Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

A pureza nostálgica de acreditar na promessa de grande país por vir

  • 333

Cristo Redentor aponta para o Maracanã, que vai receber a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos

Buda Mendes / Getty

Este texto principia com uma nota do editor, que pediu ao repórter no Rio de Janeiro para enaltecer as virtudes do Brasil depois de dias, semanas e meses em que as notícias acentuaram defeitos, inconvenientes e descuidos que anunciam o fracasso dos Jogos Olímpicos (zika, atrasos nas obras, insegurança, tramas políticas complexas, águas sujas, vila olímpica sem condições e demais infortúnios). O repórter anuiu, dispôs de dois dias para versar sobre as qualidades do próprio país e respondeu de volta que “talvez tenha saído num tom menos alegre que o proposto”. O editor examinou a prosa e deparou-se com o impensável (parece crítica, é elogio): um texto que é quase todo sobre uma canção e que devia ser acerca dos Jogos, que começam esta sexta. O editor rendeu-se ao que leu com a expectativa que você que há de ler isto se renda também - e é uma rendição plena de satisfação para usufruir no Português do Brasil

Plinio Fraga, no Rio de Janeiro

Os organizadores da Olimpíada Rio 2016 decidiram homenagear as equipes esportivas brasileiras tocando nas arenas “Aquarela do Brasil”, tido como um hino à brasilidade. É aquela canção de melodia lírica, cuja letra fala do “meu Brasil brasileiro, terra de nosso Senhor”.

Nos próximos dias haverá uma avalanche de páginas descrevendo as mais profundas verdades sobre o Rio de Janeiro e a prática de esporte em suas arenas. Se produzidas por brasileiros, talvez muitas se aproximem do tom grandiloquente e do fervor religioso de “Aquarela do Brasil”. Daí porque vale lhe explicar a origem.

Letra e música foram escritas por Ary Barroso, autor que atuava também no rádio. Era um comunicador tão extraordinário quanto passional e intempestivo. Nos anos 30, abandonou a transmissão de uma partida de futebol entre Brasil e Argentina inconformado com os erros do juiz. Em julho de 1950, após narrar a derrota do Brasil para Uruguai na final da copa do Mundo do Maracanã, decidiu abandonar a carreira de locutor esportivo.

“Aquarela do Brasil”, composição primeiramente gravada em 1939, nasceu numa noite de chuva forte sobre o Rio de Janeiro que obrigou o boêmio Ary Barroso a permanecer em casa. Foi para o piano e, sem muita demora, compôs uma das músicas que traduziriam o Brasil para o mundo.

Ao apresentá-la à gravadora, exigiu que tivesse pompa quando levada ao estúdio. “Por que as músicas norte-americanas merecem orquestras e as brasileiras só podem ser gravadas com flauta, cavaquinho, pandeiro e violão?”, perguntou.

Buda Mendes / Getty

O vigor vocal do primeiro intérprete, Francisco Alves, adaptou-se com facilidade à grandiloquência dos versos escritos por Ary Barroso. Três anos depois de gravada, Walt Disney incluiu a música na trilha sonora da animação “Alô, amigos”, que mostra a visita do Pato Donald ao Rio de Janeiro, dentro da política norte-americana de usar o cinema para atrair aliados políticos que poderiam balançar em direção ao comunismo.

O desenho animado obteve grande sucesso internacional. Disney mudou o nome da música para “Brazil” e assim ela passou a ser gravada por alguns dos maiores nomes da música americana. A canção alcançou rapidamente a marca de dois milhões de execuções, de acordo com os dados oficiais da Broadcast Music.

A antropóloga Santuza Cambraia Neves foi quem melhor analisou “Aquarela do Brasil”: “Com seu tom de hino de louvor e grandiloquência, aproxima-se do espírito da epopeia. Tal como os Lusíadas, por exemplo, ao evocar a ‘Terra de nosso senhor’, a letra da canção remete à ideia de povo eleito”.

Eu confesso que demorei anos para entender a letra. É muito difícil. Chama o Brasil de trigueiro para se referir a uma nação morena. Abusa do pleonasmo ao falar de um coqueiro que dá coco e ao sugerir colocar o rei Congo no congado. Cita uma lua de luz merencória, a opção mais difícil para melancólica.

Começa falando de um mulato inzoneiro, que poderia ser traduzido por manhoso. Em seguida apresenta uma morena sestrosa, quando quer falar de uma mulher com belos dotes.

É possível que os Jogos Olímpicos do Rio tenham muitas falhas. Expostas tendo “Aquarela do Brasil” como fundo lembrarão sempre da pureza nostálgica de acreditar na promessa de grande país por vir, mais abandonado do que abençoado por ser a “terra do Nosso Senhor”. Mas o que são erros de organização e derrotas olímpicas para o país que pode se confortar com suas músicas? A canção popular sempre redimirá o Brasil, colocando-o no pódio mais alto.