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Santos da casa

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FOTO TIAGO MIRANDA

A Seleção Nacional, tantas vezes criticada por não jogar bonito e por ser pouco sexy, é a nova campeã da Europa. O obreiro deste feito chama-se Fernando Santos. Um engenheiro que foi capaz de criar um todo muito superior à mera soma das partes

TEXTO Rui Malheiro

Catorze jogos oficiais, zero derrotas. Onze vitórias — três delas após empates no final dos 90 minutos regulamentares, desfeitos em dois prolongamentos (ante a Croácia e a França) e num desempate por pontapés da marca de grande penalidade (frente à Polónia) — e três empates — todos na fase de grupos do Europeu — que trouxeram um chorrilho de críticas que deixavam antever um knock-out prematuro. É este o percurso como selecionador nacional de Fernando Santos, o engenheiro fleumático que nunca se escondeu, dando sempre a cara e oferecendo (os seus) argumentos entre a tempestade que quase nos conduziu ao precipício (recuperar de três desvantagens ante a Hungria que nos atiravam para fora da competição) e a mudança dos ventos que sopravam adversos em direção à bonança do final feliz.

Houve até um momento, após o nulo diante da Áustria, na segunda jornada de fase de grupos, em que parecia ser só Fernando Santos a acreditar na consumação de um conto de fadas, quando asseverou, com o ar mais pacato do mundo, que regressaria a Portugal apenas no dia 11 de julho. Foi assim que, como Belarmino Fragoso, o português que podia ter sido o Eusébio do mundo do boxe, o engenheiro cerrou os dentes e partiu para o jogo, conduzindo-nos ao momento mais alto da história do futebol português. Feito que Belarmino, na distante década de 60, nunca abichou.

Todos queríamos ser campeões a jogar um futebol bonito. Mas a ordem que Fernando Santos indagou incessantemente passava pela firmeza de um processo defensivo onde o momento de organização foi aquele que foi ficando mais amadurecido e maciço com o desenrolar da prova. Houve, aí, uma tremenda sagacidade do selecionador em perceber que a variação da estrutura tática entre o 1x4x4x2 (desdobrável em 1x4x1x3x2, sempre com um médio de cobertura à frente da defesa) e o 1x4x1x4x1 seria a chave do sucesso, tal como se viu, por exemplo, na sua reação à saída por lesão de Cristiano Ronaldo na final diante da França (passagem imediata do 1x4x1x3x2 para o 1x4x1x4x1, com Renato Sanches — a última letra do apelido é mesmo um ‘s’ — a robustecer o corredor central ao lado de Adrien Silva, para o combate com Paul Pogba e Blaise Matuidi, enquanto Ricardo Quaresma e João Mário ficavam nos corredores laterais e Nani assumia o papel de falsa referência ofensiva). O 1x4x4x2 clássico, com uma dupla de médios de contenção em linha, o 1x4x4x2 em losango, que ante a Áustria parecia bem mais um 1x4x4x2 anárquico, o 1x4x3x3 e o 1x4x2x3x1 já faziam parte do passado.

A fórmula estava na adoção de um bloco médio-baixo, que visava conferir iniciativa ao adversário na primeira fase de construção, episodicamente condicionada por um primeiro bloco de pressão constituído pelos elementos mais adiantados (a presença de um médio foi crucial, ao aumentar a velocidade e a agressividade colocadas em prol da pressão/recuperação alta), e retirar espaço ao rival através de uma linha intermediária formada por quatro (ou cinco) unidades que travasse as progressões pelo corredor central.

A preocupação com um encaixe tático, que nunca nos deixasse desequilibrados, foi quase obsessiva, já que a anulação do rival foi sempre o mote do pensamento estratégico de Fernando Santos, mesmo que para o conseguir tenha recorrido, por vezes de forma excessiva, a referências individuais. Tal como viria a impedir que a última linha se posicionasse demasiado adiantada, de modo a que não fosse explorado o espaço nas suas costas e as debilidades — bem patentes ante a Hungria — no controlo da profundidade.

Uma teia sólida que afiançava a conquista de espaços para as saídas contundentes em contragolpe. Primeiro, muito centradas na capacidade individual de Cristiano Ronaldo, Nani ou Ricardo Quaresma para buscarem desequilíbrios no um contra um. Depois, com um maior envolvimento do coletivo, mesmo que partindo de premissas individuais, como a capacidade de Renato Sanches para queimar linhas como um relâmpago, à semelhança do que aconteceu no golo que ditou o afastamento da Croácia nos oitavos de final. Sempre mais fortes em transição do que em organização ofensiva, onde foi notória a ausência de ideias na exploração do jogo interior (João Moutinho, mesmo longe da forma ideal, foi um oásis no deserto), contrariada por uma busca incessante dos corredores laterais, de onde saíram muitos cruzamentos condenados ao insucesso pela pouca presença na área.

