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“Cheguei a jantar às quatro da manhã com a equipa”

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Luís Barra

Fernando Gomes, presidente da FPF, estava de férias quando nos recebeu no seu gabinete da Cidade do Futebol. Dizia-se naturalmente cansado mas descansado, porque há dias a seleção tornara o improvável numa coisa palpável e, sobretudo, histórica: sagrar-se campeã europeia de futebol. Foi por aí que a conversa começou

Já caiu em si?
Vamos aterrando, como se costuma dizer. São momentos que nunca esqueceremos.

Acreditou sempre?
Tradicionalmente, tenho medo dos chamados grupos fáceis. Mas a partir do momento em que passámos para a fase do mata-mata, como diz o nosso amigo Scolari, vislumbrámos que era possível chegar lá.

Não tinha tanta fé na viagem para dia 11.
Havia a fé no trabalho realizado pelo Fernando Santos: sete jogos, sete vitórias. Não éramos favoritos mas tínhamos condições para, em determinadas circunstâncias, conquistar o título.

O momento mais difícil de gerir foi o episódio do microfone?
Não, isso são aspetos que não me preocupam. Numa fase final, estamos interessados é na parte desportiva e não no resto. O momento mais difícil foi com a Hungria: era o terceiro jogo da fase de grupos, tínhamos necessidade de vencer para não dependermos de terceiros, recuperámos três vezes o resultado no mesmo jogo. Foi aí que sentimos dificuldade, porque podíamos ter saído do Euro. Mas ficámos.

Criticou-se o estilo de jogo...
As críticas são naturais em quem tem essa função de comentar e analisar. Sublinho a frase do Fernando Santos: “Não me importo de empatar todos os jogos e ser campeão europeu.” O importante era agarrar a oportunidade.

Como viu a entrada de Payet sobre Ronaldo?
Não vou comentar.

O que sentiu nessa altura?
Tive a convicção de que, apesar de tudo, poderia ser um fator extra de motivação para o resto do jogo que faltava para os seus companheiros.

Quanto é que a FPF pagou de prémios pela vitória?
Está já estipulado que paga uma percentagem do valor que recebe pela conquista. Cerca de 30% do total. Mas a isto também têm de estar associados os custos da permanência.

Mas qual o valor global que a FPF recebeu?
€27,5 milhões.

Qual o lucro?
Podemos estar a falar num valor líquido de cinco, seis milhões de euros.

O que é que Portugal pode ganhar indiretamente com a vitória no Euro? Na renegociação de novos contratos?
Os valores dos direitos televisivos das competições europeias e da qualificação para o Mundial estão centralizados e definidos pela UEFA e não têm cláusulas de renegociação. Esses valores são definidos país a país e não têm nada a ver com os títulos, mas sim com o mercado dos países em questão. Agora, este estatuto de campeão europeu pode ajudar na negociação ou renegociação dos cachês para a presença em jogos particulares.

Quanto mais pode a FPF ganhar?
Não é possível estabelecer ainda, até porque nós temos dificuldades de calendário para fazer jogos particulares. Na próxima época começa a qualificação para o Mundial: jogamos com a Suíça, em setembro; depois, dois jogos em outubro [Andorra e Ilhas Faroé], um em novembro [Letónia], outro em março [Hungria], outro em junho [Letónia]. E, no final de junho, temos a Taça das Confederações. A ideia é redimensionar a atividade comercial. Nós temos um contrato com a Olivedesportos que termina em 2018 relativo à sponsorização e aos direitos televisivos dos jogos particulares e, obviamente, este novo estatuto de campeão europeu pode alavancar a negociação para outros valores, potenciar a relação com a Olivedesportos; podem aparecer também novos patrocinadores. Mas o contrato com a Nike também termina em 2018.

Como é que se passa de um cenário quase catastrófico em 2014 para esta vitória em 2016?
Já fizemos a nossa análise e tomámos as nossas decisões em função daquilo que correu menos bem no Mundial de 2014.

Quais foram as mudanças? É porque a ideia que ficou, na altura, foi que a culpa era do médico.
Criámos a Unidade de Saúde e Performance da FPF e os jogadores já o elogiaram. Esse é um dos aspetos que deve ser realçado.

Fala com Paulo Bento?
Já voltei a falar com ele, depois de setembro de 2014. Não deixamos de falar com as pessoas.

Como é que o presidente da FPF olha para o ambiente de crispação entre os clubes grandes?
Há matérias de transparência, que têm muito a ver com a disciplina e com a arbitragem, que devem ser corrigidas. Tomámos algumas medidas: o vídeo-árbitro, a publicação dos relatórios, o tornar o processo de classificação mais transparente.

E quanto à morosidade da Justiça? Falamos, por exemplo, do caso Slimani, que se arrastou durante meses.
Trouxemos o professor José Manuel Meirim, uma pessoa reconhecidamente competente, para que tudo se torne mais transparente. Mas vamos ao futebol: estamos entre os melhores no futebol, porque somos 5º do ranking da UEFA em termos de clubes, somos campeões da Europa; fazemos milagres. Só que também é preciso criar condições para que haja um registo de harmonia entre emblemas.

Acredita que é possível haver harmonia entre os clubes?
A atuação dos dirigentes tem de ser objetiva para potenciar o que interessa à própria indústria do futebol. Se os três grandes, pela sua dimensão, não derem essa noção de junção de esforços, muito dificilmente alguém conseguirá fazer o que seja.

