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“Raramente peço a Deus o que quer que seja”

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João Rodrigues tem 44 anos, 35 deles dedicados ao windsurf, e anda nos Jogos Olímpicos desde 1992. Esta á sua história, contada por ele

Marta Caires

Jornalista

A história começa lá atrás, no dia em que deslizou pela primeira vez numa prancha à vela e soube que queria fazer aquilo para o resto da vida. João Rodrigues, o porta-estandarte da missão portuguesa ao Rio 2016 e recordista de participações em Jogos Olímpicos, dedicou 35 dos seus 44 anos ao windsurf. Ganhou o primeiro nacional aos 16 anos, foi campeão do Mundo e da Europa, mas viu a medalha fugir-lhe por entre os dedos em Atenas. Talvez fosse esse o papel que lhe estava reservado na história: “O do tipo que vai aos jogos e não ganha medalhas”. E é também a história do tipo que teve a sorte de fazer o que gosta, “o que vale ouro”, o mesmo que guardou a televisão dentro do armário para conseguir acabar o curso de engenharia mecânica e qualificar-se para a Atlanta. O tal que não pede favores a Deus e muito menos se for para ganhar uma regata, o que vai pela sétima vez aos jogos olímpicos e mantém aquela vontade de ir para o mar, esse lugar onde não há um dia igual ao outro. Quando sair, em Setembro, deixa um vazio no windsurf olímpico já que faltam apoios aos novos velejadores. 

Sete jogos olímpicos, 44 anos. Qual é o segredo desta longevidade? São várias coisas. Uma delas é o facto de viver nesta ilha, que é um dos melhores sítios que há para velejar. Não temos inverno ou, pelo menos, é um inverno muito suave e, dada a orografia existem inúmeros micro climas. Isso é verdade em terra, mas se andarmos junto à linha de costa existem também inúmeros microclimas e condições de mar diferentes. Isso fez com que nunca sentisse monotonia. Uma das minhas maiores vantagens em relação aos meus adversários é que não havia competição a que fosse em que tivesse realmente grandes problemas. Também não havia uma em que fosse claramente superior. Isso permitiu-me manter a vontade de ir para a água porque não há um dia igual ao outro. A semana passada, para dar um exemplo, velejei aqui no Funchal um dia, outro no Porto Moniz, um dia nos Reis Magos e um dia no Caniçal...

E as condições de mar foram sempre diferentes? Não há uma semana igual à outra. Outro fator que me fez manter foram as circunstâncias. Nasci na altura certa, quando o windsurf ainda não era profissional. Em Barcelona, por exemplo, não havia muitos profissionais. Já havia alguns países com velejadores que se dedicavam a tempo inteiro, mas a maioria era amadora, assim como eu. Nessa altura, o tempo útil de um velejador na alta competição acabava aos 25 anos. Aos 30 anos já era um...

Um veterano em fim de carreira? (Risos) Sim, um veterano, que é uma palavra mais simpática para velho. Aos 30 anos já se era um velejador muito veterano. Lembro-me, em Barcelona, de um belga que teria 26, 27 anos e que nós perguntávamos o que é que ele estava ali a fazer.

Soube acompanhar a evolução da modalidade, é isso? É isso, mas não só. Comecei a velejar no tempo das vacas gordas. E não era só eu, eram todos os atletas e em qualquer modalidade, sobretudo as olímpicas, desde que tivessem resultados. Todos tínhamos um apoio que não existia ao nível nacional. Isso permitiu-me estar sempre um passo à frente. Isto é tudo muito bonito, mas sem dinheiro não se consegue fazer nada.

Há a ideia de que os atletas e os artistas não precisam de dinheiro, fazem tudo por desporto... Isso é ainda mais notório no caso dos artistas. Tenho vários amigos que são artistas que se queixam disso mesmo - as pessoas acham que eles podem viver do ar.

