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É a hora da festa, pá, deixa o resto para lá

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MARACANÃ Pela primeira vez na história olímpica, a cerimónia de abertura não acontecerá no estádio onde vão decorrer as competições de atletismo - a honra coube ao mais emblemático estádio brasileiro

YASUYOSHI CHIBA/GETTY

Pelas 20h locais desta sexta-feira (mais quatro horas em Portugal Continental) bate o relógio do mundo para a hora da glória. Chega de falar de violência, pobreza, incompetência, subdesenvolvimento. Sobe ao palco do Maracanã a exuberância da mulher, da música e da arte brasileiras. É a hora da festa, pá, deixa o resto para lá: por três horas, o Rio de Janeiro terá direito à medalha de ouro. Os Jogos Olímpicos estão aí

A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro tem um orçamento cerca de dez vezes inferior ao de Londres em 2012. Vai acontecer no estádio do Maracanã (palco da maior derrota desportiva sofrida pelos brasileiros no Mundial de Futebol de 1950), à volta do qual as ruas da Cidade Maravilhosa terão sido invadidas por polícias fortemente armados e uma parte enorme dos 6,5 milhões de habitantes estarão a olhar de muito longe para os fogos de artifício. Sim, mas terá também Gisele Bündchen, terá samba do bom, terá Caetano Veloso e Gilberto Gil, terá o hino brasileiro embalado pelo som de um violão. E terá muito mais, terá sobretudo um bocadinho da imensa felicidade que empurra para frente o país.

O espetáculo ainda é segredo e tudo o que se sabe não está oficialmente confirmado. Mas, ao que parece, os mais de 60 mil presentes no estádio vão assistir ao desenrolar da história do Brasil contada por cinco mil voluntários, com 12 mil figurinos distintos, iluminados por dois mil canhões de luz e por três mil quilos de fogos de artifício. E tudo vai começar com a entrada de três caravelas portuguesas no mítico relvado.

Depois, ao longo de cerca de três horas, surgirão os índios, os africanos, os imigrantes europeus e asiáticos até chegar à urbanização das grandes cidades, ao surgimento das favelas, para tudo acabar num imenso desfile de Carnaval. “Vamos contar a história do Brasil, mostrar nossa cultura, mas queremos passar ao mundo a visão de um Brasil moderno, atual”, explica Leonardo Caetano, diretor de cerimónias do Comité Rio 2016, à BBC Brasil.

SELFIE Atletas da comitiva portuguesa no Rio de Janeiro

SELFIE Atletas da comitiva portuguesa no Rio de Janeiro

JIM WATSON/GETTY

O primeiro avião do mundo

Os organizadores prometem que a entrada dos 12 mil atletas participantes trará surpresas. “Vai ser algo inusitado, um desfile de atletas como nunca se viu, mas não posso dar detalhes”, diz Leonardo Caetano. Nas últimas semanas, mais de 500 pessoas de 20 países têm trabalhado 24 horas por dia para o sucesso do evento. Alguns dos ensaios chegaram a ter lugar de madrugada para manter o segredo intacto e até a rede de telemóveis foi cortada nos arredores do estádio.

Contudo, sabe-se já que atrizes como Fernanda Montenegro, considerada a primeira-dama do teatro brasileiro, e a britânica Judi Dench vão participar, aparentemente lendo um poema sobre o Rio de Janeiro nos ecrãs do estádio. Lea T, top model filha do ex-jogador de futebol da seleção brasileira Toninho Cerezo, vai sublinhar a importância da inclusão, não fosse ela uma assumida transexual, a primeira a participar na cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpícos. As especulações apontam ainda para nomes como os de Marisa Monte, Ben Harper, Lauryn Hill, entre muitos outros. Tudo ainda a confirmar.

Mas também já foi anunciado que a cerimónia terá três pilares fundamentais: o jardim (a natureza), o povo brasileiro (sublinhando a alegria) e a capacidade inventiva da população. Uma réplica do avião 14-Bis, desenhado por Santos Dumont em 1906 e que os brasileiros defendem ter sido o primeiro avião criado no mundo, vai voar pelo estádio, suspenso por cabos de aço.

EVENTO No roteiro do espetáculo estaria prevista uma cena envolvendo Gisele Bundchen e um assaltande, mas a reação de quem soube levou à sua eliminação

EVENTO No roteiro do espetáculo estaria prevista uma cena envolvendo Gisele Bundchen e um assaltande, mas a reação de quem soube levou à sua eliminação

KIRILL KUDRYAVTSEV/GETTY

Também estaria previsto um momento em que a modelo Gisele Bündchen, ao som da música “Garota de Ipanema”, fosse assaltada, mas a polémica criada à volta da situação, denunciada nas redes sociais por alguns dos cerca de 47 mil espetadores que assistiram ao ensaio de domingo passado no Maracanã, já eliminou esta cena do roteiro do espetáculo. Consensual deverá ser o momento em que Paulinho da Viola, sambista muito querido dos brasileiros, deverá cantar o hino do país ao som do violão.

Há ainda mistérios por esclarecer. Quem vai acender a pira olímpica? Pelé disse que gostaria e até que tinha sido convidado, mas que não sabia se poderia comparecer devido a outros compromissos promocionais... Mas há outros nomes na lista: o tenista tricampeão de Roland Garros Gustavo Kuerten, o Guga, e o atleta de vela Torben Grael. Os brasileiros prometem inovar também com o fogo olímpico e, pela primeira vez, além da pira acesa no estádio, haverá outro foco, na igreja da Candelária, bem no centro da cidade.

