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“Tive muitos desgostos, como toda a gente, mas acho que a vida compensa tudo”

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“Transpira optimismo e boa disposição. Considera a falta de pontualidade uma ofensa pessoal. Praticou quase todos os desportos, foi professor e é a grande referência do século XX no atletismo português.” Assim foi apresentado Mário Moniz Pereira, uma das personalidades ouvidas para a série “O que a vida me ensinou”, pelo jornalista do Expresso Valdemar Cruz, em texto publicado na Revista Única em fevereiro de 2005. Leia ou recorde o relato na primeira pessoa feito pelo Senhor Atletismo, então com 84 anos

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

(texto)

Jornalista

João Carlos Santos

João Carlos Santos

(fotos)

Fotojornalista

João Carlos Santos

Gostei muito de ter nascido. Não sei se sou otimista. Sou realista. Ao contrário dos portugueses, que estão sempre a queixar-se, eu gosto muito do fado. Sou muito fadista, mas sou um fadista feliz. O fado não é só tristezas. Toda a minha vida fiz aquilo de que gosto. Nunca precisei de ninguém para me motivar. Eu é que motivo os outros. Tive muitos desgostos, como toda a gente, mas acho que a vida compensa tudo. Nós não damos valor nenhum ao que temos. No jornal só dizem que somos os piores nisto e naquilo. Parece que têm vergonha de dizer que somos melhores em algumas coisas. Sempre disse que o Carlos Lopes e a Rosa Mota eram os melhores do mundo. Não temos amor-próprio. Somos muito mauzinhos para os portugueses.

Não sou político. Nunca fui adepto de nenhum partido. Disso sei pouco. No 25 de Abril senti que todas as pessoas estavam muito satisfeitas, e eu também, mas tenho de dizer que nunca tive grandes problemas na época passada. Talvez porque não sabia nada de política. E, no entanto, o meu amigo de infância é o Mário Soares. A polícia entrava por minha casa para ver se apanhava o João Soares, pai dele. Nós escondíamo-lo. O meu pai e a minha mãe eram os primeiros a protegê-los. Nasci na Rua Gomes Freire, em Lisboa. A rua está quase igual. É mesmo ao lado do Hospital Miguel Bombarda. Mário Soares morava no segundo andar. Assistia às competições, de atletismo, salto em cumprimento, corridas de barreiras e salto à vara que eu fazia no meu quintal, que era muito pequeno. Não dava para fazer nada de especial. O Mário Soares, que será mais novo que eu uns cinco ou seis anos, assistia ao colo da minha mãe.

Foi uma infância divertida. Sempre gostei muito de açúcar. Ainda hoje ponho três colheres no café e quatro no chá. Como eu tinha a mania do atletismo e a Ovomaltine, por cada X número de invólucros de tabletes de chocolate dava um cronómetro, eu comprava chocolates para ter cronómetros em casa. Quando ia para a praia, na Costa de Caparica, enquanto os outros miúdos levavam uma bola, eu levava uma corda para o salto em altura e o cronómetro. Punha o meu irmão e as minhas primas e primos a correr e saltar. Eu é que organizava, mas também fazia tudo. Fez-me muito bem para o meu futuro de professor de educação física. Entrei nos campeonatos universitários de futebol, andebol, basquetebol, hóquei em patins, natação. A nível oficial, estive no hóquei em patins, no ténis de mesa, no atletismo, no basquetebol. Não sou uma pessoa normal. Aos 10 anos era vizinho de Salazar Carreira, a sumidade máxima do atletismo português nessa altura. Era um homem de grande cultura desportiva. Nas traseiras do nosso prédio, já na Avenida da República, havia um vaivém com um cestinho. Ele punha o «L'Équipe», um livro referente ao atletismo ou jornais da época. Quando havia alguma coisa, tocava-se uma campainha, e lá ia buscar as coisas. Isso influenciou-me muito. Após a sua morte, e por sua indicação, a família doou-me muitos livros.

O atletismo continua a ser a minha vida. Estou há dez anos na direção do Sporting. Nesse período estive em 331 provas de atletismo, 173 jogos de andebol, 92 encontros de ténis de mesa, 40 campeonatos de natação e 80 jogos de futebol. Não sou sócio da seção de futebol do clube. Sou o sócio n.º 2 do Sporting Clube de Portugal. Entrei para sócio em 1922, antes de o Gago Coutinho e o Sacadura Cabral terem atravessado o Atlântico. O atletismo é a única modalidade em Portugal em que os seus campeonatos não são televisionados, apesar de, até hoje, mais nenhuma outra ter ganho medalhas de ouro olímpicas. Desportivamente falando, o nosso país é uma ditadura futebolística.