Em relação ao desporto há, apesar de tudo, a noção de que é preciso dinheiro? Cada vez mais. No meu caso foram aparecendo patrocínios aqui ao nível regional que me permitiram pensar aos 40 anos – que foi quando comecei este ciclo olímpico - que ainda havia o suporte financeiro para ir ao Rio.

Os resultados também terão ajudado a manter estes apoios. Isso é capaz de ter dado uma certa ajuda (risos).

E como é que se consegue ter, aos 44 anos, a condição física para garantir a classificação para os jogos olímpicos? Algum segredo? Não tenho um segredo (risos). A única coisa que talvez possa variar um pouco é que sou quase vegetariano, praticamente não como carne e peixe muito raramente. Não sou vegetariano, nem fundamentalista. Quando vou a casa dos amigos, como o que me servirem, aceito de bom grado.

Vi, numa entrevista antes de uma das suas participações olímpicas, que fazia ioga. É algo determinante? Se há um segredo – que pouca gente sabe – e não é bem um segredo, é que em 1996 conheci um fisioterapeuta, o João Carvalho. Fui à consulta por me ter magoado num dedo depois dos jogos de Atlanta, mas o João nem olhou para o dedo. Quando acabámos a consulta, disse-me que da maneira que estava a minha carreira ia acabar depressa. Tinha desvios da coluna, tinha lesões graves nos cotovelos e no pescoço. Acho que é um dos grandes responsáveis pela longevidade da minha carreira. Ensinou-me a ouvir o meu corpo, a perceber os efeitos que a atividade que eu desempenhava tinha no meu corpo e como é que podia recuperar disso. Nós trabalhávamos uma técnica que se chama RPG – reeducação postural global –, o que é um pedaço aborrecido de trabalhar sozinho. Então comecei a procurar algo mais abrangente e foi nessa altura que apareceu o ioga. Comecei a praticar em 1998. É uma coisa que faço todos os dias e já não sou capaz de acabar um dia sem o fazer.

O que sentiu quando foi apurado para Barcelona? E como tem sido ao longo destes anos todos? De cada vez que acaba pensa que é a última vez? Já sou conhecido por dizer isso (risos). Para responder a isso tenho de andar para trás até ao dia em que deslizei em cima de uma prancha à vela pela primeira vez. Eu tinha nove anos e não havia nada parecido com regatas na minha cabeça. Simplesmente tinha debaixo dos meus pés e nas minhas mãos o instrumento que queria levar até à perfeição. Tornou-se uma obsessão. Nesse dia eu disse: “uauuu só quero fazer isto daqui para a frente”. Aos 11 anos entrei na primeira regata ali no Lido. Eu não acabei a regata porque fiquei com as mãos a doer, mas foi o primeiro momento em que percebi que era ali que podia ver o que tinha evoluído. Isto foi uma bola de neve. Aos 13 anos ganhei a minha primeira regata ao meu treinador, que ainda é o meu treinador. Entrei na primeira competição nacional aos 14 nos Açores, a terra dos meus pais. Aos 16 houve o primeiro nacional aqui na Madeira e eu ganhei. Só ganhei porque o melhor velejador português da altura não veio, tinha acabado de chegar dos jogos de Seul e não tinha pachorra de vir para a Madeira. E eu agradeci imenso. É dos títulos que guardo com mais carinho. Foi o primeiro, foi aqui na Madeira, foi uma festa enorme.

E depois veio Barcelona? Não sonhava ir aos Jogos Olímpicos. Eu queria apenas continuar a fazer regatas e, pelo meio, havia seleções para os Jogos. Qualifiquei-me in extremis num Europeu na Polónia. Só se apurava a primeira metade e éramos 90, fiquei em 41º. De repente, estava nos Jogos. O percurso até lá chegar foi assim meio alienado da realidade. Na cerimónia de abertura estavam 10 mil atletas no estádio de Barcelona, que é um estádio lindíssimo, e foi aí que me apercebi.

