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“Aturo um filho da mãe 100 anos se ele for útil ao Sporting”

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josé carlos carvalho

Detesta o vermelho, não gosta muito de certos empresários e adorava que os ‘leões’ tivessem sido campeões (e só não foram por alguns “azares que outros não tiveram”). Acredita que a rapidez é a chave para o sucesso e que Luís Filipe Vieira está obcecado com o Sporting. Um presidente ao ataque

Pedro Candeias

Pedro Candeias

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Coordenador

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Encontramo-lo minutos depois de ter falado aos jornalistas sobre as obras que estão programadas para o centro de estágio de Alcochete. Tinha almoçado uma salada e uma sopa, porque a dieta a isso obriga, e dissertado em off sobre os prós e os contras de ser uma figura pública que o próprio reconhece ser polémica. Nesta entrevista, Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, garante que o Facebook é uma ferramenta para se fazer ouvir, que o futebol também é uma guerra pelo controlo da arbitragem e da comunicação e que... o Benfica controla a comunicação social e a arbitragem.

De onde veio e o que fazia antes de ser presidente do Sporting?
Bom, sendo muito rápido, nasci em Moçambique, em 1972, e vim com 2 anos para Portugal. Sempre fui uma criança com muita vontade de fazer coisas. Agora chama-se empreendedorismo, na altura chamava-se bicho-carpinteiro. Acabei por ir parar a uma empresa do Porto da área da construção que estava a abrir a sua filial em Lisboa. Era fraquinho em trabalhos manuais, mas criei uma relação com os fornecedores — a certa altura, quando nos dedicamos às coisas, acabamos por aprendê-las e por fazê-las bem. Depois, decidi sair dali e comecei a receber uma série de telefonemas dos fornecedores a pedirem-me para ficar, que me dariam as mesmas condições. E criou-se algo que foi interessante, uma oportunidade que aproveitei. Acabei por estar com essa empresa cerca de 20 anos, mas nunca me preencheu. Eu quis ser muita coisa: jornalista, ir para marketing e para gestão, publicidade, e acabei por me ver metido na construção. Quis diversificar, porque era todos os dias argamassa e tijolo e betão. Foi então que abri uma empresa de obras de interior e, depois, uma de carpintaria. Por fim, abri uma empresa de construção. Depois, outra de contabilidade e seguros e uma de webdesign. E ainda tive a ideia de criar uma espécie de spa com a minha irmã. Tive algumas empresas, de facto. Mas encerrei a de webdesign quando as pessoas tiveram propostas da Auchan. E a de contabilidade fechei por divergências. A do spa nunca saiu do papel.

A construção dava-lhe bom dinheiro?
Disso não tenho dúvida nenhuma. A empresa de construção fez os prédios da Quinta do Lambert. Felizmente, estas empresas deram-me a independência financeira. Consegui fazer duas coisas de que me orgulho — convidei o meu pai e a minha mãe para trabalharem comigo.

No meio de tanta coisa, e se tinha tanto sucesso profissional como diz, o que é que o leva a abdicar de tudo para tentar ser presidente do Sporting? Foi por carolice?
Tinha esse sonho e, quando surgiu a oportunidade, não pensei duas vezes. Não me estava a identificar minimamente com o que estava a fazer, não gostava do que fazia, já tinha tirado Gestão Desportiva e queria que a minha vida fosse para outro lado. A ideia não era ir tão cedo para a presidência, mas calhou. Envolvi-me com a secção de hóquei em patins, que era independente, para perceber o que se passava, e também tinha vivido as claques por dentro. A história de levar a sandes no bolso e dormir no chão porque não há dinheiro nem para o hotel nem para os transportes foi muito importante.

A situação está regularizada? Dessas empresas que fala e que fecharam...
Há processos a decorrer que têm a ver com o facto de não terem sido marcados os julgamentos. Durmo perfeitamente descansado, e a única coisa de que tenho pena — enquanto cidadão, porque percebo o que é a vida das pessoas — é estar anos e anos com situações penduradas. O meu problema tem a ver com faturas de IVA e de IRC. Com o IVA, só se pode fazer alguma coisa com documentação, o que significa que se uma empresa não emite uma fatura não pode de todo entrar nas contas do IVA. Com o IRC já é diferente... Com o IRC basta comprovar o custo. Não tem nada a ver com falências, porque quando chegarmos ao final, se fizermos bem as contas, eu ainda tenho IVA a receber. O tribunal deu-me razão, mas já passaram oito anos.

Chegou a presidente do Sporting e teve um primeiro ano excecional. No ano seguinte esperava-se que desse o passo seguinte, mas as coisas não correram bem com Marco Silva. Porquê?
Existe um acordo de confidencialidade entre o Sporting e o treinador e até hoje nenhuma das partes quebrou esse acordo. Portanto, não irei ser eu a fazê-lo. A única coisa que posso responder sobre isso é que não me esquecerei, como não me posso esquecer que ele foi o treinador que nos ganhou uma Taça de Portugal.

E o acordo de confidencialidade também abrange aquilo que o presidente Bruno de Carvalho possa achar sobre as qualidades técnicas do treinador Marco Silva?
Sim.

