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Competir aos domingos não é para cristãos

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Prova de tração à corda, nos Jogos de Paris, 1900

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

Jornalista

Se os primeiros Jogos Olímpicos decorreram na Grécia por uma questão simbólica, na lista das probabilidades a França era a mais forte candidata a receber a segunda edição. Era a pátria de Pierre de Coubertin. E assim foi.

Mas o sonho logo se transformou num pesadelo, com uma organização deficiente a contribuir para que estes Jogos ficassem na história como “os piores de sempre”.

As provas desportivas não tiveram uma realização autónoma e foram inseridas no programa da Exposição Universal de Paris, destinada a apresentar ao mundo as conquistas do progresso.

Prolongaram-se durante cinco meses, de 14 de maio a 28 de outubro, e — entre elas o tiro aos pombos — foram relegadas para segundo plano, captando pouco interesse dos órgãos de informação e do público. Inaugurada em 1889, a Torre Eiffel mereceu mais atenção dos parisienses e dos quase 50 milhões de visitantes da Exposição.

Competição de mergulhos para a água, em Paris

Competição de mergulhos para a água, em Paris

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Sem cerimónia de abertura e de encerramento, os participantes quase não sentiram o espírito olímpico. Alguns deles, sobretudo norte-americanos e ingleses, não concordavam com provas ao domingo e recusaram-se a competir, invocando a obrigação religiosa de cumprir o descanso dominical.

Foi o caso de Robert Garrett, da Universidade de Princeton (EUA), um dos herois dos Jogos de Atenas, quatro anos antes, onde venceu os lançamentos do disco e do peso.

Os atletas que ignoraram o boicote sugerido pelos mais religiosos foram alvo de recriminações. Nos Estados Unidos, foi publicada uma lista de nome de atletas que aceitavam competir ao domingo — “caçadores de canecas sem escrúpulos”, chamou-lhes Caspar Whitney, um norte-americano que pertencia ao Comité Olímpico Internacional (COI).

As objeções de alguns atletas não foram atendidas pela organização que não deixou de agendar provas para os domingos. Por essa razão, na competição do salto em comprimento, dois atletas norte-americanos quase chegaram a vias de facto...

Alvin Kraenzlein era um dos finalistas da prova, tal como o seu arquirrival Myer Prinstein. Na pré-eliminatória realizada num sábado, Prinstein saltou para a liderança com um “voo” de 7,17 metros. Em solidariedade com os colegas objetores, e apesar de ser judeu, Prinstein recusou competir na final, no dia seguinte, esperando que o adversário, que era cristão, não saltasse também. Enganou-se.

Kraenzlein saltou e ultrapassou a marca de Prinstein por um centímetro. Em fúria, o judeu desafiou o cristão para um tira-teimas na segunda-feira. Kraenzlein recusou.

“Campeonatos de damas”, neste caso de golfe

“Campeonatos de damas”, neste caso de golfe

COMITÉ OLÍMPICO INTERNACIONAL

Os II Jogos ficaram marcados por uma grande desorganização. As provas de atletismo realizaram-se no Bosque de Bolonha, onde as árvores prejudicavam os lançadores. Mas a prova mais caótica foi a maratona.

Michel Théato, nascido no Luxemburgo mas dado como francês pela organização, venceu a corrida, anulando o favoritismo do norte-americano Arthur Newton que, quando cortou a meta, julgou ser ele o vencedor.

Newton insistia que tomara a dianteira a meio da prova e recordava-se inclusive de ter ultrapassado Théato. Devido a erros da organização, o percurso estava obstruído em vários pontos, não havia sinalização a identificar o trilho nem registos exatos da corrida de cada atleta.

No dia da prova, estavam mais de 30°C na cidade e Théato cortou a meta com mais de uma hora de avanço sobre o conceituado Newton, que foi apenas quinto. Théato, que trabalhava como distribuidor de pão em Paris e conhecia os cantos à cidade, foi acusado de ter metido por atalhos. Houve mesmo quem jurasse tê-lo visto passar de bicicleta.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época