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Campeão de longo curso

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João Carlos Santos

Moniz Pereira era uma figura ímpar no desporto nacional. Um campeão que criou campeões. Faleceu este domingo aos 95 anos e o Expresso deixa-lhe uma homenagem, recuperando um artigo originalmente publicado na revista de 10 de junho de 2000

O vício de pisar a relva e o tartan, depois de mais de meio século de cronómetro em punho, chamando a si a responsabilidade de orientação da grande maioria das “estrelas” do atletismo nacional, ainda não lhe saiu do corpo. Todos os dias, ao final da tarde, Mário Alberto Freire Moniz Pereira vai “passar revista às tropas” na pista de Alvalade, baptizada com o seu nome.

“Vou ver se o treino correu bem, se faltou alguém, ou se há alguma queixa e, claro, faço a minha pergunta habitual: continuamos todos contentes por termos nascido?”

Moniz Pereira é assim. Um lutador optimista, atento, sensível e muito conservador das coisas de que mais gosta. Como a música, por exemplo. Mas não daquela que ele apelida de 220 volts, “com guitarras de arame farpado, acompanhadas de tambores de Cavalaria 7”.

De ouvido apurado, cedo ganhou o gosto pelo piano, onde ainda hoje compõe para artistas amigos, como Carlos do Carmo ou Maria da Fé, entre outros. A fadista é, aliás, a intérprete do seu fado mais conhecido - “Valeu a pena” -, que tem 22 versões diferentes, uma delas em espanhol. «No total, já fiz 116 músicas e algumas com poemas meus também», assegura. A inspiração para as letras vai buscá-la a títulos de filmes ou livros. E conta uma das muitas histórias que tem para contar: «Um dia estava na Alemanha à espera de um avião que se atrasou e só partia passadas duas horas. Pensei no que ia fazer ali, sem saber uma palavra de alemão. Vi uma livraria e entrei para ver títulos de livros em inglês e francês. Bati com os olhos num que dizia «Je Lis En Tes Yeux» (leio nos teus olhos). Ora, frase mais fadista não podia haver. Sentei-me num banco e fui escrevendo - leio em teus olhos que o nosso amor está cansado, leio em teus olhos recordações do passado, etc., etc. No avião fui trauteando a música. Quando cheguei a casa, já passava das três horas da manhã, pus o piano no abafador, fechei a porta e toquei, à primeira, a música que tinha imaginado.» Lucília do Carmo, a fadista que mais admirava, foi quem lhe deu voz.

Dotado dum sentido de humor peculiar, Moniz Pereira diz que vai fazer no dia 11 de Fevereiro do próximo ano, «20 anos pela quarta vez». Nascido no 1º andar do nº 173 da Rua Gomes Freire, por volta dos sete anos passou a viver em casa de um avô na Av. da República e foi lá que pela primeira vez deu azo à sua paixão pelo atletismo. «Ele tinha um quintal onde eu punha os meus amigos e irmão a fazer provas de salto em altura, em comprimento e duplo salto. Não fazíamos o triplo porque o quintal era curto.»

Nunca ninguém na família se tinha interessado pelo desporto, mas o pequeno Mário não resistia aos encantos daquela modalidade. Até quando ia para a praia, «ao contrário dos outros miúdos que levavam uma bola, punha no bolso uma corda e um metro», para organizar campeonatos na areia. A certa altura passou a carregar também um cronómetro que ganhou através duma promoção da Nestlé. «Fartei-me de comer chocolates para os receber», lembra.

Findo o liceu, rumou para a Faculdade de Ciências, com o objectivo de entrar na Escola do Exército: «Era uma maneira mais fácil de se começar a ganhar dinheiro.» Só que, felizmente para ele e para o atletismo nacional, não passou na cadeira de Matemáticas Gerais. «Foi o melhor chumbo da minha vida», goza.

Nessa altura já tinha travado conhecimento com Salazar Carreira, uma sumidade no atletismo, que lhe falou no Instituto Nacional de Educação Física (INEF). Quando acabou o curso foi convidado para ficar lá como assistente e logo a seguir para ser treinador no Sporting, onde já praticara ténis de mesa e onde ainda jogava voleibol.

Entretanto, casa com Maria Carlota, colega de curso, de quem viria a ter cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz. José António, o varão, ainda se interessou pelo voleibol e chegou mesmo a jogar no CDUL, ao lado do pai, quando este contava já 50 anos. Hoje, só uma das filhas lhe segue as pisadas como professora de Educação Física

No Sporting, onde passou a maior parte da sua vida, Moniz Pereira fez de tudo um pouco. Foi atleta, seccionista, professor de ginástica, de voleibol e, claro, de atletismo.