Percebeu que era a valer? A cerimónia de abertura de Barcelona foi muito emotiva, não sei se por ter sido a primeira vez. Nessa cerimónia passaram uma bandeira gigante por cima dos atletas todos. Nós ficámos por debaixo daquela bandeira, estava toda a gente muito emocionada. Ao meu lado estava um atleta da Irlanda, não sei que modalidade era, nem que idade tinha, mas chorava compulsivamente. Não chorava de alegria, nem de tristeza, era um chorar diferente, era uma emoção que eu não sentia e lembro-me de ter pensado que havia ali qualquer coisa que me estava a escapar.

Nesse dia pensou que não ficaria por Barcelona? Foi no regresso, nessa altura ainda havia fronteiras. Regressámos num velhinho jipe UMM e parámos à espera de passar a fronteira e eu subi para cima do tejadilho. Já era de noite e fiquei a pensar que gostava de ir aos jogos de Atlanta, mas não queria ir simplesmente aos Jogos de Atlanta. Nessa altura já tinha entrado para o Técnico, tinha passado para o 3º ano, mas não tinha lá posto os pés.

Também tem um curso de engenharia? Também aconteceu pelo caminho (risos). Decidi então nessa altura que iria tentar ir aos jogos de Atlanta, mas queria acabar o curso. Tinha quatro cadeiras de atraso e queria acabar o curso antes de ir aos Jogos. Quando cheguei a casa – os meus pais tinham um apartamento em Lisboa – a primeira coisa que fiz foi pegar no televisor e guardar no armário. Ficou lá dentro durante três anos.

E não viu televisão nesses anos? Eu sabia que a televisão era o que mais me distraia e queria eliminar tudo o que me pudesse distrair de dois objetivos: acabar o curso de engenharia mecânica e qualificar-me para Atlanta. Durante três anos só fiz isso. Não fui ao cinema, não sai à noite, praticamente não tinha amigos. Visto de fora parece uma vida estéril, mas não foi assim. Tenho 44 anos, três deles foram dedicados a fazer duas coisas que achei que eram relevantes. Hoje dou graças a Deus por ter tomado essa decisão. Aqueles quatro anos foram dos melhores anos da minha vida.

Até foi campeão do Mundo. Sim, sim em 1995. Ganhei esse campeonato. Esses quatro anos foram mesmo muito impactantes. Ganhei o Mundial em dezembro de 1995 e em janeiro 1996 acabei o curso; em março qualifiquei-me para os Jogos; em agosto estava em Atlanta.

E depois? Quando Atlanta acabou? Comecei a trabalhar como engenheiro no gabinete de projetos do Instituto do Desporto e para um gabinete privado.

Pensou que tinha acabado a carreira olímpica? Tenho ideia de ter pensado que queria ir aos Jogos de Sidney, era o número um do ranking mundial na altura. Eu estava no auge da minha carreira desportiva, mas não sabia o que ia ser no futuro. A qualificação para Sydney aconteceu mais ou menos de forma natural. Nessa altura, eu ainda velejava bem. Tive sorte que no Instituto do Desporto tinham a noção do que era preciso para ir aos jogos e facilitaram-me a vida.

Se calhar porque havia mais dinheiro e quando há dinheiro é sempre mais fácil... É verdade, é sempre diferente... O certo é que lá me qualifiquei para Sydney e em Sydney vivi, se calhar, a pior semana da minha vida em termos desportivos.

O que é que correu mal? Eu adorava Sydney. Se não vivesse na Madeira, onde gostava de viver era em Sydney ou Auckland, na Nova Zelândia, porque são países com uma cultura náutica impressionante. Quando estava a treinar para os Jogos Olímpicos, não se treinava às quartas-feiras à tarde, nem aos sábados o dia inteiro porque era impossível velejar tal a quantidade de barcos na baía. Quarta-feira à tarde, um dia de semana... É que toda a gente gosta de ter um barco e de ir para o mar. A baía é linda, ter a ópera e a ponte em fundo...