UNIÃO Fernando Santos criou um verdadeiro espírito de grupo, fazendo das estrelas trabalhadores e dos trabalhadores estrelas

UNIÃO Fernando Santos criou um verdadeiro espírito de grupo, fazendo das estrelas trabalhadores e dos trabalhadores estrelas

FOTO ALEX LIVESEY/GETTY

Jogo de equilíbrio

“Se a laranja se deslocar no espaço mais depressa do que o pensamento e muito mais devagar do que a laranja escrita, criará uma ordem ou um caos?” Durante o último mês, recordei vezes infindas uma das desconcertantes questões levantadas por Al Berto, o mais sublime e corrosivo poeta português nascido no século XX, em “Prefácio para Um Livro de Poemas”. Tudo, ou quase tudo, nos conduz a uma ou mais indagações. Até um aparentemente básico jogo de futebol. E se trocássemos a laranja por uma bola? E se a bola deixasse de ser tão fustigada, num jogo irrespirável em que se vive excessivamente enclausurado na sede infinita do equilíbrio defensivo, descentrando-o em vez de o concentrar num espaço minúsculo? E se deixássemos o soporífero futebol das linhas próximas e das coberturas morígeras em busca de uma sonífera compacticidade, coartando o espaço entre as linhas (defensiva e intermediária), a bola poderia ajudar a que fosse redigido o poema? E se nos preocupássemos mais com a sublimidade do poema e abdicássemos das organizações defensivas coriáceas, a bola não poderia anichar-se mais vezes no fundo das redes adversárias? É ou não o golo — e não o seu evitar até ao expoente máximo da insanidade — o orgasmo do poema?

No Campeonato da Europa, em que os processos defensivos, os blocos baixos e os lances de bola parada, mesmo aqueles que nos fizeram rememorar o râguebi dos talonadores, dos pilares e dos saltadores, ditaram leis, conduzindo a meia centena de jogos fastidiosos que dificilmente preservaremos na memória, o poema mais extasiante escreveu-se, a 30 de junho, no Velódromo, em Marselha.

Foi o momento magistral em que a rua, aquela do tempo em que medrámos distantes das consolas e que nos fez amar tanto o futebol, invadiu um relvado sem pedir licença, após uns sofridos e angustiantes 120 minutos de um denso nevoeiro em forma de amarras táticas, onde o temor da derrota subjugou a vontade indómita da conquista. Aí, ergueu-se a voz de Cristiano Ronaldo, o capitão de 15 milhões de portugueses e o símbolo de um coletivismo de que muitos ousaram suspeitar, a avassalar o mundo com a robustez descomunal de um #quesefoda, condenando-o a hashtag do Euro-2016.

Os bons malandros — o Cêerresete, o Bulo, o Nani e o Mustang — dispararam sem piedade sobre a baliza de Łukasz Fabiański e até persuadiram o tipo com aspeto de melhor aluno da turma — o acanhado João, que se escondera atrás do muro — a fazer o mesmo. E o Bulo, o nosso puto reguila, nado e criado na íngreme Musgueira, caminhou para o golo com a certeza moleque — com todo um bairro ao espelho — de que estávamos condenados a fazer história, ensurdecendo um estádio em ebulição como se abraçasse o transcendente ‘Debaixo da Ponte’, de Allen Halloween, como banda sonora, o que até lhe deu tempo para limpar as botas alvas antes de escrever a sua parte do poema. Aquela em que a palavra ‘medo’ não existe no imberbe léxico, como já o atestara ao enfiar uma bomba na baliza onde uma defesa de betão — João Pinto, Lima Pereira, Eurico e Álvaro — tombou a 23 de junho de 1984, terminando o jogo prostrada no meio das redes, enquanto o guarda-redes Bento vociferava contra este mundo e o outro.

