Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Rui Jorge telefonou a 57 jogadores para chegar aos 18 que convocou para os Jogos

  • 333

Matej Divizna/ Getty Images

O selecionador nacional falou aos jornalistas sobre as dificuldades que encontrou para tentar formar um grupo para disputar as olímpiadas do Rio de Janeiro. A palavra “surreal” continua a fazer sentido

1. O homem desiludido

Na conferência de imprensa em que anunciou a convocatória, Rui Jorge falou de um momento “surreal” na vida de treinador. Só 11 dos jogadores que estavam na sua lista de 35 se revelaram aptos para representar a seleção nacional nos Jogos Olímpicos. A FIFA não considera que o torneio de futebol dos JO faça parte do calendário internacional, o que deixa a decisão na mão dos clubes.

“Nada do que aconteça agora vai passar uma esponja sobre o que aconteceu antes. Este é um grupo do qual não conhecemos a maioria. Se eu estou desiludido? Há uns dias atrás, estaria. É que, quando nós iniciámos esta caminhada para os JO, tínhamos uma vontade enorme, de fazer uma boa figura - e isso era possível. Porque este grupo só tivera uma derrota, numa final do Euro sub-21, nos penáltis. Num determinado momento, fomos impossibilitados se seguir esse caminho. Esta é a desilusão de alguém que esteve a preparar uma coisa durante dois anos. Estamos há muitos meses a tentar sensibilizar os clubes para esta situação. Quero que fique bem claro: eu percebo a posição dos clubes e, não, não considero uma vergonha. Compreendo a posição dos clubes se for esta a forma como olhamos para a lei. Se está dentro da lei, entendo a decisão dos clubes. Se um jogador é quarta opção e mesmo assim o clube entende que ele deve ficar, eu entendo a posição do clube. Se estivesse do outro lado, eventualmente pensaria da mesma forma.”

2. O “caso” Nuno Santos

Nuno Santos, jogador do Vitória de Setúbal, foi um dos jogadores convocados por Rui Jorge. Estava tudo acordado entre o clube e a Federação, mas Nuno Santos preferiu não seguir para o Rio de Janeiro.

“Falou comigo que não se sentia em condições, preferia continuar. Foi claramente uma decisão pessoal e procurámos encontrar um substituto. Foi o que fizemos. Eu já fui jogador [participou nos JO de Atalanta, em 1996] e acho que este é um momento do qual não se abdica. Ele lá terá as suas razões. Eu não faria a mesma coisa. Agora, eu gosto do Nuno, a sério. Alías, gosto de todos os miúdos. Houve uma abertura total do Setúbal e do José Couceiro, o treinador, para que o Nuno Santos viesse. Se o vou voltar a convocar? Não dou uma resposta definitiva. Os meus jogadores sabem que todos os momentos são momentos de avaliação: no restaurante estão a ser avaliados, no avião estão a ser avaliados. Tenho uma ideia quanto ao Nuno. Isto é algo que vai interferir na minha decisão futura.

3. E o “caso” Salvador Agra

Em entrevista ao “Record”, Manuel Machado, treinador do Nacional, disse que Rui Jorge teria ultrapassado o bom senso para convencer Salvador Agra a representar a seleção nacional nos Jogos Olímpicos.

“Tenho em muito boa conta o professor Manuel Machado e parte do que ele diz é verdade. Para mim, o que fiz é uma coisa normal; no Nacional, encararam como menos normal. Falei com o jogador, mas antes falei com o professor Manuel Machado. Mais tarde fui contactado por uma pessoa da direção que me disse que à partida não libertariam o jogador. E eu, então, disse ao Salvador para usar os seus argumentos para tentar convencer os diretores e ele lá se conseguiu libertar. Os argumentos que ele utilizou? Não sei. Nunca diria para usar argumentos menos corretos. Fiz isso com o Salvador como fiz com outros jogadores.”

4. Como se motivam as segundas escolhas

Se grande parte dos que estão não eram para ser convocados, como se motivam futebolistas que se sentem segundas ou terceiras escolhas do treinador? Rui Jorge faz contas.

“Como? Com a verdade. Temos de ser práticos. Um dos itens principais para a convocatória é a inteligência do jogador. E se faço uma lista de 35 e esse jogador não está nessa lista e aparece posteriormente, ele sabe que não é uma primeira escolha minha. Mas da mesma forma que sabe que há um ou dois ou até três à frente dele, também tem de perceber que atrás dele estarão vinte ou trinta. Sinto uma paixão enorme nos que cá estão e eles não deixam de fazer parte de uma certa elite; fazem parte do quarto grupo a participar nos Jogos Olímpicos. Devem desfrutar isso”.

5. O objetivo

Rui Jorge é um tipo realista. Sabe que os futebolistas que tem consigo não lhe dão as mesmas garantias do que os outros com os quais andou dois anos a lutar por um objetivo que lhe pareceu possível. Agora, deixou de o ser.

“Claramente, se eu tivesse aqueles 35, acreditava que ia mais forte. A partir do momento em que tenho apenas 11 jogadores dessa lista, não estou mais forte do que estava antes. Mas, enfim, estes não deixam de ser jogadores de seleção. Não sei o que vamos fazer, mas garanto empenhamento. Não vou falar de falhanços se falharmos a fase de grupos; o falhanço medir-se-á pelo comportamento e não pelos resultados. Mas, ainda assim, a pressão vai existir sempre, porque estamos a representar o país numa grande competição. É natural que as expetativas sejam menores, mas a pressão continuará sempre do lado dos jogadores. Eles querem provar que a minha lista de 35 estava errada. Querem demonstrar que têm capacidade para estarem ali

6. O pedinchão

Lembram-se da palavras surreal? Pois bem, Rui Jorge explicou-nos um bocadinho mais sobre o que entende por surreal.

“Eu não mudaria nada do que fiz para tentar ter os jogadores que queria. É verdade que suplicámos por alguns jogadores, mas eu voltaria a suplicar. Surreal é tudo isto: as conversas que tive com os treinadores, a forma como um selecionador começa a pedir aos colegas para lhe darem uma equipa mais competitiva, os telefonemas para aqui e para acolá… Abordámos 57 jogadores para um grupo de 18, por telefone, com alguns telefonemas repetidos. Houve casos em que falei primeiro com o jogador e depois com o treinador. E houve casos em que falei primeiro com o treinador e depois com o jogador. Por exemplo, no caso do Tiago Silva, que ia para o Feirense, liguei ao José Mota a pedir-lhe o Tiago e ele disse-me que ainda não o tinha no clube, que estava a viajar para lá. Eu não estava habituado a viver uma convocatória desta forma. Terá valido a pena? Sim, valeu a pena. Fizemos tudo o que podíamos ter feito para termos os melhores jogadores. Estou de consciência tranquila.

7. O sargentão?

Há torneios e o torneio olímpico. No Rio de Janeiro, não há um hotel para concentrações, mas uma Aldeia Olímpica, grande e espaçosa, em que cada cantinho convida a uma facada no profissionalismo. Rui Jorge diz que não vai fazer de polícia.

“A Aldeia Olímpica pode originar algumas confusões [risos]. Vamos para uma realidade completamente diferente, em que os jogadores podem comer o que quiserem. Ouvi dizer que aquilo era grande e o controlo tem de partir do próprio jogador. Se eu disser ‘Não comem bolo’ eles não comem bolo ou, pelo menos, estarão mais próximos de não comer um bolo. Eles sabem o que gostamos e não gostamos e eu acredito que o jogador tenta fazer o que o treinador gosta. Mais vale a prevenção do que ser sargentão.