Sendo esse o espírito e o cenário a prova correu mal.. Correu. No ano anterior tinha feito um dos melhores campeonatos – no evento teste dos jogos em 1999. No ano seguinte fiz exatamente o mesmo, com as mesmas pessoas, aluguei a mesma casa e foi a pior semana da minha vida.

A derrota faz parte do desporto... Na altura custou-me imenso a ultrapassar o desaire. Fiquei em 18º e partia como favorito. Se tivesse sido em Barcelona teria sido maravilhoso (risos). Esse resultado foi a mola que me levou depois a ter o melhor resultado de sempre dos jogos em Atenas. Eu decidi que ia a Atenas depois dos jogos de Sidney. Fomos a um jantar onde estava o fisioterapeuta João Carvalho, o meu psicólogo, a minha mulher (agora ex-mulher) também estava lá, e disseram todos que sim, que tinha de ir, não podia acabar com um 18º lugar.

E em Atenas conseguiu mesmo o seu melhor resultado. Foi um ciclo olímpico esquisito. Os dois primeiros anos voltei a trabalhar quase a tempo inteiro para compensar o que tinha deixado para trás. Disse a toda a gente, até foi público, que eram os últimos, que iria terminar com 32 anos. Também sentia que, em termos de engenharia, os meus colegas continuavam a estudar, a praticar, e eu estava a perder o comboio. Eu tinha que decidir se ia ser velejador profissional ou engenheiro.

Tentou ser apenas engenheiro? E fui durante um ano e meio. Trabalhei que nem um cão das nove às nove.

Mas isto já depois da Atenas... Eu saí de Atenas muito satisfeito, cheguei a liderar os Jogos durante vários dias. Depois, por várias várias circunstâncias, senti a medalha fugir-me por entre as mãos como a água escorre por entre os dedos. Saí de Atenas com a sensação que podia ganhar, que podia fazer boas regatas. Sei que isso não se traduziu numa medalha. Depois, durante um ano e meio dediquei-me à engenharia até comprar a nova prancha olímpica

E o que aconteceu? É aquela história de quando o amor é verdadeiro é para sempre? Quase isso (risos). Depois de Atenas a prancha olímpica mudou. Fui acompanhando o processo de longe e de repente, em Agosto de 2005, os meus amigos disseram-me que a prancha era maravilhosa, que era superdivertida.

E que tinha de experimentar? Sim. Mandei vir uma prancha aqui para a Madeira. O que foi uma asneira (risos). A prancha era extremamente exigente, a vela era muito grande e muito pesada, mas era extremamente rápida. Era um brinquedo novo e comecei a brincar com aquilo depois do verão de 2005 e no fim desse ano decidi que ia entrar numa prova só para ver como era.

Não era para voltar à alta competição? Era só para experimentar. Quando cheguei a Miami encontrei a Marina, uma amiga espanhola, que em meia hora, disse que era tudo o errado o que eu tinha feito. Ainda me lembro-me de ela me dizer: “ não João, não é assim, estás a fazer errado”. Depois fui para o campeonato, acabei em quinto e ainda cheguei a ganhar uma regata. Quando voltei disse no Instituto que ia dedicar-me ao windsurf a tempo inteiro. Demorei seis meses a reorganizar a minha vida e no Verão de 2006 sai da Madeira e acho que só voltei depois de Pequim. No fim dosJjogos estava entre os três primeiros do ranking mundial, tinha sido vice-campeão do mundo, campeão da Europa. Assim, ficava difícil de largar. Tinha apoios financeiros. Era irresistível e eu pensei que ia até aos 40, acabava em Londres, mas em 2009 soubemos que os Jogos seriam no Rio. Eu continuei a dizer que acabava em Londres, mas com muito pouca convicção. Passei os invernos de 2006, 2007 e 2008 no Rio e em Búzios, aquilo era lindíssimo.

