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A morte saiu à estrada

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Um exercício de equipa executado por atletas russos, durante a competição de ginástica

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

Quando Estocolmo ganhou a organização dos Jogos de 1912 não se anteviam problemas de maior. O evento não estaria associado a nenhum evento comercial, como em Paris e St. Louis, e apenas as reivindicações independentistas de alguns territórios, como a Finlândia e a Boémia — que queriam competir autonomamente e não integrados nos impérios russo e austro-húngaro — criavam celeuma.

Para os finlandeses — que só chegariam à independência após a Revolução de 1917 — continuava a ser incómodo marchar atrás da bandeira czarista, como os russos exigiam. Em Estocolmo, eles bateram o pé e, na cerimónia inaugural, desfilaram atrás de um estandarte de um clube de Helsínquia de ginastas femininas de língua sueca. Os seus resultados eram registados separadamente das marcas dos atletas russos — a Finlândia ganhou 26 medalhas e o Império Russo... cinco.

Para contentar países soberanos e territórios controlados, na homenagem aos vencedores era içada a bandeira do país e uma flâmula com as cores dos territórios. Após ganhar os 5000 metros, o finlandês Hannes Kolehmainen disse: “Quase que gostava não ter ganho só para não ver aquela bandeira ali”. Venceria ainda os 10.000 metros e a prova de corta-mato.

O finlandês Hannes Kolehmainen, na liderança da corrida dos 5000 metros, em Estocolmo

O finlandês Hannes Kolehmainen, na liderança da corrida dos 5000 metros, em Estocolmo

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Em Estocolmo, continuou o braço de ferro entre ingleses e norte-americanos relativo aos métodos de preparação dos atletas dos EUA, a quem os britânicos acusavam de semiprofissionalismo. A polémica abalou um dos pilares do espírito olímpico — o amadorismo — e “vitimou” um dos maiores desportistas de sempre — o norte-americano Jim Thorpe, vencedor das provas mais exigentes do atletismo, o pentatlo e o decatlo.

Filho de pai meio índio e meio irlandês e de mãe metade índia e metade francesa, foi criado numa reserva de Oklahoma, onde era chamado Wa Tho Huk (Destino brilhante). Na “civilização” o seu nome era James Francis Thorpe.

Em Estocolmo, o rei Gustavo V considerou-o “o maior atleta do mundo”. Mas de regresso aos EUA, em pouco tempo, sofreria um grande desgosto. Acusado pela União Atlética Amadora (AAU) de ter recebido dinheiro para jogar basebol, ele não negou: “Eu não joguei pelo dinheiro, mas porque gosto de jogar. Não era conhecedor dos caminhos do mundo, [desconhecia] que isso me tornaria profissional. Lamento muito por ter estragado tudo desta forma. Espero que a AAU não seja muito dura a julgar-me…”

A penalização foi, de facto, muito dura. O atleta viu serem-lhe retiradas as medalhas e as suas marcas apagadas dos registos oficiais. Em 1982, o seu nome foi reabilitado quando o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), Juan Antonio Samaranch, entregou réplicas das medalhas a membros da família Thorpe. A honra de Jim estava restituída, ainda que tarde demais — o atleta tinha morrido de cancro em 1953, quando vivia em dificuldades numa caravana num parque da Califórnia.

Jim Thorpe, a quem a sua tribo chamava Wa Tho Huk (Destino brilhante)

Jim Thorpe, a quem a sua tribo chamava Wa Tho Huk (Destino brilhante)

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Em termos organizativos, Estocolmo elevou a fasquia, com provas bem organizadas e instalações modernas. Diariamente, era publicado um jornal em três línguas com os resultados das provas. Pela primeira vez, participavam atletas dos cinco continentes.

Um deles foi o britânico Philip Noel-Baker, que correu os 800 e os 1500 metros: “Fomos para Estocolmo como atletas britânicos e regressamos a casa olímpicos, com uma nova visão que eu nunca perdi”. Noel-Baker viria a ser medalha de prata nos Jogos de 1920. Depois seria eleito para o Parlamento britânico e, em 1959, ganharia o Nobel da Paz pelo seu trabalho em prol do desarmamento.