O meu pai foi o primeiro português a dar a volta a Portugal em automóvel. Tinha uma garagem chamada Auto-Lisboa, na Avenida da Liberdade, muito perto dos Restauradores. Era o representante dos automóveis FN - Fabrique National, que era belga e hoje em dia só fabrica armas. Quando chegava um carro novo, íamos experimentá-lo para o Campo Grande, onde aparecia um carro de 15 em 15 minutos, a ver se dava 100 km por hora. Ele era do Automóvel Club de Portugal e entrava em concursos hípicos. Era um desportista. A minha mãe nunca se opôs a nada. Facilitavam tudo o que fosse preciso.

Recebi uma educação bastante boa, do tipo nem oito, nem oitenta. Não é como hoje. No meu tempo oferecia-se o lugar às senhoras no autocarro. Ainda faço isso. A rapaziada de agora não liga nenhuma a essas coisas e tem uma linguagem que eu, mesmo entre os homens, nunca utilizei. A educação é fundamental. Entre as coisas importantes da vida estão o casamento, a família, a profissão. É todo um conjunto de coisas que fazem a vida.

Hoje há uma leviandade muito grande com o casamento. As pessoas não sabem o que é que querem, de que é que gostam. Os meninos namoram uns meses, poucos, depois casam, exigem à família um casamento que custa pelo menos três ou quatro mil contos. Vão passar a lua de mel a Cuba, ao Brasil ou ao México e passados três meses divorciam-se. Comigo é assim: andava no Instituto Nacional de Educação Física, acabei o curso, depois fiquei lá como professor, porque me convidaram para ser assistente da parte do atletismo e do voleibol. Havia uma colega minha, que entrou comigo, que conheci nessa altura. Começámos a namorar no 2.º ou 3.º ano, andámos juntos ano e meio ou dois anos e ao fim desse tempo casámos. Já lá vão 58 anos. Temos cinco filhos, 11 netos e uma bisneta. Passámos a lua de mel em Campo de Ourique. Isto não é uma brincadeira. E dada a minha vida, estive muito fora do país.

Participei em 12 Jogos Olímpicos. São mais de 48 anos de olimpismo. No verão ia para os Jogos. A família ficava cá e eu não acompanhei como devia ter acompanhado a educação dos filhos. Nisso, a minha mulher foi excecional. Para compensar a minha falta em momentos importantes, passei a organizar os Congressos da Família Moniz Pereira. Foi um êxito. Aquilo é bem organizado, com um plano horário para cumprir. Há horas para o ténis de mesa, para a natação ou para o rali pedestre. Falo-lhes das férias grandes em Sintra, casa do avô paterno, um homem muito irascível. Não nos deixava andar de bicicleta ou sair, nem para ir ao cinema. Era solicitador encartado. Quando ia a Lisboa, íamos acompanhá-lo à estação. Íamos para o comboio das nove, mas ele saía com tanta antecedência que apanhava o anterior. Aí, fui influenciado por ele. Sou pontualíssimo, não só por causa do atletismo, onde um segundo atira um atleta do primeiro para o oitavo lugar. Para mim, chegar atrasado é como uma ofensa pessoal.

No fim de cada Congresso há um exame escrito sobre a família. Eu é que faço o ponto. No último estávamos 86, alguns vindos dos Açores.

Sou um felizardo. Ainda hoje não me trocava por um qualquer menino de vinte e tal anos. Deus me livre. Andam por aí todos podres. Sou capaz de saltar para cima de uma mesa, mas tenho a noção das minhas capacidades. Fui ao Campeonato do Mundo de Veteranos, na Suécia, e fiquei em 3.º lugar. Só me ganharam os americanos. Depois também participei nos Europeus, mas a partir de determinada altura disse que não podia fazer mais aquilo, porque podia ter uma rutura muscular ou cair para o lado. Mas gosto muito de andar. Faço uns exercícios de ginástica em casa. Há pessoas que nunca fizeram desporto e quando chegam aos sessenta anos é que se lembram de começar a correr. Isso não. Digo-lhes que morrem. Nunca fui um atleta excepcional, mas fiz um bocadinho de tudo.

João Carlos Santos

SOU UM SENTIMENTAL

Fui fazer o serviço militar na Cavalaria. Nunca tinha andado a cavalo. Foi ótimo para mim, porque fiz a cavalo coisas que nunca sonhei que seria possível fazer. Se hoje não tenho medo de nada é por causa disso. Cometi as maiores barbaridades por todos os campos do Vale do Tejo. É inacreditável o que se fazia em Torres Novas com os cavalos. Fiz as piores coisas que se possam imaginar, e nunca caí, salvo no primeiro e no último dia. Tive uma sorte medonha. Nunca mais andei a cavalo.

