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Os Jogos de Moniz

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Em casa de Moniz Pereira há um quarto tão valioso como algumas secções do Arquivo Nacional da Torre do Tombo

António Pedro Ferreira

Moniz Pereira participou em 12 edições dos Jogos Olímpicos. Começou numa Londres devastada pela Guerra, em 1948, e só parou em Sydney 2000, do outro lado do Mundo. Recorde algumas das memórias dessas viagens contadas pelo “Senhor Atletismo”, num texto publicado na Revista Única do Expresso, em julho de 2008

Valdemar Cruz

Valdemar Cruz

texto

Jornalista

Los Angeles, 6 de agosto de 1984. São 3h30 da madrugada em Portugal. Sem televisão em directo, há milhares de ouvidos sintonizados para as notícias vindas dos EUA. Os melhores atletas do mundo estão alinhados na pista do estádio Olímpico para a final da prova dos 10.000m. Portugal nunca conquistou uma medalha de ouro em toda a história dos Jogos. Naquele dia poderá fazer-se história.

Fernando Mamede é o principal favorito. Um mês antes, a 2 de julho, batera o recorde do mundo da distância em Estocolmo, com uma marca que em muito pulverizava o máximo olímpico, pertença desde setembro de 1973 do finlandês Lasse Viren. Em função dos tempos obtidos, os principais adversários do português são o italiano Salvatore Antibo, o queniano Michael Musyoki ou o inglês Mike McLeod.

Moniz Pereira ladeado por Carlos Lopes (à esq.) e Fernando Mamede, no Estádio Nacional

Moniz Pereira ladeado por Carlos Lopes (à esq.) e Fernando Mamede, no Estádio Nacional

Arquivo "A Capital"

O entusiasmo inunda o coração de todos os portugueses, menos um. O professor Mário Moniz Pereira olha para a pista e sabe não estar já nas suas mãos a possibilidade de alterar o que parece ser uma fatalidade. Só ele sabe que o principal adversário de Mamede não será nenhum dos atletas prontos a iniciar a corrida, mas o próprio Mamede. Incapaz de vencer a pressão da luta pelas medalhas, logo na manhã seguinte à eliminatória, que vencera com grande facilidade, manifestara a intenção de nem alinhar na final. Não lhe dói nada. Não tem nenhuma mazela física. "É a cabeça", desabafa para o seu treinador. Isso empurra-o para o abandono como quem se deixa arrastar para o abismo. A custo, acaba por reunir forças para alinhar na final. Dada a partida, coloca-se na cauda do pelotão e não mais sai de lá até desistir da prova aos 5150 metros. Consuma-se ali a maior das tristezas desportivas alguma vez vividas por Mário Moniz Pereira ao longo de uma vida feita de vitórias e marcada pela presença em 12 edições dos Jogos Olímpicos, desde Londres em 1948, até Sydney em 2000.

Não pode esta história continuar sem a abertura de uma janela para poder o professor fazer justiça a um atleta em sua opinião muito incompreendido pelos portugueses. Após horas de conversa dominadas pelas memórias dos Jogos, o silêncio só se fez quando se trata de averiguar, num percurso com tantas alegrias, quais tinham sido os verdadeiros e grandes momentos de tristeza vividos por Moniz Pereira. Aí, nesse instante, até os olhos ficam de luto. A contragosto recorda o episódio de Los Angeles, sobretudo para homenagear Fernando Mamede, "a melhor máquina humana que alguma vez conheci", diz.

Há muitas lágrimas nos 87 anos de vida de Moniz Pereira. Se a final dos 10.000m de Los Angeles ainda lhe humedece os olhos, isso não passa de uma gota no oceano de lágrimas brotadas ao longo de uma carreira por onde se passeia a glória de assistir ou ser parte de todos os grandes momentos do atletismo português do século XX. Como quando, nos mesmo jogos de Los Angeles, Carlos Lopes arranca a primeira medalha de ouro do atletismo português com a vitória na maratona.

Em casa de Moniz Pereira há um quarto tão valioso como algumas secções do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Jamais será possível fazer uma completa e rigorosa história do atletismo nacional sem passar por aquelas gavetas, aqueles armários, aquelas estantes, onde, por exemplo, se guardam desde há décadas os resultados totais dos campeonatos nacionais de atletismo. O professor está em condições de fornecer os programas do dia a dia de cada um dos Jogos ou Campeonatos, com notas sobre os tempos de passagem de cada um dos atletas.