Paralelamente às competições desportivas, a organização pôs de pé um programa cultural, cumprindo mais um sonho do Pierre de Coubertin, que incluía concursos de arquitetura, escultura, música, pintura e literatura. O trabalho “Ode ao desporto”, assinado por Georges Hohrod e M. Eschbach, venceu a prova de literatura.

Os autores eram, na verdade, um pseudónimo de… Pierre de Coubertin. Os concursos artísticos continuariam até aos Jogos de 1948.

A equipa britânica dos 4x100 metros livres em natação

A equipa britânica dos 4x100 metros livres em natação

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Para Portugal — que criara o seu Comité Olímpico em 1909 e fora o 13º país a aderir ao COI —, Estocolmo marcou a estreia nos Jogos, com um esgrimista, dois lutadores e três corredores.

O porta-estandarte foi Francisco Lázaro, um carpinteiro de 22 anos que trabalhava numa fábrica de carroçarias de automóveis no Bairro Alto, em Lisboa. Antes de partir, prometera à mulher, Sofia, que estava grávida: “Ou ganho, ou morro”. A 14 de julho de 1912, haveria de cumprir-se parte da profecia.

Francisco Lázaro, numa prova em Portugal, em 1912

Francisco Lázaro, numa prova em Portugal, em 1912

Wikimedia Commons

No livro “Corro para a eternidade — A trágica ambição de Francisco Lázaro” (Gradiva, 2013), o autor André Oliveira reconstitui os momentos que antecederam a fatídica prova. No balneário, o atleta Armando Cortesão e o lutador Joaquim Vidal encontraram Lázaro no balneário a untar o corpo com sebo. A mistura prometia tornar os músculos insensíveis à dor e à fadiga, evitando cãibras. Preocupados com as altas temperaturas que se faziam sentir, aconselharam-no a retirar aquela substância viscosa, para que a respiração cutânea se processasse normalmente, e empurraram-no à pressa para debaixo do chuveiro.

Lázaro iniciou a corrida às 13 horas, no pico do calor, ainda com sebo no corpo. Perto do quilómetro 30, caiu inanimado. Foi transportado para o Hospital Seraphim, onde viria a morrer. Metade dos atletas desistiram devido ao sol intenso. Oito médicos suecos, incluindo o diretor do Hospital, subscreveram um manifesto, recomendando que as maratonas olímpicas passassem para horários de menor risco.

Francisco Lázaro dá nome à antiga Travessa do Borralho, contígua à sede do Lisboa Ginásio Clube, na zona dos Anjos

Francisco Lázaro dá nome à antiga Travessa do Borralho, contígua à sede do Lisboa Ginásio Clube, na zona dos Anjos

MARGARIDA MOTA

A tragédia de Francisco Lázaro seria recordada recentemente, a 14 de julho de 2012, quando, no âmbito das celebrações do 100º aniversário dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, foi inaugurada uma placa em memória do atleta português na Porta da Maratona da Arena de Estocolmo.

“O destino trágico do jovem Lázaro, traçado sob um sol implacável que brilhou na Maratona de 1912, mudou para sempre a história olímpica e desempenhou um papel particular no bom relacionamento entre a Suécia e Portugal”, escreveu Margareta Björk, presidente da Assembleia Municipal de Estocolmo, no prefácio do livro de André Oliveira.

“Uma semana após a morte de Lázaro, a Suécia organizou uma grande comemoração nesse mesmo Estádio, com desporto e música a preencherem um programa que culminou com a projeção, em letras de fogo, nos céus da cidade, de um grande ‘L’, de Lázaro.” Então, foram angariadas 14 mil coroas suecas destinadas à viúva do atleta. Entre o público que lotou o estádio, esteve o rei Gustavo V.

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