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Como um lobo numa kitchenette é provavelmente a imagem fundamental para entender o penálti

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Bob Thomas/Getty Images

Disputa de penáltis na reta final do Euro abriu espaço para discussão sobre artesãos das vitórias e culpados das derrotas (este texto foi escrito antes daquele remate do Éder que nos comoveu, antes de o Ronaldo ficar parado no ar enquanto os galeses observavam em terra; foi publicado na edição impressa do Expresso do fim de semana, vinha sob o título “A angústia do penálti” e foi escrito a propósito daquela tragédia feliz em que nos envolvemos com os polacos e por isso já leva uns dias - mas é tão bom e tão inovador nas metáforas que temos de convidar o mundo inteiro a entender como é que um lobo numa kitchenette é provavelmente a imagem fundamental para entender o que é um penálti)

Por Plínio Fraga

Em cada oito lances livres que cobra, LeBron James erra dois. Foi o melhor jogador da mais recente temporada da NBA, a fantástica liga de basquetebol norte-americana. Nas 13 edições que disputou desde 2003, LeBron James arremessou 8221 vezes da linha de lance livre e acertou no cesto 6116 vezes — uma média excelente de 73,1%. A linha do arremesso fica a 4,6 metros da tabela. O atleta lança a bola de 37,5 centímetros de diâmetro para um círculo 20% maior do que ela. Ninguém pode incomodar o lançador. É ele contra ele mesmo, porque, como se sabe, o lance livre é o penálti do basquetebol, com a facilidade de não ter um guarda-redes para atrapalhar. Mesmo assim, o melhor jogador de basquetebol do mundo costuma errar pelo menos duas tentativas por jogo.

O penálti no futebol é cobrado a 11 metros de distância da linha de baliza, mais que o dobro da distância da linha de lance livre. Para obter êxito, o batedor tem 18 metros quadrados à sua frente — tamanho de muitos apartamentos de Paris, só para comparar. Cabe ao guarda-redes frustrá-lo, tentando rebater a bola de 68 centímetros de circunferência, que pode ir a mais de 70 quilómetros por hora, a velocidade de um lobo em fuga.

Manuel Neuer, guarda-redes campeão do mundo pela Alemanha, mede 1,93 metros. Com essa altura, para chegar ao extremo da baliza de 7,32 metros, ele leva em média 0,7 segundos. A bola pode chegar à baliza em menos de 0,5 segundos, quase um piscar de olhos. Por isso, Neuer mantém os olhos tão arregalados, não porque os tem azuis.

Lionel Messi, o melhor jogador de futebol do mundo, falha dois penáltis em cada dez que marca. Cristiano Ronaldo, o segundo melhor, falha um em cada dez. Messi desperdiçou um penálti no mês passado. Fez com que a Argentina perdesse a Copa América para o Chile. Foi um acidente de percurso, tornado mais dramático porque pode encerrar a sua carreira no selecionado do país. Não deveria ser assim.

Juntos, Messi e Ronaldo foram à marca de penálti pouco mais de 120 vezes em toda a carreira, menos de 2% das tentativas do astro norte-americano da linha de lance livre. A comparação é clara: Messi e Ronaldo acertam mais penáltis do que LeBron James acerta lances livres.

Assim, os penáltis tendem a ser cruéis sobretudo para os guarda-redes. Resumindo, a vida do guarda-redes é tentar pegar um lobo dentro de uma kitchenette francesa num piscar de olhos.

Essa missão inglória originou um dos melhores títulos da literatura e do cinema mundial: “A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penálti” (“Die Angst des Tormanns beim Elfmeter”). O austríaco Peter Handke publicou em 1970 o seu livro, que foi adaptado para o cinema por Wim Wenders dois anos depois. Digo melhor título porque é uma referência constante nas conversas do futebol e da vida, mas o livro e o filme foram menos consumidos do que a fama que possuem permite concluir. Pouca gente sabe que as obras têm pouco de futebol. O livro tem um pouco mais do que o filme. Handke usa o sentimento de desamparo do guarda-redes apenas como um passe dianteiro na sua intricada trama psicológico-criminal.

Josef Bloch é o guarda-redes de uma equipa da segunda divisão. É expulso após sofrer um golo ilegal e reclamar da injustiça ante o juiz. À noite, ele mata a arrumadora de cinema com a qual saía. Foge para a casa de uma amiga, de onde acompanha a perseguição da polícia ao assassino. É capturado num estádio de futebol. O resumo desportivo se encerra aqui.

Autor fino, Handke descreve com propriedade o medo do guarda-redes diante do penálti. “O guarda-redes procura descobrir qual o canto em que o outro irá chutar. Se o guarda-redes conhece o cobrador, sabe o canto que ele geralmente escolhe. Mas o cobrador, por sua vez, pode muito bem prever o pensamento do guarda-redes. O guarda-redes continua então a refletir e diz para si mesmo que, desta vez, a bola não virá no mesmo canto. Tudo bem, mas... e se o cobrador continua a seguir o raciocínio do guarda-redes e se prepara para chutar no canto habitual? E assim por diante e assim por diante...”

Com tão aflitiva dúvida filosófico-existencial do guarda-redes, esqueça-se a estatística. Os números provam que somos mais felizes do que infelizes na hora do penálti a favor. E mais infelizes do que felizes nos penáltis contra. A cada penálti, no entanto, sofremos mais do que sofrem os guarda-redes. A nós, na assistência, resta-nos torcer. O medo diante do penálti é nosso.

