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“Dias” da vergonha

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Myer Prinstein, vencedor do triplo salto em Paris e St. Louis

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Oito anos após ser recuperada a tradição dos Jogos Olímpicos, a organização do evento debatia-se com dúvidas em relação ao seu real objetivo. Muitos erros tinham acontecido na edição em Paris, o pior dos quais tinha sido a inclusão dos Jogos numa exposição de cariz comercial.

Desde o Congresso na Sorbonne (1894) que estava sobre a mesa a possibilidade de os Jogos irem até aos Estados Unidos. Coubertin era um admirador confesso do “Novo Mundo” e, 35 anos após o fim da guerra civil (1861-1865), o país vivia uma época de otimismo. Tornara-se uma potência industrial e várias cidades abriam as portas aos Jogos.

Com mais de um milhão de habitantes, Chicago estava no coração do desenvolvimento industrial e prometia um patrocínio de 200.000 dólares dos comerciantes locais. Outra possibilidade era St. Louis, que iria acolher uma exposição comemorativa dos 100 anos da compra do território da Louisiana à França de Napoleão, em 1803, por 50 milhões de francos e um perdão de dívida no valor de 18 milhões de francos.

À espera do tiro de partida para a prova das 100 jardas, em natação

À espera do tiro de partida para a prova das 100 jardas, em natação

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Em 1902, durante uma reunião do Comité Olímpico Internacional (COI) em Paris, Coubertin considerou ambas as opções pouco atrativas. Inclinava-se para St. Louis como a menos má e a votação do Comité foi no mesmo sentido.

Pelo segundo ano, os Jogos seriam um complemento de um evento comercial, perdidos num longo calendário de atividades que se prolongou de 1 de julho a 23 de novembro, para desencanto do seu criador.

Nas medalhas entregues aos vencedores lia-se numa das faces “Universal Exhibition” (Exposição Universal) e na outra “Olympiad” (Olimpíada). À semelhança de Paris, passaram despercebidos e sem brilho.

O norte-americano Frederick Winters, segundo classificado no concurso de halteres

O norte-americano Frederick Winters, segundo classificado no concurso de halteres

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Associado aos Jogos, um evento designado “Dias Antropológicos” contribuiu para que a edição de St. Louis ficasse na história como “os Jogos da vergonha”.

Destinados a “não brancos”, organizados pelo departamento etnográfico da Exposição e impulsionados por James E. Sullivan, que chefiava a União Atlética Amadora e também o Departamento de Cultura Física dos EUA, os “Dias” eram um conjunto de competições destinadas aos chamados “povos primitivos”. Estes estavam em exibição numa espécie de “zoo humano”, lado a lado com mostras industriais e curiosidades — o maior órgão do mundo, a cabana de infância de Abraham Lincoln ou alimentos novos, como algodão doce, manteiga de amendoim e cones de waffle.

Nos “Dias Antropológicos”, participaram índios americanos, cucapás mexicanos, moros filipinos, ainus japoneses, pigmeus africanos, pigmeus, turcos e patagónios. A iniciativa tinha um objetivo “científico”: medir a aptidão física dos “selvagens” em comparação com “homens civilizados”.

Pierre de Coubertin não marcou presença no evento, mas não ficou indiferente a esta demonstração de racismo e discriminação. “Essa farsa ultrajante vai perder apelo quando os homens negros, vermelhos e amarelos aprenderem a correr, saltar e lançar, e deixarem os homens brancos atrás deles”, diria.

Um grupo de homens aprecia as aptidões de um arqueiro ainu, em St. Louis

Um grupo de homens aprecia as aptidões de um arqueiro ainu, em St. Louis

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Nos Jogos Olímpicos de St. Louis, participaram 12 nações, mas o elevado preço da viagem até à América fez com que o número de participantes (657) caísse significativamente por comparação aos Jogos de Paris (997). Poucos europeus puderam custear a viagem: só cerca de 60 atletas não eram dos EUA ou do Canadá.

Os americanos, que envergavam uniformes dos seus clubes e não do país, ganhariam 80 das 99 medalhas de ouro. Um deles era Thomas Hicks, vencedor da maratona de uma forma um tanto ou quanto bizarra… Durante a prova, ele sentiu-se afetado pelo calor intenso, pelo pó do percurso em terra e pelo fumo dos automóveis — uma invenção recente — usados por juízes e amigos dos atletas que acompanhavam a prova.

Quando começou a acusar fadiga, foi-lhe dada uma poção revigorante que o treinador explicaria da seguinte forma: “Dez milhas antes da meta, Thomas Hicks apresentava sinais de colapso… Nesse momento vi-me obrigado a dar-lhe a milésima parte de um grão de sulfato de estricnina com clara de ovo”. O atleta seguiu em prova com esforço, quase sem conseguir levantar os pés do chão e afetado por alucinações. Chegou à meta a cambalear.

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