Não pode falar sobre isso?
Não.

Tem um acordo de confidencialidade bem armadilhado...
É, de facto é.

Quando é que lhe passou pela primeira vez pela cabeça que podia ir buscar Jorge Jesus? Isso foi assim tão de repente como se diz que foi?
Foi. Gosto de estar atento ao que se passa à minha volta e houve uma certa altura em que me chegou a informação de que o Benfica não queria ficar com o Jesus. Aliás, na vida, as coisas que são muito rápidas são as que têm mais sucesso. Estou com a minha mulher há dez anos e devemos ter começado a namorar para aí um dia depois de nos conhecermos.

E quando a pediu em casamento foi também muito rápido?
Bom, eu já disse várias vezes que ela é que manda, e ela é mais cuidadosa. Vivemos juntos durante um tempo e casámo-nos depois. Mas eu acredito muito nas coisas que são genuínas, sinceras, rápidas. Soube que o Benfica não queria renovar com o Jorge Jesus e arranjei imediatamente uma forma de falar com ele.

Diretamente?
Diretamente.

Cara a cara?
Sim, em dois dias chegámos a acordo, e é assim que eu gosto das coisas. Com o Jorge Jesus aconteceu exatamente assim. Foi uma empatia muito forte. Percebemos claramente que havia muitos pontos em comum, um grau de exigência tremendo, um grau de ambição tremendo e uma visão sobre a necessidade que o Sporting tinha de dar um pulo qualitativo.

Qual é o balanço que faz deste ano?
O nosso objetivo era claro: sermos campeões. Sabíamos que tínhamos um gap muito grande perante os nossos rivais, mas foram seis dérbis e cinco vitórias. Acho que este ano merecíamos ter sido campeões.

O que é que correu mal? O Sporting, a determinada altura, tinha uma vantagem expressiva. Cinco pontos e não oito pontos, como muitas vezes se disse... O que é que acabou por correr mal?
Tivemos alguns azares em certas decisões e outras equipas não tiveram esses azares.

Decisões dos jogadores durante os jogos ou decisões...?
[interrompe] De ambas.

Está a falar da arbitragem?
Estou a falar de decisões que nem têm muito a ver com os jogos do Sporting. Na contabilidade dos erros a favor e contra o Sporting, acho que a coisa até ficou equilibrada. Agora, em jogos de outros clubes não se passou assim. Nós tivemos azares, jogos com 50 remates em que não conseguimos concretizar — e depois houve jogos de outras equipas em que aquilo estava difícil mas decidia-se marcar um penálti a favor.

josé carlos carvalho

Concluindo, acha então que o Benfica foi campeão com algum benefício das arbitragens?
Acho que o Benfica tem uma boa equipa. Acho que o Sporting acaba o campeonato numa forma tremenda e a praticar o melhor futebol. Agora, houve critérios diferentes nos cartões vermelhos e nos penáltis. E o resultado final, em termos de classificação, teria sido diferente.

Para completar este tema da arbitragem, acha que é possível um clube controlar a arbitragem?
Não lhe posso dizer como é que se controla a arbitragem, mas posso dizer-lhe como é fácil perder o controlo na arbitragem. Coisas muito simples como: quais são os critérios de nomeação? Porque é que os critérios de nomeação não são conhecidos e percebidos? Quais são os critérios de avaliação? Quais são os critérios para a escolha dos observadores? Porque é que os critérios dos observadores não são conhecidos e percebidos? Porque é que não se sabe quem são os observadores? Toda esta opacidade cria suspeição. Como é que um árbitro [Marco Ferreira] vai arbitrar a final de uma competição com a importância da Taça de Portugal? Isto é um bocado brincar com uma coisa que é séria. Estamos a falar de clubes que têm investimentos ao nível de multinacionais. Dizem que eu sou a causa de todos os males do futebol... O Blatter — e você dir-me-á que não tem credibilidade — diz que há bolas quentes e bolas frias nos sorteios. Claro que há. E claro que se diz que se controla a arbitragem, que há corrupção. Não podemos alterar isso?

Mas há jogos de bastidores?
Vou ser simplista, mas não vou falhar muito. Eu posso dividir o sucesso/insucesso em quatro áreas: 25% treinador, 25% plantel, 25% arbitragem/conselho de disciplina/conselho de justiça e 25% comunicação social.

Onde é que o Sporting perdeu?
No treinador não foi. O plantel foi reconhecido como o melhor. Com esta qualidade, dentro de campo, com estes 50%, quase conseguimos ultrapassar os outros 50%. Mas as coisas estão a mudar, e a mudar de uma forma abrupta. Não há um evento mundial de relevância nem uma transformação que não seja feita de forma abrupta. Aquela história do caminho que se faz caminhando é muito bonita. Filosofia. Afinal, eu tinha razão quando dizia que era preciso uma rutura: por exemplo, ser a favor das tecnologias já é politicamente correto. Errar é humano? Sim, mas vamos imaginar que há um avião a chegar a Lisboa com pessoas de quem nós gostamos lá dentro. Há um erro grosseiro de um controlador aéreo e o avião cai. E eu vou chegar ao pé de si e dizer-lhe: “Errar é humano”...?