Mas esse trabalho deve ser feito pelo presidente da FPF ou pelo presidente da Liga?
O futebol profissional é uma competência delegada na Liga. Mas naturalmente que nós, Federação, em nenhum momento nos pomos de fora da organização global do futebol. O facto de a Liga ter alterado os seus estatutos de forma a fazer com que os três grandes tenham de estar na direção da Liga, para que haja uma tentativa de maior consenso nas regras e interesses do futebol como um todo, parece-me um bom princípio.

Qual foi o papel que o Fernando Gomes e a estrutura da FPF tiveram na eleição de Gianni Infantino para a presidência da FIFA?
Fomos das primeiras federações a apoiar a candidatura e houve um grande envolvimento de quadros da FPF e apoio em relação à criação de um movimento para dar à FIFA uma nova imagem.

Portugal pode retirar alguma vantagem dessa ajuda?
Nós não o fizemos com o sentido de retirar vantagens. O que sempre dissemos foi que queríamos assumir um papel de intervenção com mais influência nas organizações internacionais do que aquilo que tinha sido feito até 2010. Decidimos apoiar o Infantino por acreditarmos na pessoa que conhecíamos, por sabermos da sua capacidade e por entendermos que a organização da FIFA não respondia aos desafios da indústria.

Durante esta campanha assistiu a coisas estranhas?
Não...

Fala-se muita da compra de votos, de manobras...
Só posso sentir enquanto votante se alguém me abordou para comprar votos. E enquanto presidente da FPF nunca senti isso. Quer na reeleição do presidente Blatter, quer na eleição do Infantino. Nunca fomos abordados para favorecer quem quer que fosse.

Tinha votado em Blatter antes?
Não.

Vai ser um trabalho hercúleo recuperar a imagem da FIFA depois de tudo o que se passou nos últimos anos.
Sim, sempre soubemos que não seria uma tarefa fácil. Mas acreditamos que, com as capacidades que reconhecemos ao Infantino, será possível superar as dificuldades.

O que achou das dificuldades da convocatória de Rui Jorge para os JO?
Isso tem a ver com a ausência de uma regulamentação que existiu até aos JO anteriores, que estavam inseridos no calendário FIFA. Pela primeira vez na história dos JO com futebol não existe obrigatoriedade de convocar determinados jogadores. Mal acabem os JO não deixaremos de manifestar a nossa posição junto da FIFA. Porque nestas circunstâncias teremos de repensar uma eventual participação futura da FPF em JO.

A renovação com Fernando Santos era o plano A, B e C?
No dia 12 de maio dissemos-lhe que gostaríamos que continuasse, que ficasse comigo nos quatro anos seguintes do meu mandato.

E depois de ser campeão europeu Fernando Santos não teve propostas que fizessem tremer esse acordo?
O Fernando Santos já disse que não teve propostas e que a única que ouviu foi a nossa. Porque tínhamos esse compromisso desde maio, que foi reafirmado num momento difícil, depois do empate com a Áustria na fase de grupos do Europeu, a 18 de junho. Eu disse-lhe, no jantar, que tinha imensa confiança no que ainda ia fazer nesse campeonato e para não se esquecer de que contávamos com ele depois do Euro.

Jantava todas as noites com Fernando Santos depois dos jogos?
Sim, jantei todas as noites com a equipa depois dos jogos. Às vezes às quatro da manhã...

Dormia pouco...
As horas suficientes. Até porque no dia seguinte, de manhã, quando havia treino, estava sempre no início dos treinos com a equipa técnica.

O Ronaldo não é eterno. Vê algum jogador nesta nova geração que possa assumir o estatuto de líder na seleção?
Ninguém é eterno... Mas, felizmente, nos últimos anos tem aparecido uma geração de enorme potencial. Nesta seleção de 23 do Euro estão seis jovens, quatro que jogaram o Europeu de sub-21, um que não a jogou por lesão e mais um que jogou a qualificação dos sub-19. Diria que do ponto de vista global são precisos muitos anos para que apareça um Ronaldo ou um Messi.

A Cidade do Futebol está paga?
Está. E sem qualquer dinheiro do erário público. Foi tudo com fundos próprios da FPF e com os subsídios que conseguimos obter da FIFA e fundamentalmente da UEFA.

Além de desportivo este também será o melhor ano financeiro da FPF?
As receitas do Europeu não vão cair todas no mesmo ano, porque o nosso ano fiscal é até 30 de junho. Parte ficará na época passada e outra parte passa para a próxima época. Mas a FPF não visa o lucro. Sempre que o temos aplicamos no desenvolvimento do futebol. Subsídios às deslocações das equipas, taxas de inscrição de atletas femininas, redução dos custos de arbitragem... Tudo no sentido de incrementar o número de atletas. No último ano aumentámos mais cinco mil e temos agora 168 mil. Somos a modalidade que tem mais atletas federados. E somos das federações que recebe menos do Estado, per capita. O que recebemos é insignificante. Nós pagamos de impostos entre 7 a 8 milhões de euros por ano. Das 56 federações que existem, só a de montanhismo e a de campismo é que recebiam menos do que nós per capita. Aquilo que recebemos do Estado representa cerca de 3% do orçamento, quando nas outras federações representa mais de 90%. E desses 3%, cerca de um milhão é só para pagar deslocações de clubes à Madeira e aos Açores. Portanto nem é para nós.