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Os Jogos do orgulho grego

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Corrida de 100 metros, nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 1896

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

A revitalização dos Jogos Olímpicos, em finais do século XIX, teve na sua origem uma tradição e um sonho. A tradição remontava à era anterior a Cristo quando, na Grécia Antiga, tinham lugar os jogos pan-helénicos como forma de devoção aos deuses.

Os atletas competiam para honrar as suas divindades e, enquanto treinavam, asseguravam uma boa forma física para combater nas guerras. Durante as provas, os deuses mostravam as suas preferências “escolhendo” o vencedor.

Quatro festivais realizavam-se em quatro santuários distintos segundo um ciclo de quatro anos. Os Jogos Ístmicos tinham lugar no Istmo de Corinto, em honra de Posídon, o deus do mar. Em Delfos, no santuário de Apolo, deus da beleza, organizavam-se os Jogos Píticos. E, na cidade de Nemeia, os Jogos Nemeus honravam Zeus, o deus dos deuses.

Os mais importantes aconteciam em Olímpia — daí Olímpicos —, igualmente em honra de Zeus. Eram os mais antigos de todos, com origem no ano 776 a.C..

Pierre de Coubertin, o “pai” dos Jogos

Pierre de Coubertin, o “pai” dos Jogos

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Quanto ao sonho, nasceu com Pierre de Coubertin, um pedagogo parisiense nascido a 1 de janeiro de 1863, no seio de uma família aristocrata. Após uma curta passagem pela academia militar, dedicou-se a um estudo eclético que incidiu nas ciências históricas, filosóficas e políticas. Revelou especial apetência pelas questões da pedagogia.

Fascinado com o valor atribuído às atividades desportivas no mundo anglo-saxónico, Coubertin era um defensor convicto do papel modelador do treino e da competição na formação do caráter do indivíduo. Para ele, um “ensino da juventude do mundo”, apoiado na realização periódica de competições desportivas, daria um importante contributo para a compreensão entre os povos da Terra e para o estabelecimento de uma paz duradoura.

Herman Weingaertner, ginasta alemão, na barra fixa

Herman Weingaertner, ginasta alemão, na barra fixa

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No último quartel do século XIX, as escavações nas ruínas da antiga Olímpia, postas a céu aberto pelo arqueólogo alemão Ernst Curtius, tinham sido acompanhadas com entusiasmo. A expedição durou seis anos (1875-1881) e foi financiada pelo Governo alemão.

Entre os achados, estava o estádio onde, entre 776 a.C. e 393 d.C., tinham decorrido os Jogos antes de serem abolidos pelo imperador romano Teodósio I, que os considerava festas pagãs.

A descoberta das ruínas de Olímpia praticamente coincidiu no tempo com um congresso internacional na Universidade Sorbonne (Paris), a 23 de junho de 1894, dedicado ao “estudo e propagação do exercício amador”. Nesse encontro, Pierre de Coubertin propôs a revitalização dos Jogos à escala internacional.

Wenlock, de inspiração a mascote

Pouco conhecido neste processo foi o papel que Wenlock, uma pequena cidade inglesa, teve na consolidação das ideias de Coubertin. A partir de 1850, por iniciativa do médico local, o Dr. William Penny Brookes, a cidade passou a realizar, anualmente — e até aos dias de hoje —, os Jogos Olímpicos de Wenlock. Visavam “promover o desenvolvimento moral, físico e intelectual dos seus habitantes e da vizinhança, e especialmente da classe trabalhadora, através do incentivo à prática de atividades ao ar livre e da atribuição de um prémio”.

Pierre de Coubertin visitou Wenlock em 1890, testemunhando o evento e o envolvimento dos munícipes. Wenlock viria a ser o nome de uma das mascotes dos Jogos de Londres de 2012.

Participante na prova do lançamento do peso

Participante na prova do lançamento do peso

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No Congresso na Sorbonne, ficou determinado que os primeiros Jogos da era moderna teriam lugar em Atenas. Por essa razão, o presidente do recém-criado Comité Internacional dos Jogos Olímpicos (COI) seria o grego Dimitrios Vikelas. Na obra “The Official History of the Olympic Games and the IOC” (2012), o autor David Miller diz que segundo as atas do Congresso a maioria dos delegados preferia que os Jogos se realizassem em Londres e depois Paris. Coubertin defendeu Atenas, mas havia que garantir o apoio das autoridades nacionais.

