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Organização inglesa, regras inglesas

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Muita curiosidade à volta do treino do saltador Martin Sheridan, dos EUA

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

Inicialmente previstos para Roma, os Jogos de 1908 deixaram Itália quando, a escassos dois anos de serem inaugurados, o Governo fez saber que não tinha capacidade para os custear. A erupção do Vesúvio, a 7 de abril de 1906, obrigara ao desvio de fundos destinados aos Jogos, designadamente para a reconstrução da cidade de Nápoles.

Em contagem decrescente para o evento, o convite foi endereçado à Grã-Bretanha, que já tinha previsto receber, nesse ano, uma exposição comemorativa do estabelecimento da Entente Cordiale (1904) entre Reino Unido e França.

À frente do projeto estava o empresário húngaro Imre Kiralfy que decidira, paralelamente à exposição, construir uma cidade em miniatura a oeste de Londres, a que chamou White City. Ali foi construído também um grande estádio de raiz, com uma pista de corrida, outra de ciclismo e uma piscina.

Aos contribuintes não seria pedido um único penny. Kiralfy financiou o estádio com 60 mil libras. Em contrapartida, ficaria com 75% do valor das entradas.

Estádio cheio à espera dos atletas da maratona

Estádio cheio à espera dos atletas da maratona

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Pela terceira vez, os Jogos competiam com uma feira internacional, mas, desta vez, havia garantias de que a vertente desportiva seria honrada.

Numa corrida contra o tempo, Londres improvisou o êxito com rapidez. O país tinha a seu favor a tarimba de décadas de grandes eventos desportivos. No início do século XX, os britânicos já se orgulhavam de organizar o festival hípico Derby de Epsom, a Real Regata de Henley em remo, a Taça da Federação de Futebol e os Campeonatos de Ténis de Inglaterra, em Wimbledon.

Chegada a altura de porem de pé uns Jogos Olímpicos, os ingleses não perderam a oportunidade de deixar o seu cunho, adotando regras próprias em detrimento das do COI. Para cada modalidade, imprimiram e distribuíram manuais de regras em inglês, francês e alemão.

Árbitros e juízes no relvado do estádio olímpico

Árbitros e juízes no relvado do estádio olímpico

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Numa decisão polémica, a organização decidiu que os juízes seriam apenas ingleses, originando protestos sobretudo da delegação dos Estados Unidos que os acusou de serem tendenciosos. Após os Jogos, o COI decidiu que os juízes passariam a ser internacionais e não exclusivamente do país organizador.

Os norte-americanos, por seu lado, eram acusados de destruir o ideal do desporto amador através da prática de treinos dos seus atletas, o que os tornava uma elite.

Para cada um deles, os outros eram hipócritas: os americanos denunciavam o pretenso fair-play dos britânicos, que tinham os juízes do seu lado; os britânicos criticavam o falso amadorismo dos atletas americanos.

As maiores picardias envolviam britânicos e americanos de origem irlandesa, solidários com a província “oprimida” pela Coroa — os irlandeses eram obrigados a competir sob bandeira britânica.

Ralph Rose, o lançador do peso norte-americano que recusou inclinar a bandeira dos EUA diante do Rei Eduardo VII

Ralph Rose, o lançador do peso norte-americano que recusou inclinar a bandeira dos EUA diante do Rei Eduardo VII

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Os Jogos de Londres tiveram no Rei Eduardo VII um grande entusiasta. Na tribuna do estádio Shepherds Bush, a assistir à marcha das nações, o monarca foi alvo de atos rebeldes por parte de alguns atletas. O lançador do peso norte-americano Ralph Rose, que transportava a bandeira dos EUA, recusou inclinar a Stars and Stripes diante do rei, em protesto contra a falta da bandeira dos EUA em redor do estádio.

Pela mesma razão, a Suécia não participou no desfile inaugural. E o Grão-Ducado da Finlândia, que era parte integrante da Rússia, recusou marchar atrás da bandeira do império czarista.

Forrest Smithson, com uma Bíblia na mão esquerda, enquanto corre os 110 metros barreiras

Forrest Smithson, com uma Bíblia na mão esquerda, enquanto corre os 110 metros barreiras

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Uma fotografia destes Jogos deu origem à teoria de que, em Londres, ter-se-iam repetido os mesmos protestos de Paris relativamente às provas ao domingo. Nela vê-se Forrest Smithson, a correr a final dos 110 metros barreiras com uma Bíblia na mão esquerda. Dizia-se que correu sob protesto.

Não terá sido assim, já que essa prova não aconteceu a um domingo. Smithson, um estudante de Teologia na Universidade do Oregon e um cristão fervoroso, tinha por hábito correr agarrado a uma Bíblia para mostrar a fonte da sua força e inspiração: a sua relação com Jesus Cristo.

Cambaleante, o italiano Dorando Pietri corta a meta da maratona ajudado por membros da organização

Cambaleante, o italiano Dorando Pietri corta a meta da maratona ajudado por membros da organização

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

À semelhança das edições anteriores, a maratona proporcionou momentos emotivos e insólitos. Durante a última volta à pista, o italiano Dorando Pietri, que liderava a prova e entrara no estádio quase inconsciente, desfaleceu por quatro vezes. Este pasteleiro de Capri conseguiu sempre arranjar forças para prosseguir. Cambaleante, foi amparado por dois membros da organização — o diretor da prova, de megafone na mão, e um médico — que o guiaram até à meta.

Arthur Conan Doyle, o criador de Shelock Holmes, estava presente no estádio e escreveu uma reportagem que publicou no “Daily Mail”, a 25 de julho de 1908. “De seguida, ele caiu novamente, mãos amáveis salvam-no de uma queda pesada. Ele estava a poucos metros de onde eu estava sentado. Entre figuras inclinadas e mãos que o seguravam, vislumbrei o rosto desfigurado e amarelado, os olhos vidrados e sem expressão, o cabelo liso preto escorrido sobre a testa.”

O público estava em êxtase, mas o italiano foi desqualificado por “utilização ilícita de ajuda estranha”. Pietri defendeu-se, negando ter pedido ajuda. No dia seguinte, a rainha Alexandra entregou-lhe um cálice em ouro, em reconhecimento do seu esforço.

Pietri Dorando recebe um cálice em ouro das mãos da rainha Alexandra

Pietri Dorando recebe um cálice em ouro das mãos da rainha Alexandra

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Nos Jogos de Londres encontra-se o porquê de, ainda hoje, a maratona ter, oficialmente, 42 quilómetros e 195 metros de distância. A pedido da rainha Alexandra, o tiro de partida foi dado por baixo das janelas do berçário do Castelo de Windsor, para que os netos pudessem assistir. Dali até à meta eram 42.195 km, distância que, 16 anos depois, seria formalizada pela Associação Internacional de Federações de Atletismo.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época