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“Acredito que podemos ganhar seis medalhas”

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João Lima

Entrevista a Nuno Delgado, medalha de bronze em Sydney-2000

É a maior referência do judo nacional e já viveu os dois lados da experiência olímpica enquanto atleta e chefe adjunto de missão. Desta vez está nos Jogos do Rio como chefe da equipa técnica da Federação Portuguesa de Judo e considera que a modalidade tem condições e qualidade para igualar os resultados de Sydney. Confiante na onda de sucesso que Portugal tem vindo a atravessar, diz que com o apoio de todos, a começar pelo Presidente da República, e com a vantagem da lusofonia no Brasil, os atletas portugueses podem trazer mais do que uma mão-cheia de medalhas, assim os astros estejam todos no sítio certo.

O que sente um atleta quando acaba de ganhar uma medalha?
Há um flashback. Recordas-te num instante de todos os momentos que te fizeram chegar ali, de todas as pessoas que te ajudaram a estar ali, de todas as coisas boas e más, que são algumas com que se tem de viver para chegar a um patamar destes.

O que é mais duro na preparação de um atleta para os JO?
O dia a dia é muito duro. Tem de se ter disciplina, tem de se treinar sempre, todos os dias, mesmo quando não se gosta. É aí que os mais fortes ganham. No dia em que as coisas nos estão a correr mal, em que não estamos no melhor momento, em que se calhar há outros fatores da nossa vida que estão a desfocar-nos do treino, se desistirmos aí... E isso é muito difícil, essa rotina do treino não é agradável.

Quando acabam os JO não fica uma sensação de vazio?
Senti isso em Atenas, onde não consegui ganhar uma medalha. Em Sydney a festa começou a seguir.

Quando teve noção da real dimensão do seu feito?
Só quando cheguei. Mal aterrei, ainda no aeroporto, veio uma assistente do programa do Herman José ter comigo para eu entrar em direto. Nesse dia quando saí do programa toda a gente me conhecia e até aí eu era um ilustre desconhecido. Havia gente que se ajoelhava e fazia uma vénia como se eu fosse um deus. Aquilo era um bocadinho assustador. Nos primeiros dias não conseguia fazer nada sem que as pessoas estivessem a olhar, parecia que estava num “Big Brother”. Senti até um bocadinho de conflito de personalidade porque estava sempre em exposição e, como sou muito dado às pessoas, elas vinham ter comigo e eu sentia necessidade de lhes dar atenção.

Não gostou da exposição mediática?
Foi difícil. Para quem não é do futebol e desse universo das celebridades, é um bocadinho difícil de assimilar. Depois ainda fui para Cabo Verde fazer um programa e quando chegámos ao aeroporto tinha a cidade inteira à minha espera. Camiões de carga cheios de pessoas lá dentro. Indescritível. Fui recebido como se fosse o herói da nação. Assim de repente foram uma data de experiências para as quais não estava preparado.

Em Atenas viveu o reverso da medalha. Num dia é-se o herói, no outro, o vilão. Como é que se lida com isso?
Faz parte do jogo e temos de estar preparados para isso. Nessas alturas é que se sabe quem são as pessoas que gostam realmente de nós e em quem podemos confiar. E assim foi; foi duro mas senti-me preenchido por um lado, porque não desisti. Hoje posso dizer às minhas filhas que não desisti. Não quero que elas desistam, só perdemos quando desistimos. Tenho muito orgulho desse momento. É óbvio que ficava muito mais contente se fosse campeão olímpico, mas se calhar não tinha criado a escola de judo Nuno Delgado e não era a pessoa que sou hoje. Temos sempre que tentar aproveitar o melhor que a vida nos dá e aquilo que a vida me deu foi aquela derrota. Sinto-me abençoado porque em Sydney não sabia nada e cheguei ao topo, e em Atenas, que sabia tudo, fiquei na praia.

