala-se muito em identidade numa equipa de futebol e poucas são as seleções que a têm tão vincada como a brasileira. Ou melhor, tinham. Porque este Brasil vive uma crise de identidade.

A verdade é que ver a transformação que a seleção pentacampeã mundial sofreu nesta última década é uma dor de alma. É lugar comum quando se fala de futebol brasileiro fazer referência ao estilo dançado, ao samba, aos sons alegres do pagode, ao futebol de rua, de molecagem e de pé descalço. O futebol onde o indivíduo extravasa os seus sentimentos através da sua relação com a bola. Quem nunca viu a imagem do garoto na favela com a bola no pé? É a imagem de esperança de todas as crianças no Brasil: o sonho de jogar futebol e vestir a camisola amarela da seleção comanda a vida de muitos e para muitos é talvez a única solução de fuga a uma vida de crime e opressão social.

UESLEI MARCELINO/REUTERS

Foi de lá, da rua brasileira, que saíram os maiores craques que este mundo alguma vez viu. Começando pelo rei Pelé, passando por Garrincha, Romário e Ronaldo e acabando em Ronaldinho, só para mencionar alguns. E quando se acaba em Ronaldinho não é de forma inocente: é que foi com o craque dos dentes grandes e cabelo farto que acabou também a seleção canarinha. Daí para cá, tem sido uma seleção de amarelo gasto e desbotado, sem vida nem alegria - não pela falta de títulos, mas sim pelo estilo, ou melhor, falta de estilo.

Diz quem viu que a melhor seleção de todos os tempos não ganhou mas enchia corações. O Brasil que participou no Mundial de Espanha 82 jogava que se fartava. Era um futebol rendilhado, de rodriguinho, de reviengas. Zico, Sócrates, Falcão e Júnior eram os intérpretes de um espetáculo de movimentos sincronizados que marcou uma geração e fez com que a seleção do Brasil fosse adotada por todos os amantes do futebol.

A seleção brasileira não tem ganho, certo, mas o que incomoda os brasileiros é a forma como isso tem acontecido. Para muitos, esta nova seleção que apareceu depois do Mundial de 2006 na Alemanha tem uma cara, a de Dunga. Dunga, que foi o capitão da seleção que ganhou o Mundial de 94, era o toque guerreiro de uma equipa com Zinho, Mazinho, Raí, Romário e Bebeto - tudo artistas. O capitão trazia o equilíbrio, a disciplina e o trabalho a uma seleção que estava habituada a brincar na areia.

Dunga foi contratado pela Confederação Brasileira de Futebol para orientar o escrete no Mundial de 2010 na África do Sul e levou com ele os ensinamentos de muitos anos de futebol europeu. A ética de trabalho, o profissionalismo, a entrega a uma causa maior foram características que Dunga tentou implementar numa seleção brasileira conhecida por gostar pouco dessas coisas. O estilo de jogo também foi europeizado. Médios de combate, rigorosos no posicionamento e de características defensivas iam ganhando espaço, perdiam os criativos, os dribladores. Os adeptos torciam o nariz.

Saiu de mal com toda a gente depois da eliminação aos pés da Holanda, no Mundial 2010: imprensa, adeptos e jogadores - menos com a CBF, que lhe ofereceu novamente o lugar em 2014, só para ser novamente despedido depois de uma paupérrima prestação na Copa América 2016.

Pelo meio, a tal página negra do futebol brasileiro. O Brasil organizava o Mundial de 2014, as esperanças de que o mau futebol tinha ficado para trás estavam depositadas em Felipão (nosso conhecido), que tinha conduzido a seleção ao último título mundial, em 2002. Mas Scolari não foi por aí. Uma equipa apostada em povoar o meio campo com jogadores combativos e dependente de Neymar viu-se e desejou-se para jogar bom futebol. A lesão que atirou o craque para fora dos relvados foi a gota de água que fez transbordar o copo. A derrota por 7-1 na meia-final contra a Alemanha ficará gravada para sempre na memória dos brasileiros que viram a sua seleção ser humilhada na própria casa.

DIEGO AZUBEL/REUTERS

Ora, é fácil perceber que o ambiente está pesado para aqueles lados do Atlântico. Os brasileiros não estão satisfeitos com a sua seleção e fazem questão de dizê-lo - ou melhor, gritá-lo. Domingo, durante o jogo, foram ouvidos cânticos a chamar por Marta, que é a estrela da seleção feminina que tem “rebentado” nos Jogos (venceu a China por 3-0 e a Suécia por 5-1). O efeito esperado, presume-se, é que Neymar e companhia ponham os olhos nas meninas - e se façam homens.

Galvão Bueno, um dos comentadores de futebol mais conceituados e respeitados pelo público brasileiro, diz isso mesmo. O problema está na atitude, ou na falta dela: “A Marta representa aquilo que eles [os brasileiros] querem. O comportamento e o comprometimento que eles gostam. Orgulho de vestir a camisola da seleção brasileira. O Neymar está representando aquilo que eles não querem ver. Ele não está agradando ao torcedor brasileiro. O futebol brasileiro, atualmente, é dessa maneira. Sinto falta de um comprometimento maior”.

Depois dos dois empates, a seleção masculina brasileira deixou de depender só de si. Tem de vencer a Dinamarca, líder do grupo, e esperar para ver o que acontece no outro jogo entre o Iraque e a África do Sul (os jogos realizam-se na madrugada desta quarta para quinta, com começo marcado para as duas da manhã de Portugal) para passar a fase de grupos. E, já agora, para voltar ao que sempre foi e quis deixar de ser.

(Artigo publicado na edição do Expresso Diário de 08/08/2016)