Enquanto atleta, apesar de ter sido internacional de voleibol, garante que não era nada de especial. «Era fraco fisicamente e não fazia trabalho de musculação como agora todos fazem.»

Ninguém tem dúvidas de que Moniz Pereira é o grande responsável pelos maiores sucessos do atletismo nacional. Nomes como os de Carlos Lopes ou Fernando Mamede estarão para sempre ligados ao Professor. Este, porém, prefere não destacar nenhum atleta em particular para não ferir susceptibilidades. Confrontado com a herança que deixará no dia em que partir, Moniz Pereira considera que o mais importante que fez pelo desporto em Portugal foi «incutir o gosto pelo treino em todas as modalidades». Acérrimo defensor da pontualidade, sempre foi o primeiro a dar o exemplo, atitude que considera «indispensável para qualquer treinador ter sucesso».

Da máxima, «treino todos os dias com quaisquer condições atmosféricas», nunca abdicou. Nem mesmo quando um pupilo mais novo lhe perguntou se também haveria treino se houvesse um terramoto em Lisboa, com epicentro debaixo dos seus pés. A resposta saiu pronta: «Se isso acontecesse, só tínhamos de correr sempre para baixo, em direcção ao centro da terra.»

Segredos? Diz que não há. Existem muitas maneiras de se chegar ao êxito, mas «só há uma coisa comum a todos os métodos de treino: treinar todos os dias». No entanto, confessa que durante muitos anos andou a estudar o que se fazia nos outros países, como a Finlândia, Rússia, Estados Unidos, Nova Zelândia, etc., convencido de que ia «descobrir a pólvora».

Ironicamente, passados uns anos, passou a ser ele o convidado para fazer prelecções, devido aos sucessos dos atletas portugueses perante tais potências. Em relação a esta matéria, Moniz Pereira confessa nunca ter pensado que fosse possível termos tantos campeões, devido à escassez de infra-estruturas de que o país ainda padece. «Os nossos atletas fazem autênticos milagres. É incrível como conseguimos ter campeões em pista coberta quando só existem duas em Portugal e a mais próxima de Lisboa fica a cerca de 300 quilómetros.» Os feitos alcançados surgiram à custa de muito trabalho e das adaptações que foi fazendo, à nossa cultura, do que apreendeu lá fora. «Cada país tem os seus hábitos alimentares, os seu horários próprios e não se pode treinar da mesma maneira na Suécia e em Angola.»

O certo é que o seu olho clínico raramente o engana, fruto da experiência que adquiriu ao longo de 60 anos nas pistas. «O treino é a fase mais encantadora do desporto porque todos os dias se descobre alguma coisa nova. Os próprios atletas dão-nos indicadores que não vêm nos livros», explica.

João Carlos Santos

Enquanto acaricia as teclas do piano da sua casa, Mário Moniz Pereira, vai desfiando o rosário das suas memórias, quase sempre com os olhos rasos de água. Os momentos em que chorou de alegria, foram, felizmente, muitos mais do que os de tristeza. Curiosamente, continua a preferir não salientar nenhum em especial, porque foram todos importantes. «Levar um atleta a tornar-se campeão europeu, mundial ou olímpico é inexplicável. É como a música. Começa-se com uns acordes ao piano e acabamos a ver uma orquestra a tocar o que fizemos. É como o nascimento de um filho», revela. Por isso mesmo não aceita que, há duas semanas, quando o Sporting conquistou a Taça dos Clubes Campeões Europeus de pista - um triunfo inédito do atletismo português que mais uma vez o fez chorar «como uma Madalena» -, o programa «Domingo Desportivo» não tenha ido para o ar, «porque acabou o futebol e portanto não há desporto», ironiza.

No vasto currículo onde se destacam muitos galardões, do que mais se orgulha é de ter estado em 11 Jogos Olímpicos, 13 Campeonatos da Europa e 22 Campeonatos do Mundo de Crosse, além dos títulos obtidos enquanto treinador. Os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, foram os que mais admirou. Pela inversa, os de Barcelona, em 1992, foram os únicos de que não gostou. «Fiquei mesmo muito triste porque os nossos atletas não se portaram à altura e ao contrário do habitual, o ambiente na comitiva não era o melhor», recorda com um certo amargor.