Quem entra depara, à esquerda, com um armário. As primeiras 12 gavetas constituem o retrato dos Jogos em que esteve Moniz Pereira a expensas suas, com funções oficiais ou já só como convidado: Londres (1948), Helsínquia (1952), Roma (1960), Tóquio (1964), México (1968), Munique (1972), Montreal (1976), Los Angeles (1984), Seul (1988), Barcelona (1992), Atlanta (1996) e Sydney (2000).

Com algumas das recordações olímpicas

Com algumas das recordações olímpicas

Arquivo "A Capital"

Londres corresponde à primeira grande viagem da sua vida. Mantém-se na capital britânica durante três semanas, na companhia de três atletas do Sporting e um do Benfica. Já então treinador dos leões, decide escrever ao Comité Olímpico. Oferece-se para, sem cobrar nada, acompanhar os atletas e colaborar na sua preparação. Quando olha para trás, reconstrói o impacto provocado por uma Londres destroçada. «Tinha acabado a Guerra e aquilo foram uns Jogos muito pobres, mas também dos mais verdadeiros. Naquela altura, os vencedores tinham apenas uma coroa de louros com o ramo de oliveira.»

Havia naqueles Jogos uma inocência hoje inimaginável, como quando Moniz resolve sair da bancada central, atravessar a pista e aproximar-se do local do lançamento de disco para fotografar uma lançadora francesa que em simultâneo era pianista profissional. Um polícia olha-o, assiste ao momento do retrato e nada mais. Como diz, «isto hoje não se pode fazer em Portugal, quanto mais nuns Jogos Olímpicos». Aquela foi, no entanto, a primeira e última vez que se fez acompanhar de máquina fotográfica numa competição olímpica.

Arquivo "A Capital"

Por outro lado, na capital britânica, onde as distâncias se mediam ainda em milhas ou polegadas, o que perturbava o modo como competiam os atletas continentais, também não teve de viver problemas de natureza política como os presenciados em Munique. Jamais conseguirá esquecer os acontecimentos da madrugada de 5 de setembro de 1972, quando um comando ligado ao grupo palestiniano Setembro Negro invade a Aldeia Olímpica, mata dois atletas israelitas, toma outros nove como reféns e exige a libertação de 200 palestinianos das prisões de Israel.

A partir de um sétimo andar, Moniz vê chegar os dois helicópteros destinados a proceder ao transporte dos reféns e dos seus sequestradores para o aeroporto de Fürstenfeldbrück, onde estaria um avião à disposição para os levar para o Egito. A polícia de Munique decide, porém, montar uma emboscada no aeroporto, com resultados desastrosos. Uma mortandade geral lança uma sombra muito negra sobre os Jogos. A sua continuidade fica em risco, mas acabam por ser suspensos apenas por um dia. «Vivemos um ambiente assustador e toda a gente ficou com muito medo», recorda o professor.

Se fala de organização, Tóquio é a cidade que de imediato se lhe impõe na memória. Ainda hoje acha que talvez aqueles tenham sido os Jogos mais marcantes, e não necessariamente pelos resultados, Impressionou-o ali, não apenas a qualidade das instalações, mas também a proximidade existente entre todos os locais das provas. Este não poderia deixar de ser um factor muito apreciado por quem, para chegar a Tóquio, fizera uma viagem hoje impensável. Saído de Lisboa, dirige-se a Roma, onde permanece dia e meio. Da capital italiana vai para Carachi, no Paquistão. Dali voa para Bombaim, na Índia. A seguir faz escala em Banguecoque, depois em Hong Kong e por fim chega a Tóquio.

Eram viagens homéricas, muitas vezes com algum romantismo à mistura, como na deslocação para os Jogos de Helsínquia, em 1952, que Moniz tentou evitar por ter de ir de barco. Depois de resolvidos os problemas de financiamento da presença na delegação com o recurso a algumas poupanças e a inscrição como jornalista, por ser mais barato, havia uma outra dificuldade a vencer.

Apavorava-o a ideia da viagem marítima, que imaginava acompanhada de intermináveis enjoos. As muito badaladas qualidades do vapor "Serpa Pinto" arrefecem-lhe as resistências e aquele percurso transforma-se em algo de único e irrepetível, com o barco transformado num verdadeiro pavilhão desportivo, onde os atletas de todas as modalidades, com excepção dos da natação, encontram um inesperado espaço para treinar. Os portugueses presentes naqueles jogos, diz Moniz Pereira, "ficaram muito impressionados com as finlandesas. Elas tinham uma educação muito diferente da nossa e havia um outro conceito de sexualidade. Não sei o que se passou, mas a verdade é que no ano seguinte nasceu a Associação de Amizade Portugal-Finlândia".