O apelo era grande para não tentar a qualificação? Até Londres eu tinha mais ou menos consciência que não seria difícil chegar. Por duas razões: uma porque continuava a velejar de uma forma bastante interessante e outra porque ao nível nacional não aparecia mais ninguém. No ciclo olímpico para o Rio comecei a ter alguns problemas físicos. A meio do ciclo lesionei-me e comecei a pensar que, se conseguisse, seria uma maneira bonita de acabar.

Que legado deixa à modalidade? Não há quem queira continuar? Nestes 28 anos apareceu muita gente. O meu irmão mais novo foi uma das promessas, houve muitos miúdos aqui do CTM (Centro de Treino Mar) que chegaram a ter alguns resultados interessantes. Depois, há sempre o problema quando começam a estudar. As dificuldades começam a surgir, normalmente abandonam. Muitos deles já não foram abrangidos por um sistema de apoios que existia quando eu estava a começar. Hoje em dia, nesta classe, o orçamento que é preciso ter é obsceno.

Quanto é que é preciso ter? Só em equipamento são necessários 50 mil euros por ano. Depois tem tudo o resto: as viagens para participar em regatas, os alojamentos...

Num ano qual é o orçamento total? Os meus foram reduzindo, já nem sei que deixei de olhar para isso para não me assustar (risos) Dou o exemplo de um amigo meu israelita que tinha o orçamento de 400 mil euros para os quatro anos do ciclo olímpico. Andará mais ou menos à volta deste valor para fazer um ciclo e lutar por medalhas.

Mas é por causa disso que não aparece muita gente na modalidade? Não sei se será por causa disso, mas é um fator sem sombra de dúvida.

Ou a modalidade não atrai? Eu acho que atrai. Basta ir ver os cursos de Verão no CTM e no Clube Naval. O windsurf é uma coisa muito apelativa. Agora o windsurf olímpico é uma coisa completamente distinta, é algo que exige profissionalismo. Estive agora no campeonato da Europa que era também campeonato de juniores e estavam perto de 120 juniores lá e é impressionante o profissionalismo destas equipas. Não são elementos isolados, são equipas montadas pelos países. O que acontece no nosso caso é que não temos uma equipa, nós não temos uma estrutura que nos possa dar apoio a estes atletas mais jovens.

Faltam condições, apoios... Passa muito por ai. Nós não temos, mesmo ao nível nacional, um programa de apoio para juniores. O que é um paradoxo já que, na vela, entre as classes olímpicas, é a classe mais económica. Quando estamos a falar de 400 mil euros, estamos a falar do topo, dos melhores atletas do mundo. É possível fazer uma campanha olímpica por muito menos do que isso, menos de um quarto disso. Não será para obter grandes resultados.

É que depois se reclama muito das medalhas. Essas coisas não acontecem só por que temos uma vontade muito grande de ganhar. Não é só no windsurf. O Gustavo Lima vai pela quinta vez aos jogos olímpicos. Na vela, somos a delegação mais velha de sempre a participar, em menos classes e com os atletas mais velhos de sempre. Isso significa que o país não foi capaz de criar velejadores que pudessem tirar naturalmente o lugar a estes que são mais velhos. Era natural que alguém mais novo me pudesse tirar o lugar e ao Gustavo também. Se por um lado é engraçado ir a sete Jogos Olímpicos, por outro lado revela que há uma falha do país. Há aqui um fosso enorme. Este ano não houve mais ninguém a competir nesta classe, nem juniores, nem nada, acabou-se.

E é uma sensação estranha? Sei que vem aí uma nova geração de velejadores, mas têm pelo menos 10 anos pela frente para pensar chegar aos jogos olímpicos. Nos próximos jogos olímpicos acho difícil. Há pelo menos um velejador que tem essa ambição, que tem agora 20 anos ou 21, mas está a estudar em Lisboa, não sei que apoios vai ter, tem a vida bastante dificultada. Hoje em dia é cada vez mais difícil qualificar-se para os Jogos, mesmo ao nível internacional. Isso vai ser muito difícil de ultrapassar no futuro.