Em finais do século XIX, a Grécia vivia uma situação económica ruinosa. Quando o Governo do primeiro-ministro Charilaos Trikoupis assumiu que não havia dinheiro para financiar o evento, o príncipe herdeiro Constantino chegou-se à frente e, após apelar ao coração do povo, liderou uma campanha de angariação de fundos.

O dinheiro apareceu por via de donativos privados (332.756 dracmas), da venda de selos (400.000 dracmas), de bilhetes e medalhas comemorativas (200.000 dracmas), de um subsídio governamental (400.000 dracmas) e de uma doação de um empresário e benfeitor grego, Giorgios Averoff, que vivia em Alexandria (920.000 dracmas). Ainda hoje, uma estátua em mármore do generoso grego, inaugurada por altura dos Jogos, ergue-se junto à entrada do Estádio Panatenaico.

Entrada do Estádio Panatenaico. Ao centro, a estátua em memória de Giorgios Averoff

Entrada do Estádio Panatenaico. Ao centro, a estátua em memória de Giorgios Averoff

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Os Jogos de Atenas foram um palco de afirmação do orgulho nacional grego. Não por acaso, a cerimónia de abertura realizou-se a 6 de abril de 1896, dia de aniversário da declaração da Guerra da Independência Grega (1821-1832) contra o Império Otomano.

No estádio, a grande estrela foi Spiridon Louis, um pastor grego de 23 anos, que venceu a prova da maratona com uns sapatos oferecidos pelos habitantes de Marusi, a sua aldeia natal. Descendente de combatentes da Guerra da Independência, ele parecia “reencarnar” a proeza do soldado ateniense Filípides que, em 490 a.C., correu sem parar mais de 40 quilómetros entre Maratona e Atenas para anunciar a vitória dos gregos sobre os persas: “Alegrai-vos, vencemos”, disse, para logo de seguida sucumbir ao esforço.

Quase 2500 anos depois, a prova era incluída no programa dos Jogos em memória dessa lendária corrida. À entrada no Estádio Panatenaico, Spiridon tinha à sua espera 70 mil compatriotas em delírio. “Mulheres retiraram as suas joias e atiraram-nas para os seus pés. Uma banda seguiu-o dentro do estádio. E os dois príncipes herdeiros, Constantino e Jorge, correram lado a lado com ele, até à linha da meta”, lê-se em “The Official History of the Olympic Games and the IOC”.

“Parecia que toda a Antiguidade Grega tinha entrado com ele naquele estádio”, recordaria Pierre de Coubertin. “Este foi um dos espetáculos mais extraordinários que guardei na memória.” Quando o francês morreu, em 1937, o seu coração foi depositado numa urna de bronze que se encontra num monumento em Olímpia.

Spiridon Louis, o grego que venceu a maratona

Spiridon Louis, o grego que venceu a maratona

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Nos I Jogos da era moderna, que duraram dez dias, participaram 241 atletas de 14 países — todos amadores, todos homens. Em Atenas, não havia lugar para as mulheres, o que deu azo a uma forma de protesto original. No dia seguinte à maratona, a grega Stamata Revithi correu o mesmo percurso para demonstrar que as mulheres também eram capazes de o fazer.

Antes da corrida, pelas oito da manhã, ela conseguiu que um professor, um autarca e um magistrado assinassem uma declaração atestando o local da partida. Cinco horas e meia depois, foi impedida de entrar no estádio para cortar a meta por militares a quem pediu que assinassem o mesmo documento para certificar a hora de chegada.

Meter férias no trabalho para competir nos Jogos

Alguns atletas pagaram do seu bolso as despesas de participação, ao estilo de turistas em busca de uma nova experiência. O norte-americano James Connolly, estudante na Universidade de Harvard, viajou 40 dias de navio até à Europa. Pedira licença para se ausentar, mas a universidade negou. Connolly ignorou, foi para Atenas e venceu o triplo salto.

O australiano Edwin Flack, que trabalhava como guarda-livros em Inglaterra, pediu um mês de férias para ir até à Grécia. Ganharia os 800 e os 1500 metros.

Um vencedor acidental foi John Pius Boland, um político nacionalista irlandês, membro do Parlamento do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, que estava de visita a um amigo membro do comité organizador. Entusiasta do ténis, Boland entrou no torneio e venceu as provas de singulares e de pares.

Quando a organização fez desfilar a bandeira da União para o homenagear, ele apontou para o homem que a transportava e disse que era irlandês: “É aquela [bandeira] com uma harpa dourada num fundo verde. Assim o esperamos”.