Sim, passavam-se 12.065 dias sobre uma noite cálida de São João em que vimos o nosso castelo desabar como um baralho de cartas ante uma superfavorita França, guiada pelo talento superlativo de Michel Platini no vértice ofensivo de um demoníaco losango de meio-campo, onde também entravam Luis Fernandez (médio-defensivo), Jean Tigana e Alain Giresse (médios-interiores), capaz de tornar os avançados — Bernard Lacombe e Didier Six — em meros figurantes. Naquele mesmo estádio, numa versão mais rude e pungente, prévia ao futebol moderno, com três pontas de lança — Rui Jordão, Fernando Gomes e Tamagnini Nené — e um extremo fabuloso (Fernando Chalana) que nunca teve o infortúnio de ser obrigado a jogar a avançado-centro.

Com um futebol muito menos naïf e infinitamente menos poético, fez-se justiça aos nossos heróis do Euro-1984. Pode não ter havido um sensacional Bento a negar golos com voos só ao alcance de quem tem asas, mas houve um distinto Rui Patrício a travar de forma resplandecente a grande penalidade de Kuba Błaszczykowski, o herói polaco que, há duas décadas, viu a mãe morrer nos seus braços, assassinada pelo progenitor.

FOTO FILIP SINGER / EPA

O fim do triste fado

No futebol, mesmo que se pense o contrário, quase sempre se acertam as dívidas. Havia, sem dúvida, um débito gigantesco para com o futebol português. É impossível não rememorar a prodigiosa epopeia dos Magriços no Mundial-1966, comandados por um sublime Eusébio da Silva Ferreira e pela serenidade do capitão Mário Coluna, que guindaram ao topo do universo um país a preto e branco que só conhecia a cor azul do lápis bafiento da censura, ou a sinuosa aventura dos Patrícios no Europeu-1984, que de um estranho jogo de sombras, típica de um balneário desavindo, de uma liderança quadricéfala e de uma estrutura federativa amadora, quase fizeram luz, através do futebol tergiversante de Chalana, o pequeno Astérix que detonou a arrogância gaulesa com uma poção mágica feita de fintas ziguezagueantes.

Para trás ficou também o futebol sexy do Euro-1996, que nos metamorfoseou orgulhosamente no “Brasil da Europa”, graças aos meninos da geração de ouro que, tal como na canção, já tinham aprendido a ser homens. Homens que lacrimejaram como garotos a 6 de setembro de 1997, quando um árbitro francês (Marc Batta) sonegou-lhes a possibilidade de fazerem história no Mundial-1998, e que perderam a cabeça no Euro-2000, quando um golo de ouro de Zinedine Zidane (de grande penalidade), a três minutos do termo do prolongamento, consumou uma reviravolta que, mais uma vez, nos impedia de chegar a uma final.

Seguiu-se o Euro-2004, disputado em casa com uma efervescência popular nunca antes vista, e aquele calvário grego que nos parecia retirar a possibilidade de vir a conquistar um título numa grande competição internacional de seleções no escalão sénior. Depois, ainda houve a derrota ante a França — outra vez, a besta negra — nas meias-finais do Mundial-2006, com novo golo de grande penalidade a revelar-se decisivo, e a angústia de um desempate por pontapés da marca de grande penalidade ante a então campeã mundial e europeia Espanha, a sonegar-nos o acesso à final do Euro-2012.

Paixão O selecionador nacional viveu intensamente todos os jogos e nunca se enganou numa substituição, como prova a entrada 
de Éder no jogo da final

Paixão O selecionador nacional viveu intensamente todos os jogos e nunca se enganou numa substituição, como prova a entrada 
de Éder no jogo da final

FOTO JEAN CATUFFE/GETTY

O homem que matou o monstro

Dificilmente haverá comparação mais injusta do que a que é feita entre o futebol que a Seleção Nacional preconizou no Euro-2016 e aquele que conduziu a Grécia ao título europeu em 2004. É certo que houve momentos em que parecíamos não saber ao que jogávamos, nem como jogávamos, mas, na verdade, até a soberba Alemanha, que protagonizou os 35 minutos do melhor futebol deste campeonato (ao vulgarizar, entre os 10 e os 45 minutos da meia-final, a anfitriã França, com um futebol sagaz na exploração dos três corredores e uma reação à perda asfixiante), não se coibiu de se ‘italianizar’ — adaptando-se à estrutura tática do oponente — para derrotar, após o desempate por pontapés da marca de grande penalidade, a Itália de Conte, a responsável pelos 90 minutos de futebol mais consistente nos diferentes momentos do jogo, quando eliminou a Espanha nos oitavos de final, despedaçando a bicampeã europeia em título, que não viu Vicente Del Bosque acompanhar o desenvolvimento do tiki-taka.