Admite continuar ligado à modalidade como treinador? O que eu vou começar a construir a partir de setembro é um livro em branco. Não tenho rigorosamente nada planeado. Quando recomecei, depois da Atenas, disse a mim mesmo que não me ia preocupar mais com o futuro. Pensei que ia fazer aquilo que gostava e aquilo que gosto tem conseguido manter-me à tona de água até agora. Não fiquei rico, também não passei fome e foi uma vida plena de significado. Acho que isso vale ouro.

Há-de aparecer uma oportunidade? Vou dar a mim mesmo um tempo. Passam-se 28 anos a viver ciclos de quatro em quatro anos e de repente não há mais ciclos. Não sei como é que vou lidar com isso.

Qual é a sensação de ser porta-estandarte da delegação portuguesa? É a forma mais bonita de acabar uma carreira olímpica. Esta é a primeira vez que o chefe da missão escolhe um porta-estandarte que não só não ganhou uma medalha olímpica como realisticamente não vai ganhar alguma medalha.

Lamenta o facto de não ter uma medalha? Tive muita pena depois de Atenas e isso demorou uns meses a passar. Penso muitas vezes que não seria a mesma pessoa se tivesse ganho uma medalha. Não sei se estaria aqui a dar esta entrevista. O que tenho a certeza é que o meu percurso me moldou até ser a pessoa que sou hoje. E eu até nem desgosto do resultado. Também sou o resultado de não ter ganho uma medalha nos jogos. Se calhar o meu papel nesta história toda era esse: era o de um tipo que vai aos jogos olímpicos e não ganha medalhas...

É um dos atletas com mais participações em Jogos Olímpicos ao nível internacional? O recordista vai agora ao jogos olímpicos do Rio, tem 64 anos e é do hipismo. Eu costumo dizer que não vale porque o primeiro cavalo já morreu e o segundo também quase de certeza. (risos)

É candidato à comissão de atletas. Achei interessante ser candidato. Afinal são sete jogos, 28 anos a ouvir os atletas a queixar-se disto e daquilo, a dar sugestões. Foi algo que me moldou tanto e era uma forma de continuar ligado a um evento que talhou a minha vida durante tantos anos.

Fez amigos? Muitos.

E a vida na aldeia olímpica? Muitas pessoas pensam que a aldeia olímpica é uma festa enorme, uma grande farra. Não é bem assim. São 10 mil atletas. É natural que exista festa. Aquelas pessoas estiveram quatro anos a treinar e é natural que queiram descomprimir. Tenho amigos dentro da delegação portuguesa claro, tenho amigos na vela, amigos com quase 20 anos, que também vão aos Jogos: o brasileiro Ricardo Santos, o espanhol Ivan Pastor e o mexicano David Mier y Téran. Tenho amigos que participaram comigo em Barcelona e vão agora como treinadores. Nós convivemos desde essa altura. Já estive na casa deles, já estiveram cá e vamos encontrando um pouco por todo o Mundo. Estas amizades vão perdurar para sempre.

É isso o espírito olímpico? É ter a capacidade de ter amigos apesar de, no momento da largada, não haver contemplações. Somos adversários, dos mais ferozes que se pode encontrar. Se há uma coisa que gosto de pensar é que nunca entrei numa sala de protestos, nem como protestado, nem como protestante. E isso foi o garante para manter amigos durante tanto tempo, apesar de convivermos num ambiente competitivo e onde a nossa sobrevivência depende dos resultados.

E fé? E superstições? Tem? Nenhuma superstição e raramente peço a Deus o que quer que seja. Deus está demasiado ocupado a resolver muitos problemas. Era só que faltava pedir-lhe alguma coisa por causa de uma regata. Acho que tem a agenda bem completa. Usei o mesmo número durante muitos anos, mas porque foi o primeiro que usei, o 75. Só este ano é que mudei, deixei cair o cinco, ficou só o sete por ser a sétima participação. Não tem outro significado.