Como foi ser o chefe adjunto de missão nos JO de Londres-2012?
Foi a tarefa que mais prazer e mais orgulho me deu. É a participação olímpica que guardo com mais carinho, e quando eu digo isto as pessoas ficam chocadas, mas é verdade, senti-me mesmo a representar o meu país. A Missão Olímpica é mesmo uma missão. Nós estamos ali numa tarefa diplomática, a representar Portugal ao mais alto nível e foi aí que vi o que é que são os JO. Não é uma mera competição, aquilo é uma montra mundial das marcas de cada nação e por isso é que é tão importante ganhar medalhas olímpicas. Quem ganha mais medalhas tem mais visibilidade. É por essa razão que os EUA, a Rússia, a Espanha, a China apostam tão forte em ganhar medalhas. Acho que Portugal ainda não percebeu bem isso. Embora, parece que agora para o Rio de Janeiro já se está a começar entrar na coisa.

Como explica que, desde Sydney, nunca mais houve um judoca a subir ao pódio olímpico?
Atualmente, tecnicamente o judo tem muita qualidade. Temos técnicos nacionais de top mundial, mas fora do tapete há muita coisa para fazer. Nomeadamente ao nível mais básico da imagem. Aquilo que eu fiz com a minha escola de judo e que a Telma consegue fazer no Benfica, a Federação Portuguesa de Judo (FPJ) não consegue fazer. A FPJ não tem visibilidade, não tem patrocínios, não tem uma capacidade de marketing à altura daquilo que já vale.

Não tem por falta de dinheiro ou de vontade?
De ambos. Isto é uma pescadinha de rabo na boca. Quando eu comecei com a escola de judo investi dinheiro do meu bolso, e muito dinheiro em comunicação, mais tarde recolhi esses frutos. Na federação não conseguimos ter ainda essa cultura. Neste momento temos um estagiário a trabalhar na comunicação. Por aí se vê o valor que essa área tem para nós.

Ao nível da política nacional, em termos desportivos, também não tem havido grandes investimentos…
É verdade. Dou outro exemplo. O Centro de Alto Rendimento do Jamor não tem previsto para os próximos 10 anos nenhum equipamento desportivo para o judo. Nós treinamos numa sala que é uma cave, que tem pilares, que não tem janelas, que tem o ar condensado do parque de estacionamento para dentro da sala. Esta sala foi construída temporariamente em 2001, fruto da medalha olímpica. Estamos em 2016 e ninguém teve o cuidado de prever que o judo precisava de ter um centro de treino. Mas acima de tudo o que eu acho que não está a funcionar, é o backoffice. Os atletas, os clubes, os treinadores dão cada vez mais, temos que trabalhar mais a nível do backoffice.

Aspira chegar a um cargo federativo mais alto?
Sinceramente o que aspiro é a dedicar-me à minha escola. Só que a minha escola vive no universo do judo e o judo é o meu património de vida. Gostava que houvesse outras pessoas que estivessem orientadas em exclusivo para a federação, mas se não houver e se puder ajudar, eu e outros colegas estamos aqui para isso.

A Telma foi uma desilusão em 2012. Neste momento é a maior esperança do judo nacional e está a ter um tratamento personalizado (levou o seu técnico para o Rio). Isso não criou desconforto nos outros atletas?
Não. Obviamente todos os processos têm as suas críticas, nunca está toda a gente contente, mas a verdade é esta, a Telma é inquestionavelmente uma atleta com um valor acima da média e em Portugal há poucos. Dos 93 atletas que estão qualificados, contam-se pelos dedos os que têm um currículo como o da Telma. Temos de ser objetivos. Colocar os recursos onde eles são mais eficientes e não é possível tratar todas as pessoas da igual forma. E eles, os atletas, aceitam isso. Só quero é que eles sejam todos iguais à Telma em termos de resultados. No dia em que isso acontecer é uma grande felicidade para o judo. E nessa altura vamos ter que ter um treinador individual para cada um deles.

