Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Sem Jogos nem tréguas

  • 333

Vários campeões olímpicos tombaram nas trincheiras da I Guerra Mundial (1914-18)

ARCHIVES / AFP / Getty Images

A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

À sexta Olimpíada, a política foi a jogo. Era 28 de junho de 1914 e Paris recebia um Congresso do Comité Olímpico Internacional (COI). Na ponta leste da Europa, em Sarajevo, um sérvio assassinava o arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, e fazia rufar os tambores da guerra no velho continente.

Um mês depois, o Império declarou guerra à Sérvia, depois de assegurar que teria o apoio da Alemanha. A 1 de agosto, esta declarou guerra à Rússia e dois dias depois à França. No coração do primeiro conflito mundial, Berlim era a cidade sede dos Jogos de 1916.

Fazia tempo que a Alemanha era um país comprometido com os ideais olímpicos. Em 1875, a descoberta arqueológica da antiga Olímpia — que impulsionou a cruzada desportiva de Pierre de Coubertin — só fora possível com financiamento do Reichstag. E desde o relançamento dos Jogos que os alemães vinham manifestando vontade em acolher uma edição.

Pierre de Coubertin reconhecia-lhes essa lealdade ao desporto e à causa olímpica e, no discurso de encerramento dos Jogos de Estocolmo, declarou: “Um grande povo [o alemão] recebeu das vossas mãos a tocha da Olimpíada e assim comprometeu-se a preservar e, se possível, intensificar a sua preciosa chama. Que a VI Olimpíada contribua, à semelhança das suas ilustres antecessoras, para o bem-estar geral e a melhoria da humanidade. Que seja preparada no trabalho fecundo dos tempos da paz”. Não seria assim.

Preparativos não param, apesar da guerra

Com a guerra em curso, e a crença de que o conflito seria curto, os preparativos para os Jogos não pararam. Aparentemente indiferente à conjuntura, o COI reuniu-se para discutir questões internas e pormenores organizativos.

Berlim partilhava dessa cegueira. Visando a melhoria do rendimento dos seus atletas comparativamente a 1912, a Alemanha enviou uma missão aos Estados Unidos para estudar os métodos de treino dos norte-americanos nas universidades e nas academias militares. E contratou o ex-campeão olímpico norte-americano Alvin Kraenzlein para organizar a equipa de atletismo.

Em 1915, Pierre de Coubertin começou finalmente a ceder e, unilateralmente, decidiu instalar a sede do COI em Lausana, na neutral Suíça. No ano seguinte, aos 53 anos, ele alistou-se no exército e para não pôr em causa a neutralidade do COI, pediu que a presidência fosse assumida interinamente pelo suíço Godefroy de Blonay.

Com dezenas de países envolvidos na guerra e cerca de 10 milhões de mortos, o mundo não estava com disposição para se empolgar com feitos desportivos. Os Jogos de Berlim seriam cancelados, em violação de um dos princípios mais sagrados dos Jogos Clássicos — as tréguas olímpicas.

Na Grécia Antiga, quando se aproximavam os Jogos, os conflitos eram interrompidos e entrava em vigor um acordo de livre trânsito para que os participantes nas competições pudessem deslocar-se em segurança até aos santuários. Ainda que pontualmente, ao esquecerem ódios e antagonismos, os gregos promoviam o são convívio entre cidades e homens.

Competições “burguesas”

A Grande Guerra feriu de morte os Jogos de Berlim, mas não o movimento olímpico. Dependentes da colaboração global, os Jogos sobreviveriam a um segundo conflito mundial. Não sem antes o COI passar por alguma turbulência... Com a revolução bolchevique de 1917, a recém criada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) passou a rejeitar o “desporto burguês” do COI.

Foi então criada a Internacional Vermelha dos Desportos, encarregue de organizar a Spartakiada, uma versão dos Jogos para os países do bloco de leste. Os soviéticos “desertaram” do concerto olímpico, onde só regressariam em 1952.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época