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A família Oliveira tem “o dom de vencer”

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Aos 19 anos, Ivo é vice-campeão da Europa em ciclismo de pista. O gémeo Rui também não lhe fica nada atrás: os Oliveira foram os primeiros portugueses a conquistar medalhas em competições internacionais nas provas de pista. O irmão mais velho, Hélder, também correu em estrada. Entre os três filhos ciclistas, a casa dos Oliveira já é quase um museu, com medalhas, camisolas e 500 troféus que deixam o patriarca Fernando inchado de orgulho. Esta é primeira história da série “Esperanças Olímpicas”, em que o Expresso dá a conhecer o percurso dos jovens que muito provavelmente vão representar Portugal nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020

Ivo Oliveira, 19 anos

Luis Barbosa/ Fotografia cedida pela Federação Portuguesa de Ciclismo

Omnium, expressão em latim que significa todos à volta de algo. É isso que acontece na família Oliveira: pai, mãe, filhos e tios vibram com a paixão ao ciclismo. É nos dois mais novos, os gémeos Ivo e Rui, que recaem as grandes esperanças. Aos 19 anos, já contam com um currículo da fazer inveja a muitos: ainda nem tinham atingido a maioridade e já faziam história ao serem os primeiros portugueses a conquistarem medalhas internacionais em pista.

É quase sempre no plural que falam. Quando o ciclismo é tema de conversa, são raras as vezes que da boca de Ivo ou Rui sai a palavra eu. Estão habituados a que o mundo das bicicletas seja vivido em dupla. “Já nos confundiram milhares de vezes. Até em provas”, contam.

Há um ano, na Grécia, quando disputavam o Campeonato da Europa, chegaram mesmo a ser acusados de trocarem de lugar um com o outro. Os atletas russos dirigiram-se aos comissários e disseram que Rui estava a competir na vez de Ivo, que descansava para poupar as pernas. “Isso não é verdade, nunca aconteceu”, recorda Rui Oliveira em tom divertido. “Nem na escola nem em situações em casa alguma vez trocamos de identidades”, acrescenta.

Ivo Oliveira começou na estrada e só por volta dos 14 anos começou nas pistas

Ivo Oliveira começou na estrada e só por volta dos 14 anos começou nas pistas

DR

Mas omnium é mais do que uma palavra em latim. É também uma das disciplinas no ciclismo de pista, uma espécie de heptatlo em que os ciclistas realizam seis provas. No final, o vencedor é o que obtém menos pontos. Era nesta competição que Ivo estava a pedalar quando a Rússia desconfiou.

É também uma das disciplinas do ciclismo de pista representada nos Jogos Olímpicos. E é lá que os gémeos Oliveira querem chegar. “É um enorme reconhecimento. Este ano, se tivéssemos tido mais provas, podíamos ter ido ao Rio. Saber que há uma grande possibilidade ir a Tóquio é um enorme reconhecimento”, explica Ivo.

E se só um for a Tóquio?

Para o Comité Olímpico Português, as possibilidades de Ivo ir a Tóquio (75%) são maiores do que as de Rui (50%). Mas ambos fazem do projeto ׅEsperanças Olímpicas, uma seleção de atletas das várias modalidades que “apresentam determinado potencial para disputar a qualificação para os Jogos Olímpicos do ciclo seguinte, ou seja, prevê-se que os atuais venham a disputar a qualificação para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020”.

“Não nos consideramos adversários. Quando corremos juntos é muito bom, porque percebemos como podemos ajudar-nos um ao outro. É uma vantagem que muita gente não tem”, considera Ivo.

Os gémeos Rui e Ivo Oliveira

Os gémeos Rui e Ivo Oliveira

Joao Fonseca / FotoJAF Press Service / Imagens cedidas pela Federação Portuguesa de Ciclismo

Garantem que não há inveja. E mesmo quando um não tem um resultado tão bom, o outro fica feliz. “Gostava de ir aos Jogos, claro. Se fossemos os dois melhor, mas se por algum motivo só for o Ivo não ficarei nada triste, até pelo contrário. Vou tentar estar lá para o apoiar. Mais do que ciclistas e competidores somos irmãos”, comenta Rui.

Dentro da pista são companheiros, até porque fazem parte da mesma equipa, a Bike Club Portugal. Às vezes basta um olhar para se compreenderem. Fora de prova, os arrufos de irmãos são normais.

As primeiras bicicletas estão guardadas na garagem

A 2 de setembro de 1996, Fernando Oliveira assistia numa pista em Alpiarça à corrida de Hélder, na altura filho único. Foi quando a sua senhora, como lhe chama carinhosamente, começou a dar os primeiros sinais de que o nascimento estava para breve. A família deixou a prova, suspendeu as férias e rumou mais de 250 quilómetros a norte, para Vila Nova Gaia, onde ainda hoje moram. Três dias depois nasciam os gémeos.

“Comprei um triciclo. Um não… tive de comprar logo dois”, relembra o pai, que durante muitas tardes ficava a ver os meninos a tentar pedalar no brinquedo de plástico amarelo. Andavam para a frente e para trás. Da sala para a varanda. Dos quartos para a cozinha. Desde logo, foi uma paixão.

Em pequenos, os gémeos vestiam os equipamentos do irmão mais velho, Hélder

Em pequenos, os gémeos vestiam os equipamentos do irmão mais velho, Hélder

D.R.

E depois, havia o irmão, que com 14 anos de diferença já levava nas pernas muitos quilómetros pedalados. Ivo e Rui deliravam com os capacetes, as camisolas e troféus de Hélder, hoje com 33 anos. “Gostavam muito das bicicletas e também queriam as roupas do mais velho. Enfiavam as camisolas, queriam sempre vestir o equipamento que o outro tinha. E mais tarde começaram a achar piada aos capacetes de contrarrelógio”, conta Fernando.