Arquivo "A Capital"

Esquecidas as finlandesas, há no percurso olímpico de Moniz Pereira um finlandês que lhe permanece atravessado. Chama-se Lasse Viren e não haverá português que tenha assistido à final dos 10.000m de Montreal que não se recorde do seu nome, da sua estatura esguia e do modo como, com uma surpreendente ponta final, deixou Lopes para trás na última volta. O atleta português fazia história ao conquistar a primeira medalha olímpica (prata) de sempre para Portugal, mas para trás ficava o sabor amargo de uma derrota pelo menos pouco clara.

Moniz Pereira recorda que "quando os atletas eram chamados para as cabines, antes de iniciarem as provas, o Viren nunca estava lá. Constava que tirava o sangue, punha-o no frigorífico durante uns tempos e depois voltava a fazer a transfusão". Nunca nada se provou, como também nunca se percebeu como lhe foi possível, ele que já tinha ganho os 5000m, fazer a última volta nos 10.000m em 54 segundos. "Era demasiado rápido e o Lopes não tinha velocidade para isso." O curioso, prossegue o professor, é que, após a final, "quem foi ao controlo antidoping foi o Carlos Lopes, o Mariano Haro, de Espanha, e um inglês", e não o vencedor, como seria de esperar.

Embora respire atletismo, houve pelo menos uns jogos, os do México, em que depressa o treinador lamentou lá ter ido e ter levado atletas. "Passados três dias já estava arrependidíssimo de termos ido. Os resultados daqueles Jogos são todos falsos. Os recordistas do mundo foram todos ultrapassados e quem venceu foram atletas de segunda categoria que sempre viveram àquela altitude."

Outra memória menos interessante é a dos Jogos de Atlanta, disputados numa cidade que "mais parecia uma autoestrada com prédios de um lado e do outro". Os locais das provas ficavam muito distanciados uns dos outros, o que inviabilizava um acompanhamento das diferentes modalidades.

Ausente das olimpíadas de Melbourne, em 1956, por não ter ido nenhum português, e das de Moscovo, de 1980, sobre as quais foi lançado um apelo de boicote por parte dos Estados Unidos da América e por os seus atletas terem preferido participar nos diferentes "meetings" da Europa, Moniz Pereira guarda algumas mágoas, como a participação portuguesa nos Jogos de Barcelona. Pensa que "alguns atletas não levaram aquilo com a seriedade que se exigia" e recorda o caso de Domingos Castro, que "podia ter ganho uma medalha, mas zangou-se com um atleta da comitiva portuguesa e isso foi o bastante para não conseguir nada".

Com Carlos Lopes no antigo estádio José de Alvalade

Com Carlos Lopes no antigo estádio José de Alvalade

Arquivo "A Capital"

Em fim de conversa pede-se-lhe para escolher, entre os momentos vividos nos 12 Jogos em que participou, aqueles aos quais atribuiria as medalhas de ouro, prata e bronze. O embaraço é notório. Incomoda-o a ideia de ter de fazer uma escolha deste tipo, mas acaba por reconhecer que a vitória de Carlos Lopes na maratona de Los Angeles é o momento que jamais poderá esquecer, pelo disparar da emoção, pela singularidade de tudo quanto estava a acontecer.

"Ouvir pela primeira vez o hino nacional no Estádio Olímpico é algo que fica cá dentro e ainda hoje me emociona." A prata vai ex-aequo para Rosa Mota, pela vitória na maratona de Seul, e Fernanda Ribeiro, pela vitória nos 10.000m de Atlanta, uma das mais emocionantes finais olímpicas de sempre. Para o bronze há infindáveis situações, mas a escolha acaba por recair no segundo lugar de Carlos Lopes na final dos 10.000m de Montreal.

Em qualquer destes momentos, Moniz Pereira terá chorado. Agora, sentado ao piano onde compõe as suas melodias interpretadas por alguns dos grandes nomes do fado e da canção portuguesa, tem um desabafo feliz: "Chorei, mas chorei sempre mais de alegria do que de tristeza."

[Texto original publicado na Revista Única do Expresso, a 19 de julho de 2008]