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O irónico atirador dos olhos tristes

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João Costa inicia este sábado a participação olímpica na pistola de ar comprimido a 10 metros. Se chegar à final, a intensidade das luzes - uma novidade nos Jogos Olímpicos do Rio - pode atrapalhar o tiro certeiro

- É supersticioso?
- Não.

- E crente?
- Não.

- Não leva nenhum objeto especial ou um amuleto para os Jogos?
- Não. Nem peluches levo na mochila. Só eu.

Olhando para a cara séria com olhos tristes que João Costa mostra do alto do seu 1,82m e mais de 100kg de peso, ninguém diria que tem um afinado sentido de humor, irónico, por vezes sarcástico. “Se temos condições para trazer mais medalhas do que em Jogos anteriores? É uma boa pergunta para colocar ao chefe de missão e ao presidente do Comité Olímpico”, diz, sem mais palavras.

Com a experiência de quatro olimpíadas e 51 anos de vida, o sargento-ajudante da Força Aérea que este sábado começa a disparar nos Jogos do Rio de Janeiro é o atleta mais velho da comitiva portuguesa.

Como os restantes, carrega o sonho de uma medalha até agora nunca conquistada, apesar do vasto palmarés. “Eu já estive em muitos pódios, em Portugal e no estrangeiro, e para mim são muito especiais os campeonatos nacionais, porque tenho 63 títulos, o que é um recorde individual”, desvia quando questionado sobre o tão almejado pódio.

Com dezenas de medalhas em taças do mundo e europeus, destaca-se a nível internacional o terceiro lugar de pistola livre a 50m no Campeonato da Europa e o primeiro lugar na Taça do Mundo na mesma competição. Nos Jogos, na estreia em Sydney 2000, obteve o 7º lugar na pistola de ar comprimido a 10m e o 27.º na livre a 50m. Quatro anos depois, em Atenas, piorou nos 10m (17.º), mas melhorou nos 50m (12.º). Na altura em que era o líder do ranking mundial de pistola livre (2008), curiosamente teve os piores resultados nos Jogos, em Pequim, não indo além de um 32º lugar na pistola 50m e do 17º nos 10m. Em Londres 2012, igualou nos 10m o 7º posto registado na Austrália e alcançou o 9º lugar nos 50m.

Chega ao Rio no top 20 (18º) do ranking mundial de pistola 50m, a sua prova favorita. Mas a confirmação da presença olímpica surgiu na Taça do Mundo de Fort Benning, nos EUA, disputada em maio de 2015, ao conquistar o bronze na prova de pistola de ar comprimido a 10m. Ainda no ano passado foi prata em pistola de ar comprimido a 10m na primeira edição dos Jogos Europeus, no Azerbaijão.

O barulho das luzes

Não sendo uma modalidade muito atraente para os espectadores, os organizadores das provas procuram constantemente arranjar formas de atrair e entreter o público. Mas se a adaptação a novas armas e alvos já quase faz parte da rotina de uma atirador, há duas novidades que estão a deixar os atletas mais preocupados. A música e a luz. “Este ano começaram a incluir música ambiente variada nas grandes finais. Dizem que é para o público não se enfadar de estar a olhar para nós ali especados de braço no ar”, conta João Costa. Confessa que a música não o incomoda muito “desde que não seja muito conhecida, porque senão corre-se o risco de ir atrás do ritmo”. Para evitar surpresas, passou a levar o iPod para os treinos e ouve de tudo um pouco. Mas pior que a música são os novos alvos luminosos e a luz da sala. “Nas grandes finais, agora quem manda é a televisão. Como eles filmam em 4K, utilizam uma frequência de cor muito elevada. Nós nunca disparamos com aquele tipo de luz e os que lá forem (à final) vão ter algumas dificuldades.”

Tirando estes dois fatores, o maior adversários dos atiradores é a pressão psicológica. Desde que levantam o braço até ao disparo passam entre 9 e 15 segundos em que a preocupação é sobretudo controlar a respiração para ficar que nem estátua, sem ponta de tremor. A um nível tão elevado, onde todos estão bem treinados, “70% a 75% do resultado vem do fator psicológico, garantidamente”. Bem como da sorte: “Conta muito”.

Já sobre as tão badaladas condições, ou falta delas, no Brasil para a realização destes Jogos, o atirador português volta a puxar do seu peculiar sentido de humor: “O zika? Ele que tenha medo de nós porque damos cabo dele. Além disso, está lá a equipa médica para cuidar de nós. Insegurança? Nem vou comentar, já há muita opinião sobre isso e não vale a pena pôr mais lenha na fogueira”.

Um hobby até ser veterano

Autodidata, João Costa não tem treinador e na maior parte do ano treina sozinho na cave de sua casa, onde construiu uma carreira de tiro de 10m.

Para vingar na modalidade, explica que é preciso ter-se condições natas como “a capacidade de estar ali paradinho”, não tremer muito e ser persistente. Descobriu por volta dos 25 anos que não só tinha essas capacidades como também muita pontaria. E com a particularidade de disparar com ambos os olhos abertos.

Daí para cá, a paixão pelo hobby do tiro tornou-se num longo namoro que tem tudo para durar muitos mais anos. Até porque a experiência no tiro “ajuda muito”. O sueco Oscar Swahn tinha 72 anos quando, em 1920, em Antuérpia, conquistou a medalha de prata na prova de equipas do tiro com armas de caça.

João Costa começou por se inscrever na secção de tiro da Naval 1º de Maio, clube que representou durante mais de 20 anos, e em 2013 tornou-se atleta do Sporting.

Confessa que gostava de viver só do tiro mas que é impossível sonhar com isso e nem sequer se imagina como treinador no futuro, uma vez que há pouquíssimas carreiras de tiro em Portugal para treinar.

Para se preparar para os Jogos, passou a treinar nos últimos meses quatro a cinco horas por dia. “É importante não treinar demasiado, porque cansa”, argumenta, para salientar que em competição cada atleta faz 60 disparos (a pontuação máxima de cada disparo é de 10 pontos) em mais ou menos uma hora e meia e que o objetivo é fazer 600 pontos. “Nunca ninguém fez. O recorde do mundo dos 50m está em 583 pontos e o nacional é de 572”, pelo que cada milímetro, mais perto ou afastado do centro do alvo, conta.

Suba ou não ao pódio olímpico, promete que vai continuar a praticar a modalidade, “pelo menos enquanto tiver prazer nisso”, pelo que daqui a quatro anos conta estar em Tóquio a lutar novamente pelas medalhas olímpicas. E sem superstições ou ursos de peluche.