Aos quatro anos receberam as primeiras bicicletas. “Acho que eram azuis”, diz Rui. Ainda estão guardadas na garagem lá de casa.

Por uns tempos, os gémeos ainda fizeram karaté. Foi quase aos sete anos, “sem dúvida por influência do pai e do irmão”, que experimentaram as bicicletas à séria num clube em Gondomar, os Leões Cabanenses. “Até tivemos de pedir para os deixarem competir porque ainda não tinham idade. E lá começaram com as brincadeiras e gincanas”. Ainda como infantis, venceram as primeiras medalhas.

A casa museu

Entre os três filhos, Fernando já conta perto de 500 troféus todos guardados em casa. Por contabilizar ficam as camisolas e as medalhas. “Há quem ache que a casa é um museu”, refere.

Os três irmãos Oliveira

Os três irmãos Oliveira

DR

Só há cinco anos é que Ivo e Rui chegaram às pistas. Até então, era à estrada que se dedicavam. Atualmente dividem o tempo pelas duas. “Olhando para o nosso currículo de pista e comparando com o de estrada, claro que não é igual. Tendo medalhas em europeus e mundiais de pista, qualquer coisa que feita em estrada fica a abaixo disso”, justifica Rui.

Na Arca de Noé, foram levados a experimentar o velódromo. O teste correu bem e começaram a competir. O pai Fernando quase nem acreditava no que via: “Percebi que havia futuro e que ia ser bonito”.

Foram correndo e foram ganhando. Passaram pelas mãos de Venceslau Fernandes, pai da triatleta Vanessa Fernandes, e pelo Clube de Ciclismo da Bairrada. E eis que o reconhecimento internacional surge. O primeiro foi Rui, que trouxe a prata no Europeu (scratch), em 2013. Em 2014, voltou ao pódio e alcançou o bronze. Nesse ano, Ivo também arrecadou medalhas: ouro (perseguição) e bronze (omnium).

“Marcou-me muito ser campeão da Europa em Portugal, diante das pessoas que me conhecem. São momentos únicos e que só temos noção que aconteceram passados uns dias ou semanas. Na altura, não parece real”, descreve Ivo Oliveira.

Rui e Ivo no Europeu de Juniores, em 2014

Rui e Ivo no Europeu de Juniores, em 2014

Joao Fonseca/FotoJAF Press Service/Imagens cedidas pela Federação Portuguesa de Ciclismo

Apenas duas semanas depois, em agosto de 2014, viajavam para a Coreia do Sul. Ivo sagrou-se campeão mundial de perseguição individual e Rui regressou a Gaia com o bronze no scratch. Mais uma vitória, desta vez em equipa, com os gémeos a trazerem o terceiro lugar do pódio na prova de madison.

“A prova foi muito emocionante. Estávamos a correr em dupla e estávamos entre o pódio e o quarto lugar. No final, conseguimos ganhar pontos. Era algo que queríamos muito os dois”, salienta Rui.

Outro dos grandes sonhos dos gémeos, entretanto já concretizado, era correr ao lado do irmão. No ano passado fizeram a época juntos. Os mais novos pela Bike Club Portugal, o mais velho pela W52. Hélder Oliveira deu por encerrada a carreira como ciclista.

“Se me perguntarem se estava à espera que acontecesse tudo tão rápido, a resposta é não. As coisas levam o seu tempo, mas eles trabalharam tanto que os resultados vieram cedo. Acho que eles têm o dom de vencer. Só pensam vencer as pessoas que estão acima deles, mas mantêm-se humildes”, diz o pai orgulhoso, que faz questão de lembrar que os seus meninos se dedicam de corpo e almas às bicicletas.

O trabalho além dos atletas

Por trás de Ivo e Rui, considerados “uma potência muito forte”, está uma grande base de apoio. O passado da família no desporto ajuda a compreender os sacrifícios necessários para fazer do ciclismo um modo de vida.

Os gémeos têm o apoio de toda a família

Os gémeos têm o apoio de toda a família

DR

Fernando tentou o ciclismo. Mas era o filho mais velho e tinha que trabalhar para ajudar a família. Nunca forçou os rebentos a pedalar, mas assegura que é um vaidoso por Hélder, Ivo e Rui terem escolhido o desporto pelo qual “é louco”.

“Somos todos muito importantes para este sucesso. As pessoas às vezes não têm noção do que é preciso para fazê-los chegar a um nível destes. Não são só os atletas que têm de ser dedicados. Quem está a apoiá-los também tem de ser. Aqui entendemos toda esta paixão”, conta o pai, que já concluiu o curso de treinador.

Os gémeos acabaram o curso profissional de gestão informática. O sonho maior é fazer do ciclismo um modo de vida. Ivo até pondera procurar uma equipa no estrangeiro que lhe permita trabalhar só a pedalar, pois fazê-lo em Portugal “é quase impossível”, diz. “Adoro o que faço e trabalho todos os dias para isto. Tenho muitas pessoas que me têm ajudado e continuo motivado”.

Mas o futuro ainda está longe. Os próximos tempos passam por fazer boas provas, participar nas Taças das Nações, europeu e mundiais. E... “Quem sabe a Volta a França”, considera Rui.

“A fórmula mágica é muita dedicação, investimento e trabalho. Pensamos mais nos nossos filhos do que na nossa boca. Mas somos todos muito felizes em sermos assim”, conclui o pai Oliveira.