A direção artística do espetáculo está a cargo de Fernando Meirelles, realizador de filmes como “Cidade de Deus” e “Ensaio Sobre a Cegueira”. A acompanhá-lo na coordenação do evento, aparece, entre outros, Rosa Magalhães, premiada carnavalesca das maiores escolas de samba cariocas. As coreografias foram entregues a uma reputada coreógrafa brasileira de dança contemporânea, Débora Colker.

DAVID RAMOS/GETTY

A assistir à cerimónia estarão 45 chefes de Estado, embora as ausências sejam mais sonantes do que as presenças. Para um Ban Ki Moon presente estará um Barack Obama ausente. Para um Marcelo Rebelo de Sousa presente estará um Vladimir Putin ausente. Para cada Teodoro Obiang da Guiné Equatorial presente ficará de fora Dilma Rousseff ou Lula da Silva, do Brasil. E por aí em diante. Mas quem quiser ainda tem ingressos à venda, garante a organização.

Um dos momentos mais aguardados será o que se seguirá aos dez segundos em que o presidente interino do Brasil, Michel Temer, irá declarar abertos os jogos. Porquê? Pela imensa vaia que se aguarda. Mas para prevenir algum mal-estar de âmbito mundial, a organização já avisou que aumentará o som de música no estádio, tentando anular a contestação popular. Já está mesmo a ser chamada “operação abafa-vaia”.

Mas do lado de fora do estádio, e apesar das 38 ruas cortadas e do trânsito proibido nas imediações do Maracanã desde a meia-noite desta sexta, esperam-se manifestações já anunciadas contra o governo de Michel Temer, convocadas pelas organizações Povo Sem Medo, Brasil Popular e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

E para perceber melhor o que se passa atualmente no Rio de Janeiro, citamos Eliana Alves Santos Cruz, jornalista que mora em frente ao estádio do Maracanã e que conta a experiência do ensaio de domingo na primeira pessoa, como se estivesse a conversar connosco.

“Ouvindo o ensaio da cerimónia de abertura da janela de casa (até porque o barulho não permite fazer outra coisa), sei todas as músicas. Entra uma bateria feroz, daquelas que quem sabe sambar de verdade não fica parado. ‘Isso aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil ia iá, esse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliiiiz...’ É mesmo? Acho que assim como todo mundo, às vezes sim, às vezes não... Mas quero muito que, na maior parte do tempo, essa nação encontre a paz e a felicidade.

Amo esporte. Adoro Jogos Olímpicos. Provavelmente estarei amanhã [hoje] ouvindo isso tudo dentro do estádio, mas a preparação para essa festa toda fez muita gente chorar. Foram sete anos de uma luta tremenda. Mais de 2500 dias de uma cidade em guerra com seu trânsito, suas forças policiais, seu poder público esquecido de que os eventos passam e as pessoas ficam... Como os atletas e suas dores de treinos pesados, o ‘corpo’ ficou moído.

Por fim uma convulsão, um processo traumático e doído de troca de poder como um aborto provocado, uma machadada na moleira da criança chamada democracia, a marca inequívoca de um racha sem precedentes em nossa história. Racha que deve fazer os ouvidos do atual mandatário ouvir a mesma vaia que os anteriores ouviram ou pior. Uma guerra... E na guerra ninguém, por mais que esconda, é totalmente ‘feliiiiz, feliiiiz’...

Mas aí essa música vai chegando no final assim: ‘... Ééé também um pouco de uma raça, que não tem medo de fumaça, ai, ai, e não se entrega não...’ A gente chega aqui, na véspera do começo, sentindo o cansaço do fim. O fim de quem correu algumas maratonas, nadou muitos quilómetros, saltou a altura do sarrafo mais alto... Mas não estamos dispostos a entregar o jogo nem no primeiro tempo, nem no segundo, nem nunca. Teve Copa, vai ter Olimpíada, mas também vai ter luta. Ah, se vai! Simbora!”

Esta sexta-feira, 3,5 mil milhões de pessoas vão parar o que estiverem a fazer para olhar para o Rio de Janeiro. Vão balançar os pezinhos, sacudir as ancas, assobiar baixinho. O mundo todo estará dentro do Maracanã, a dançar com sotaque carioca. Porque, como já dizia Gonzaguinha, um músico brasileiro que, precocemente desaparecido, terá de ver a cerimónia de outro camarote: “A vida devia de ser bem melhor e será! Mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita, é bonita!”.

  • A pureza nostálgica de acreditar na promessa de grande país por vir

    Este texto principia com uma nota do editor, que pediu ao repórter no Rio de Janeiro para enaltecer as virtudes do Brasil depois de dias, semanas e meses em que as notícias acentuaram defeitos, inconvenientes e descuidos que anunciam o fracasso dos Jogos Olímpicos (zika, atrasos nas obras, insegurança, tramas políticas complexas, águas sujas, vila olímpica sem condições e demais infortúnios). O repórter anuiu, dispôs de dois dias para versar sobre as qualidades do próprio país e respondeu de volta que “talvez tenha saído num tom menos alegre que o proposto”. O editor examinou a prosa e deparou-se com o impensável (parece crítica, é elogio): um texto que é quase todo sobre uma canção e que devia ser acerca dos Jogos, que começam esta sexta. Mas o editor rendeu-se ao que leu com a expectativa que você que há de ler isto se renda também. E é uma rendição plena de satisfação para usufruir no Português do Brasil