Não gosto de viajar. Não é bem o não gostar de viajar. Não gosto de sair daqui. Não tenho tempo para visitar nada, porque faço sempre a vida do atleta. Quando saio de Portugal, ao fim de oito dias estou ansioso por voltar para casa. Por muito bem que esteja quero voltar, porque acho que tivemos uma sorte tremenda de nascer num país à beira-mar plantado. Basta abrir a televisão para vermos as desgraças que há por todo o lado. Além disso, para mim, Sintra é o sítio mais bonito do Mundo.

A minha primeira grande viagem foi aos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948. Estive quase três semanas em Inglaterra. Foram três atletas do Sporting e um do Benfica. Não foi nenhum técnico. Como eu era treinador do Sporting, escrevi uma carta ao Comité Olímpico, oferecendo-me, sem me pagarem nada, para ir, colaborando com eles na preparação. Com muita admiração minha disseram que sim.

Comparar os Jogos de Londres com os atuais é qualquer coisa de inacreditável. Tinha acabado a guerra, havia grandes dificuldades em Londres com a alimentação e parte da cidade estava arrasada. Não é nada comparado com o que se passa hoje, em que o vencedor ganha um Mercedes. Nos Jogos de Londres tive a dez metros de mim o lançamento de disco, por uma senhora francesa, pianista profissional. Pela primeira e última vez na vida levei uma máquina fotográfica do meu pai. Foi uma chatice, porque andava sempre agarrado àquilo. Resolvi tirar-lhe uma fotografia. Estou na bancada central, há uma vedação, atravesso a pista, chego ao pé da senhora, tiro a fotografia, o polícia olha para mim e pronto. Isto hoje não se pode fazer em Portugal, quanto mais nos Jogos Olímpicos. O hino comove-me logo. Sou um sentimental. Tive cenas em que chorei perdidamente, de alegria. Ainda hoje, se for rever o recorde do Mundo dos 10 mil metros, em Estocolmo, com o Carlos Lopes e o Fernando Mamede, estou a ver as imagens e comovo-me.

Emociono-me da mesma maneira a ver um filme. O que me emociona mais não é ver alguém morrer. É, por exemplo, um maestro que tem uma orquestra formidável e ver toda a gente de pé, a bater palmas. A consagração de uma pessoa que é homenageada por fazer coisas extraordinárias, emociona-me. Eu só podia ter sido duas coisas: ou o que sou, ou qualquer coisa ligada à música, como pianista ou maestro.

António Pedro Ferreira

TENHO BOM OUVIDO

Fiz o hino da família. Tenho 124 músicas na Sociedade Portuguesa de Autores e não sei nada de música. Não sei uma nota. Tenho muito bom ouvido. Toco piano, mal, mas toco tudo. O meu avô tinha um piano lá em casa. Eu ia ver os filmes do Vasco Santana, chegava a casa e tocava as músicas. Não sei explicar como é. Nisso sou bom. Tenho um ouvido muito grande.

Posso ser muito patriota ou nacionalista, não sei. O que sei é que sou muito português. Isso de certeza. Quando começam a dizer que a música portuguesa é pimba, rio-me e pergunto o que chamam àquelas músicas inglesas com uns versos inacreditáveis. O texto da música portuguesa é o melhor da Europa. Não fui eu que fiz, foi o Ary dos Santos, o Vasco Lima Couto, a Rosa Lobato Faria. Todos os dias ouço na rádio o “My Way”, do Sinatra, o “Night and Day”, do Cole Porter. Isto é antigo.

A palavra que mais vezes se diz na rádio é o “ai”, mas não é o “ai Mouraria”, nem o “o ai ó linda”, é o “I am”, “I go”, “I believe”, “I love you”. Ouve-se uma música inglesa e aquilo é só “ai, ai, ai” e as pessoas acham bestial. Gosto de toda a música, exceto a música de 220 volts com guitarras de arame farpado, acompanhada de tambores de cavalaria 7. Essa não gosto. Sou muito conservador em muitas coisas.

O que me dá mais prazer na vida é a vida. Acho que as pessoas não sabem viver. Lamentam-se constantemente. Uma pessoa tem que estar sempre apaixonada por qualquer coisa. Por um livro, por uma mulher, por uma causa. E não pode desistir ao primeiro contratempo. Caso contrário, a vida não tem interesse nenhum.