Cada um se apega à sua forma própria de contribuir para que o penálti a favor seja convertido ou para que o penálti contrário fracasse. Uns repetem as meias, outros as roupas íntimas. Há quem tome como talismã tampinhas de cerveja ou fios de cabelos da amada que já os deixou. Há quem prefira ficar de costas para a cobrança e ler nas expressões alheias o resultado da penalidade, como o guarda-redes italiano Buffon e uma dúzia de supersticiosos que conheço.

Buffon fica de costas nas cobranças da própria equipa, lembre-se. O guarda-redes Fidel Mondragón, do Isidro Metapán, de El Salvador, foi mais radical na partida final da liga do seu país, em 2015, contra o Águila. O jogo terminou 0-0 no tempo regulamentar, e a decisão foi para as penalidades. No momento em que um dos adversários ia marcar, Mondragón virou-se de costas para distrair o jogador e logo depois voltou a virar-se. Defendeu o remate. Por causa ou apesar de Mondragón, o Isidro Metapán venceu por 3-2 nos penáltis e sagrou-se campeão salvadorenho.

De costas ou caído no chão, guarda-redes não é uma posição confortável. A de fanático também não. Quantos adeptos estavam confortáveis na poltrona no momento em que assistiram na semana passada Portugal confrontar-se nos penáltis contra a Polónia no Campeonato da Europa? Nenhum, aposto. As sete primeiras cobranças das duas equipes foram perfeitas. O lobo passeou pela kitchenette sem ser incomodado. Deu a lógica nas cobranças de Cristiano Ronaldo, Renato Sanches, João Moutinho e Nani.

Então chegou o momento de Kuba, um dos destaques da Polónia. Desculpem-me admitir, caros portugueses, mas eu torcia para que marcasse. Não queria a derrota de Portugal, claro. Só não queria testemunhar Kuba falhar. Não deve ser fácil chamar-se Jakub Blaszczykowski, mas muito mais difícil foi a sua vida enquanto criança. Quando tinha 10 anos, viu a mãe ser assassinada à facada pelo próprio pai durante uma briga doméstica em Cracóvia. O pai, um alcoólatra, passou 15 anos na cadeia por causa do crime. Kuba só o voltou a ver no seu enterro. Já por demais sofrera.

Claro que Kuba não pensava em nada disso quando correu para a bola. Seguiu uma trajetória curva, passando da esquerda para a direita antes de atingir a bola com o lado interno do pé direito. O ombro esquerdo estava mais alto do que o direito quando fez o remate. Kuba tornou-se culpado pela derrota da Polónia.

Não sei se Rui Patrício leu estudo desenvolvido na Universidade de Greenwich (Inglaterra) que assegura que o guarda-redes pode prever a direção da bola na cobrança do penálti se observar o ângulo dos ombros e da perna de apoio do batedor em relação ao chão. O corpo de Kuba indicara que lançaria a bola para o canto esquerdo de Rui Patrício, que deu um ligeiro passo à frente e saltou magistralmente. Espalmou a bola com a mão esquerda, naqueles instantes salpicados de flashes aflitos dos fotógrafos atrás da baliza (“Os fotógrafos se ajoelham com reverência para imortalizar o guarda-redes em pleno salto espetacular”, escreveu Nabokov, que foi guarda-redes antes de se tornar escritor).

Momento. Rui Patrício defende a quarta grande penalidade da Polónia, abrindo caminho para Portugal passar às meias-finais

Momento. Rui Patrício defende a quarta grande penalidade da Polónia, abrindo caminho para Portugal passar às meias-finais

foto Laurence Griffiths/Getty Images

Certamente não foi o dia mais triste na vida de Kuba. Aquilo foi só futebol, as tristezas verdadeiras doem mais profundamente, como ele bem sabe. Quando Quaresma fez o golo que classificou Portugal para as meias-finais do Euro, vi amigos portugueses abraçarem-se, num bar de Ipanema, numa felicidade verdadeira e profunda, com aquela energia irmanada do pertencimento a um país que os formou, orientou e se dizia presente mesmo a um oceano de distância. Aquilo não podia ser só futebol. Era a escola da vida por meio do futebol, como queria Albert Camus. “Foi no futebol que aprendi que a bola nunca chega onde você acredita que vai chegar. Isso me serviu na vida e especialmente na cidade grande para não quebrar o pescoço”, dizia.

O guarda-redes é o estrangeiro entre os jogadores de futebol. Não foi à toa, pois então, que o escritor argelino optou pela posição — a que menos desgastava os sapatos, quesito primeiro na vida de uma criança pobre. O intelectual redimiu as nossas caras de parvos ao assistir a uma partida quando disse que “o futebol é a inteligência em movimento”. Em artigo de 1957 para a revista “France Football”, Camus escreveu a sua frase mais famosa sobre o desporto: “Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.”

Não se iluda que se trata apenas de uma hipérbole literária de Camus. O amor ao futebol antecipa até o futuro. Escrevo dias antes de saber se Portugal triunfou ou naufragou na meia-final do Euro. O leitor já sabe quem terá chegado à final e sorri deste profeta de acontecimentos passados. Mas certezas não se destroem tão facilmente. O leitor tem a vantagem de saber o resultado, mas o autor sabe de antemão quem terá sido o responsável pela vitória ou pela derrota, porque carrega consigo um livro ensebado do escritor brasileiro Nelson Rodrigues, que nunca foi desmentido pela objetividade idiota: “Amigos, eis a verdade eterna do futebol: o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar, e falham vinte, trinta vezes num único jogo. Só o arqueiro tem de ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol e, numa palavra, a derrota.”

Não sei se Rui Patrício leu “A Pátria em Chuteiras”, de Nelson Rodrigues. Espero que não. É muita responsabilidade a pesar nos ombros. É mais fácil pegar um lobo à unha.

texto publicado na edição de 9 de julho da E, a revista do Expresso