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Ela é a melhor ginasta de todos os tempos (não, não é Nadia Comaneci)

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Não se preocupe, Simone Biles está habituada a ver a vida de pernas para o ar

Maddie Meyer/Getty

Chama-se Simone Biles e (ainda) não tem o mediatismo de Michael Phelps ou Serena Williams, mas é a atleta norte-americana do momento. Com 19 anos, domina o mundo da ginástica e até Nadia Comaneci diz que nunca viu nada assim. Só lhe falta mesmo ganhar nos Jogos Olímpicos

Se lhe pedirem para não pensar numa laranja, o mais provável será pensar numa laranja, porque o cérebro constrói uma imagem mental tão rápida que é impossível travá-lo. É mais ou menos o que acontece se lhe pedirem para não pensar em ginástica. Por muito que se tente contrariá-lo, o cérebro vai fazer a associação seguinte mais depressa do que ela fazia um duplo mortal no solo: Nadia Comaneci.

Já lá vão 40 anos, mas ninguém esquece o nome da pequena ginasta romena que, nos Jogos Olímpicos de 1976, conseguiu a primeira prestação perfeita da modalidade, premiada com nota 10. Ou, na verdade, com nota 1.00, já que nem o quadro eletrónico de então estava preparado para mostrar o inédito 10.00 atribuído à prestação da atleta de apenas 14 anos.

Se Comaneci, que conquistou nove medalhas olímpicas, sempre foi a atleta mais marcante da ginástica artística - "ela é perfeita", titulou naquela altura a revista "Time" -, hoje já há uma sucessora digna do título de melhor ginasta da história, apesar de ainda nem sequer ter participado nos Jogos Olímpicos.

É uma consideração prematura? A ex-atleta norte-americana Mary Lou Retton - outra das poucas que conseguiram o tal dez perfeito, no Jogos de 1984 - acha que não: "Ela é sem dúvida alguma a ginasta com mais talento que já vi e creio que ainda só mostrou uma parte do que pode conseguir. É imbatível".

Ela é Simone Biles, uma adolescente de 19 anos que ganhou os últimos três campeonatos mundiais - um feito tão inédito quanto impressionante, pelos novos padrões de dificuldade de execução que impôs. Como com o "Biles", um movimento criado pela jovem ginasta - daí o batismo com o nome dela - que implica dois mortais à retaguarda, seguidos de uma meia volta, sempre com o corpo completamente esticado - e isto tudo no solo.

Difícil? Claro que não, diz ela, ainda que mais ninguém se arrisque a fazê-lo. "Até é bastante fácil", diz a jovem norte-americana de sorriso fácil, que fez a delícia das redes sociais em 2014 quando se assustou com uma abelha no pódio.

Simone Biles é uma "games changer" - trocadilho da capa da "Time" esta semana -, que não tem adversárias à altura, além dela própria. É que, desde 2006, quando o 'dez perfeito' desapareceu, o sistema de pontuação passou a ser dividido entre a execução, que continua a valer dez, e a dificuldade, que não tem limite máximo. Ou seja, a pontuação final é uma soma destas duas notas, o que quer dizer que quando mais difícil for a rotina apresentada, mais pontos haverá em jogo.

É por isso que a única adversária capaz de derrubar Simone Biles é Simone Biles. "Sinto que é mais difícil, porque todos sabem que fui campeã mundial três vezes e é quase como se estivessem à espera que alguma coisa má aconteça" - explicou à "Time" - "isso enerva-me".

Ninguém diria, olhando para a descontração de Biles antes e durante as provas, que até assusta quem trabalha com a atleta. "Ela disse-me, tipo, para me acalmar um bocado, mas acho que ainda não sabia que é assim que entro na minha 'zona'", explicou Biles, referindo-se a Marta Karolyi, coordenadora da equipa de ginastas dos EUA - e mulher de Bela Karolyi, que foi treinador de... Nadia Comaneci.

"Acho que ninguém vai conseguir superá-la, porque ela é mesmo muito, muito, muito boa", disse a ex-ginasta romena sobre Biles. "Ela faz alguns dos movimentos mais difíceis que já vimos, inclusivamente coisas que nem homens conseguem fazer", acrescentou, lamentando que a Roménia não se tenha qualificado para os Jogos brasileiros. "O mundo da ginástica agora é dominado pelos EUA, se bem que os quatro poderes são sempre EUA, China, Roménia e Rússia. Nos EUA há quatro milhões de miúdos a fazer ginástica. Na Roménia temos 500", lamentou.

Assim até parece alta e espadaúda, mas esta jovem norte-americana só tem 1,45 metros e 47 kg

Assim até parece alta e espadaúda, mas esta jovem norte-americana só tem 1,45 metros e 47 kg

Maddie Meyer/Getty

Simone Biles começou a fazer parte desses quatro milhões aos oito anos, quando a treinadora Aimee Boorman a viu num ginásio, por acaso, e achou que aquela rapariga tinha jeito. Só que Simone demorou a saber controlar-se emocionalmente. No primeiro torneio sénior, depois de trapalhada atrás de trapalhada, a treinadora decidiu retirá-la de prova.

O passo seguinte foi arranjar um psicólogo desportivo, algo que foi tratado por Nellie, mãe e avó de Biles. É que a mãe biológica de Simone, entre problemas com drogas e álcool, entregou-a ao cuidado do estado, e foi aí que apareceram os avós a adotar a menina de 5 anos e a irmã Adria, de 3 anos.

"Enquanto crescia, imaginei o que poderia ter sido a minha vida se nada disto tivesse acontecido", contou Simone, que hoje em dia mantém contacto com a mãe biológica. "Às vezes, quando me perco em pensamentos sobre isso, questiono-me se ela se sente mal e deseja ter feito as coisas de outra forma. Mas não me cabe a mim estar a refletir sobre isso. Não sou eu que tenho de responder a isso".

O que a jovem do Texas - já patrocinada por Nike, Hershey's, Coca-Cola, Kellogg's e United Airlines - tem é de cumprir as (enormes) expetativas que gerou antes dos Jogos, por tudo o que tem estado a ganhar - já lá vão 14 medalhas em competições nacionais e mundiais. "Até me sinto mal a dizer isto, mas a verdade é que se ela não ganhar cinco medalhas de ouro vai ser uma desilusão", disse Paul Ziert, da revista especializada "International Gymnast". Neste domingo (13h40, SportTV2), começa a lutar pela primeira.