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A vingança incrível de Rafaela Silva: humilhada, ofendida e agora campeã olímpica

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David Ramos/Getty Images

Nascida numa favela do Rio de Janeiro, iniciou-se no judo aos cinco anos, por brincadeira. A vida trouxe-lhe outrora derrotas e insultos: chamaram-lhe “macaca”, sem pudor de declarar que o seu lugar era numa “jaula”. Acaba de se sagrar campeã olímpica

Da favela para o primeiro degrau do pódio olímpico, conquistado esta segunda-feira na sua cidade-natal, o Rio de Janeiro, Rafaela Silva não percorreu um caminho fácil. É própria dos campeões a tripla sangue, suor e lágrimas, mas as que a judoca brasileira chorou nos últimos anos tiveram o sabor bem amargo provocado pela desconsideração e insultos que sofreu.

Eliminada da competição de judo nos quartos de final dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, por ter usado contra a adversária húngara Hedvig Karakas um movimento que já não era permitido, Rafaela viu virar-se contra si uma ira inusitada - em tamanho e em forma.

O país apontou-lhe severamente o dedo e, sobretudo através das redes sociais, as ofensas deixaram marca. Houve quem a considerasse uma “vergonha para família”, e até quem lhe chamasse “macaca”, sem pudor de declarar que o seu lugar era numa “jaula”.

A atleta pensou desistir, claro, por ser demasiado o peso da deceção desportiva, da injustiça dos ataques e do trabalho físico exigido a quem não queira abdicar de tentar ser a melhor.

A componente psicológica foi fundamental. “Comecei a fazer um trabalho de coach com a minha psicóloga, que não deixou eu abandonar”, recorda Rafaela, citada pela imprensa brasileira.

Nascida na Cidade de Deus e habituada às dificuldades, a agora campeã olímpica limpou então os olhos e respondeu com esforço e dedicação à violência das críticas. Conquistou o título mundial, também na categoria até 57 kg, e chegou à Arena Carioca 2 do Parque Olímpico do Rio disposta a mostrar a raça de que é feita.

“Esta medalha é para todas aquelas pessoas que me criticaram, que falaram que eu era vergonha para minha família e que eu não tinha capacidade para estar na Olimpíada”, disse, já com o ouro ao peito.

Mas a glória é grande o suficiente para também ser partilhada com “todo o povo brasileiro que veio aqui torcer, a minha família, os meus amigos, que vivem comigo diariamente”, acrescentou.

Rafaela começou no judo por brincadeira, aos cinco anos. Venceu a pobreza, o racismo, a derrota. Superou-se. Nas primeiras páginas informativas desta terça-feira e nas mesmas redes sociais onde foi humilhada passou a motivo de orgulho nacional. No seu caso, a vingança foi servida com o wazari que fez a oponente cair com metade das costas no tatame.