Voltemos à Grécia, que não marcou presença neste Europeu alargado, ao terminar o grupo F no último lugar, atrás de Irlanda do Norte, Roménia, Hungria, Finlândia e Ilhas Faroé. Tudo isto na sequência da saída de Fernando Santos, detentor do melhor registo de sempre de um selecionador grego: 26 vitórias, 17 empates e (apenas) 6 derrotas — as mesmas sofridas pelos helénicos em 10 jogos a contar para a qualificação para o Euro-2016 — em 49 jogos, o que valeu à Grécia uma presença nos quartos de final do Euro-2012 e outra nos oitavos de final do Mundial-2014, onde caiu, no desempate por pontapés da marca de grande penalidade, ante a Costa Rica.

O engenheiro foi o responsável pela morte do futebol tenebroso preconizado pelo alemão Otto Rehhagel, que resgatou as férreas marcações individuais, apostou num bloco defensivo baixo e cerradíssimo e moldou a estrutura tática às características dos adversários, procurando, de forma cínica, aproveitar os seus erros. Fernando Santos recorreu, apenas, à paixão, ao orgulho e à entrega inexcedíveis em prol de uma bandeira, obstando, ao longo de quatro longos anos, à expectável queda no abismo, bem patente no falhanço do apuramento para o Mundial-2006 e nas passagens sem fulgência pelo Euro-2008 e Mundial-2010.

Para isso, promoveu uma imperiosa e gradual renovação do quadro de jogadores e mudou a estrutura tática preferencial — apostou no 1x4x3x3 — e as linhas gerais do modelo de jogo, de encontro a um futebol mais positivo, onde a força do coletivo, uma impressionante solidez defensiva e a eficácia a gerir vantagens curtas superaram a falta de jogadores capazes de fazer a diferença.

Promessa Fernando Santos disse que só voltava de França no dia 11 de julho com a Taça... e cumpriu

Promessa Fernando Santos disse que só voltava de França no dia 11 de julho com a Taça... e cumpriu

FOTO GETTY

‘Parizaço’

Contudo, não foi a ordem a única responsável pelo feito épico da Seleção indígena. Também foi, e muito, a desordem — do penálti falhado por Cristiano Ronaldo ante a Áustria, que dilacerou por fim o nó do individualismo, bem patente na jornada de estreia ante a Islândia, para ganhar uma equipa solidária erigida num espírito coletivo assoberbante, centrado no capitão Ronaldo, que se sacrificou no papel de (falsa) referência ofensiva em prol do coletivo, ao golo em tempo de descontos do anónimo Arnór Ingvi Traustason, islandês recentemente contratado pelo Rapid Viena aos suecos do IFK Norrköping, que nos permitiu ficar em 3º lugar no grupo e fugir do lado (ou lago, como preferirem) dos tubarões, onde se encontravam os principais favoritos à conquista da prova: França, Alemanha, Espanha, Itália e Inglaterra. No entanto, as portas do Stade de France só se escancaram após três longas batalhas.

A primeira seleção a claudicar foi a Croácia, uma das poucas que privilegiou um jogo bonito e enleante neste Europeu mas que cedeu a um dos mais vertiginosos contragolpes da história do futebol português, em que participaram Rui Patrício — que defesa monumental a impedir o 0-1! —, Ricardo Quaresma — da recuperação de bola na primeira metade do meio-campo defensivo à finalização decisiva na cara do golo, após uma impressionante cavalgada que se confundiu com uma fuga para a vitória —, Cristiano Ronaldo — no apoio à recuperação de Quaresma, no passe em direção ao corredor central, onde estava o Bulo da Musgueira, na desmarcação vertiginosa e num primeiro remate que não saiu com o destino que pretendia mas que encontrou a cabeça do Mustang —, Renato Sanches — destemido a conduzir, a acelerar o jogo e a temporizar até soltar o passe para o corredor esquerdo — e Nani — que transformou um remate falhado num cruzamento decisivo.

Seguiram-se a Polónia, contundente na exploração de contra-ataques e com uma dupla atacante formada por Lewandowski e Milik, extraordinária pela sua invulgar complementaridade, na longa noite em que o futebol de rua acabou por tomar conta do Velódromo, e o País de Gales, excessivamente preso à sua principal individualidade (Gareth Bale) e à ausência por castigo de um dos melhores jogadores do Euro-2016 (Ramsey), detonado por dois lances em que se percebeu o excelso trabalho de casa da equipa técnica nacional. Primeiro, ao desfazer as referências individuais galesas na defesa de bolas paradas laterais, com a opção por um canto curto que Cristiano Ronaldo, com um salto olímpico que ficará na história dos Europeus, cabeceou com o poder de uma bala para o fundo da baliza do longilíneo Wayne Hennessey. Depois, por um lance em que o capitão soube aproveitar o afundamento da seleção galesa — com oito jogadores de campo para dois lusos — dentro da sua área, para oferecer, através de um remate-assistência de longe (onde usufruíamos de uma vantagem de três para zero), o 2-0 final a Nani.