Mas existem condições para, no Rio de Janeiro, termos melhores resultados do que em Sydney?
Acredito convictamente nisso.

Além da Telma quem são os outros potenciais finalistas?
Acredito que a nossa obrigação é ter uma medalha olímpica, um diploma olímpico. No mínimo igualar Sydney e claramente a Telma é a pessoa que tem mais condições de ganhar uma medalha olímpica. Qualquer um dos outros cinco tem à sua maneira, capacidade para atingir o patamar do diploma olímpico que é uma referência importante.

Mas algum deles pode ir mais longe?
Qualquer um dos outros cinco neste momento, para mim, está em igualdade de circunstâncias. A Joana Ramos é uma atleta com muita experiência, tem 34 anos, já ultrapassou digamos assim, o prazo de validade, mas está numa forma muito boa. O Célio Dias é talvez o atleta mais talentoso que temos no grupo dos mais jovens. Conheço-o muito bem, fui treinador de escalões de formação dele e na altura fiz tudo por tudo para que ele fosse aos Jogos Olímpicos da Juventude. Sabia que um dia iria estar nuns JO. O Jorge Fonseca é uma força da natureza. É o atleta em quem talvez eu acredite mais, por todas as circunstâncias. Mas tem um grande handicap: é muito jovem e esteve seis meses fora da competição por motivos de doença.

O facto destes JO serem falados em português pode ajudar-nos?
Acho que isso é um fator determinante.

De que forma?
Em primeiro lugar, temos uma comunidade de portugueses no Rio de Janeiro brutal. Ainda por cima com este crescendo todo, dos portugueses ganharem tudo, eles vão estar ao rubro. O brasileiro vai estar a torcer pelo Brasil, mas nunca se vai esquecer de Portugal. O judo é a modalidade número um em termos de medalhas para o Brasil. Nós temos um vínculo e laços muito fortes com a federação brasileira. Eles têm-nos ajudado imenso nas condições que vamos poder oferecer aos atletas no Rio. A lusofonia é uma força que Portugal tem, porque apesar de tudo a lusofonia é Portugal. Brasil, Angola, Moçambique são países que têm mais força económica, têm uma população maior que a nossa, mas o português é nosso. E o português tem estes contactos todos por causa da lusofonia, temos todos os países de expressão portuguesa, temos os emigrantes... é um elefante adormecido.

Estão reunidas todas as condições para que tudo corra bem?
Temos uma coisa que é importante dizer aqui. O responsável máximo do país, o Presidente da República, está totalmente identificado com os princípios dos Jogos Olímpicos e é uma pessoa que conhece a linguagem do desporto. Marcelo Rebelo de Sousa vai ser, sem dúvida nenhuma, um verdadeiro líder da missão olímpica. E isso parecendo que não, pelo menos da experiência que eu tive até hoje, é muito importante. Quando estamos a competir todo o apoio é fundamental. Nós somos pequeninos, Portugal é pequenino. Os EUA vão lá para ganhar cento e tal medalhas, nós nunca ganhámos mais do que três. Por muito bons que sejamos. Temos quatro campeões olímpicos. Há pessoas que só numa prova ganham quatro medalhas de ouro. Temos de assumir um bocadinho o nosso lugar.

Espera mais medalhas além do judo?
Há muitos anos que andamos à espera de mais medalhas no panorama olímpico e eu acredito que vai ser no Rio de Janeiro. Acredito que pode haver uma medalha no futebol, na canoagem, no atletismo, no judo, no ciclismo, acredito que eventualmente podemos ter uma medalha no taekwondo e no ténis de mesa. Se os astros estiverem todos no sítio certo, se Portugal se mobilizar para os JO positivamente e não começar a vacilar na primeira derrota, acredito que podemos ganhar seis medalhas.

Mas a sorte também é importante...
A sorte vai-se construindo. A sorte é aquela fé. E se a gente tiver essa fé... eu acredito em seis medalhas.