Desencantado, foi depois dessas Olimpíadas que Moniz Pereira abandonou o cargo de treinador a tempo inteiro. Chegou à conclusão de que já não podia ser o técnico que tinha sido até ali, até por uma questão de idade - embora continue a evidenciar uma saúde de ferro -, e preferiu o recolhimento activo atrás de uma secretária.

Em 1995, quando Santana Lopes, então presidente do Sporting, lhe prometeu que o atletismo seria modalidade número um a seguir ao futebol, não hesitou em aceitar a vice-presidência para as modalidades amadoras, cargo que ainda ocupa, «com muito prazer». Em cinco anos como «vice» esteve em 200 provas de atletismo, 89 jogos de andebol, 55 torneios de ténis de mesa, 27 provas de natação, 14 de ginástica, 16 de bilhar, 9 sessões do Grupo Coral - que canta canções suas -, 149 reuniões de direcção, 18 do Conselho Leonino. Este ano, assistiu a 17 jogos de futebol em Alvalade. Esta é outra das suas características invulgares. Aponta e guarda tudo. Avesso ao computador, prefere colocar no papel com a sua letra os tempos e os metros que os atletas vão fazendo. O seu espólio caseiro é único e quase todos os dias recebe chamadas de alguém que quer saber um resultado de «mil novecentos e troca o passo». Até os bilhetes de cinema e do teatro tem guardados desde sempre.

No meio de uma vida tão cheia, o «Senhor Atletismo», como desde há longos anos passou a ser tratado, também guarda tempo para escrever. Com três livros publicados, tem um na gaveta há quase dois anos, «sobre as histórias da maratona no Mundo e em Portugal, mas o tempo não chega para o concluir».

Uma vez por mês, reúne-se na Sociedade Portuguesa de Autores, com o grupo da Associação Amizade Portugal Portugal, que fundou com muitos amigos, para contar histórias e aprenderem uns com os outros. «Ainda noutro dia eu e o Francisco Nicholson fizemos uma sessão de histórias à desgarrada. Ele contava uma de teatro e logo a seguir eu outra de desporto», conta.

No entanto, não é um homem de noitadas. Nunca foi. «Péssimo garfo e pior copo» - só gosta de água -, a única fraqueza são os doces. Reconhece que é guloso, põe «carradas» de açúcar no chá e café, mas afinal tem permissão médica para o fazer sem risco. Descobriu-o por volta dos 30 anos, na sequência de dois desmaios inexplicáveis a seguir ao almoço. Manuel Nazaré, à altura um dos médicos do Sporting, explicou-lhe então que, ao contrário dos diabéticos, ele tinha quebras de açúcar após as refeições. «Foi o que queria ouvir», comenta malicioso.

Com os Jogos Olímpicos de Sydney à porta, Moniz Pereira está convicto de que os atletas portugueses vão portar-se muito bem. A única incerteza que o incomoda é não saber se vai poder lá estar a acompanhá-los. Filho de uma senhora centenária, receia deixá-la sem as suas visitas diárias. «Sydney fica a 22 horas de avião. Se fosse mais perto... Não sei, não sei... Logo vejo», atira.

A família sempre foi um dos pilares mais importantes da longevidade de Moniz Pereira. Casado há 50 anos com Maria Carlota, recorda com saudade os tempos em que organizava os «Congressos da Família Moniz Pereira». Durante um fim-de-semana por ano, todos eram «obrigados» a cumprir um programa de provas e festa, que ele próprio elaborava. «Até temos um hino da família, com música minha e letra de uma prima», diz orgulhoso.

Longe de pensar na recta final, Mário Moniz Pereira garante que nunca precisou que o motivassem, porque todos os dias acorda com objectivos e com vontade de meter-se «em trabalhos».

Aliás, todas as quintas-feiras, Moniz Pereira ainda veste o fato de treino e desce à pista de Alvalade, para treinar uma jovem angolana, Delfina Joaquim, nos 400 metros barreiras. É a única atleta que tem «entre mãos», mas só o futuro dirá se será a última.

Crítico construtivo, só lamenta já não poder assistir à mudança de mentalidades em Portugal no que diz respeito ao desporto. «Vivemos numa ditadura futebolística e não temos cultura desportiva, mas creio que isto há-de mudar. Vai é levar muitos anos, décadas ou até séculos», conclui.

Entretanto, vai continuar a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para incentivar os jovens e fazer com que gostem de treinar. «Todos os dias, e se possível duas vezes», acentua em jeito de conclusão.

Na segunda-feira, lá estará, na pista, pronto a passar «revista» e a perguntar a todos se estão felizes por terem nascido.

Artigo originalmente publicado na Revista de 10 de junho de 2000