Tal como prevíramos nesta mesma revista a 10 de junho, bem mais com o coração do que com a razão, estávamos em Paris a defrontar a França, a equipa da casa, que também era a nossa besta negra. O sonho, aquele que nos comanda a vida, estava à distância de um ‘Parizaço’. Nada de outro mundo para o engenheiro que nos habituou a quebrar tabus. Foi com o treinador que cresceu na Penha de França (ah, pois é!), no centro histórico de Lisboa, e que tinha apenas 40 dias quando assistiu, dentro de uma alcofa, ao seu primeiro jogo de futebol, que nos fomos habituando a superar obstáculos intransponíveis. A primeira vitória, ao fim de 37 anos, na Dinamarca, com um golo de Cristiano Ronaldo ao quinto minuto de descontos. O primeiro triunfo, após 42 anos, à Argentina, graças a um tento de Raphaël Guerreiro em tempo de compensação. Ou o êxito ante a Itália, quebrando um jejum de 38 anos sem sucessos, com um golo de Éder.

Ao 14º jogo consecutivo sem perder, um novo recorde para uma seleção que nunca tinha estado mais de seis partidas oficiais invicta, ganhámos à França — algo que nunca tinha acontecido em jogos oficiais ao longo de toda a gloriosa história da Seleção das quinas — e vencemos pela primeira vez uma grande competição internacional de seleções no escalão sénior. Juntemos a isto o sofrimento de ver cair o nosso melhor jogador — Cristiano Ronaldo — nos minutos iniciais do jogo, com a inevitabilidade da substituição e do choro convulso, enquanto o Stade de France era sobrevoado por traças que pareciam borboletas.

Houve um espírito coletivo descomunal, uma solidariedade e uma capacidade de sofrimento magnânimas que não nos fizeram soçobrar perante as adversidades. Até CR7, ao pé-coxinho, assumiu o papel de adjunto de Fernando Santos e gritou incessantemente para dentro do relvado. Houve dedo — o que significa cérebro — do treinador, a fazer a alteração estrutural perfeita — do 1x4x4x2 para o 1x4x1x4x1 — no momento certo e a tomar boas decisões no momento das substituições, como atestam, além da ‘obrigatória’ entrada de Quaresma, a aposta em João Moutinho, que ofereceu mais critério à construção, e em Éder, que permitiu deslocar Nani para os corredores laterais e João Mário para o corredor central, oferecendo uma referência para um futebol mais direto que nos permitisse segurar o jogo em zonas distantes da nossa baliza ou esticá-lo sempre que houvesse espaço para o fazer. Houve também um Rui Patrício descomunal quando foi preciso, a segurar com todas as forças o nulo, e o ‘golo’ de Gignac, ao cair do pano sobre o tempo regulamentar, que foi travado pelo poste. Mas também vimos a França, durante quase todo o jogo agarrada aos esticões de um demolidor Sissoko, dar um estouro — mental e físico — rotundo no prolongamento, período em que Raphaël Guerreiro, português nascido em França, enviou uma bola ao ferro na sequência de um livro direto. Éder, tão bem definido pelo príncipe Rui Costa como o “trombador de defesas”, dada a quantidade de duelos que conquistou aos defesas-centrais adversários, estava em campo há 30 minutos quando desferiu o remate que nos garantiu um lugar na eternidade. Foi, ainda longe da baliza, com seis adversários à sua volta, que o ‘patinho feio’ que já tinha sido tratado por ‘pino’, após somar 13 minutos inconsequentes como referência ofensiva diante da Islândia e da Áustria, mostrou que no futebol, como no amor, o mais importante é nunca termos medo de disparar. Gooolooooooooooooooooo!!! Seguiram-se 13 minutos longos de sofrimento até ouvirmos o apito final do inglês Mark Clattenburg. Já ninguém nos tirava o título europeu e a primeira presença na Taça das Confederações (no próximo verão, na Rússia), o prelúdio do Mundial-2018. A bola tinha sido transvertida em poema e podia, enfim, circular livremente.