É uma comparação drástica.
Sim. Errar é humano, mas por isso é que o ser humano criou tecnologias. Você já tem telemóvel, não comunica por sinais de fumo com a sua família. A tecnologia na arbitragem não resolve tudo, mas resolve os erros grosseiros. Enquanto a arbitragem não for dotada de meios tecnológicos e transparentes, os coitados serão sempre os árbitros. Enquanto houver uma comunicação social que não tenha o mesmo respeito por todos, que não tenha uma subserviência aberrante...

Está a querer dizer-me que a comunicação social é subserviente ao Benfica?
Com certeza. E isso não é jornalismo. Através das notícias, você cria condicionamento.

E o Sporting não condiciona quando fala de arbitragem?
Dê-me exemplos.

Posso dar-lhe alguns de Octávio Machado, que é diretor do Sporting...
Um exemplo meu, diga um exemplo meu.

Mas Octávio é do Sporting.
Sim, mas o que eu disse foi: “Este árbitro é o pior árbitro que já vi.” Isto não é condicionar, não é ter medo. Condicionar é pôr as notas dos árbitros nos jornais. Nós somos um povo com certas características, algumas tremendas, mas nunca vamos perder o estigma de que somos um país que começou com um filho a bater na mãe, independentemente do mérito de Afonso Henriques. Somos manipuláveis e gostamos de estar com os mais fortes.

Então se, como diz, está tudo mal e viciado, como é que se combate isso? Fazendo o mesmo?
A resposta mais fácil seria essa: sim, fazendo o mesmo. Sou católico, mas a história de dar a outra face custa-me um bocadinho, porque Deus criou-nos para termos emoções e capacidade de reação e não para andarmos a levar estalos. Isso é masoquismo. O Sporting não pode ficar impávido e sereno num mundo em que 25% se disputa na comunicação social. Tenho de ter voz.

Daí o Facebook?
Sim.

Tudo foi pensado e nada foi por impulso?
Tudo foi pensado. Podia ter feito coisas muito melhores, mas, entre o deve e o haver, as coisas correram bem. Mas o Facebook é o único canal que o Sporting controla a 100%. E, sim, por vezes já tinha tédio de me ouvir.

Se fica entediado, porque é que escreve?
Timing e estratégia. Denunciar o que está mal. E conseguir passar a mensagem.

Para o ano vai deixar o Facebook?
Só em Portugal é que se acha que o Facebook é uma coisa muito estranha. Vê-se o Obama, presidentes...

Mas nenhum fala nos termos em que você fala...
Sim, mas eu sou genuíno, não preciso de construir uma figura. Quero é que olhem para mim e pensem se sou ou não competente, se vou levar o clube às vitórias ou não. Aquilo que pensam de mim enquanto pessoa... Importa-me o que pensa a minha família. Mas esqueça lá o Facebook, o Facebook não tem interesse nenhum. Eu não me ponho a jeito, as pessoas gostam de criticar-me porque denuncio os vouchers, os amiguismos, etc. O Facebook, nessa guerra, é de crianças. Para o jogo de adultos, o Facebook não conta.

E o que pensa de João Gabriel, diretor de comunicação do Benfica, já que tiveram uma guerra particular nas redes sociais?
Ouça... Cometi erros e tenho de dizer-lhe o seguinte. Já aprendi muito durante estes três anos e nesse tema específico estou de acordo com aquele filósofo, desconhecido, que dizia: “Não vale a pena discutires com um idiota, porque ele vai rebaixar-te ao nível dele e vai ganhar-te pela experiência.”

E o que acha de Luís Filipe Vieira e de Pinto da Costa?
As duas últimas entrevistas de Vieira são taxativas de duas coisas: o mundo é ingrato e o que o Benfica tem sido nos últimos anos deve-o a Jorge Jesus. Luís Filipe Vieira ainda é presidente do Benfica por causa de Jorge Jesus. Ele tem uma obsessão pelo Sporting. Temos esta diferença. Para mim, o Sporting está em primeiro, segundo, terceiro... Em quarto ou quinto, na minha lista de prioridades, estará o Benfica. Acho que a obsessão é uma patologia, e eu não tenho condições para curar patologias. Já Pinto da Costa transformou o FC Porto naquilo que ele é. O Porto, quando eu era criança, era o que menos títulos tinha, e a verdade é que ele transformou o clube, à sua maneira, ao seu estilo. Está na história do FC Porto, e agora as pessoas que façam as análises sobre os métodos.

Também concorda com Jorge Jesus quando diz que Rui Vitória lhe roubou as ideias?
Não tenho pretensão nenhuma e não quero ser treinador, apesar de ter o curso. Já disse antes que me dou bem com Rui Vitória. Estou muito feliz com o que tenho. Estou concentrado no Sporting. Não voltei a falar com Rui Vitória desde que ele foi para o Benfica, mas damo-nos bem.

E dá-se bem com Jorge Mendes?
Pronto. Vou começar pela parte mais simples: não tenho, ao contrário do que as pessoas pensam, nada contra os agentes. Acho é que os agentes têm de ser elementos que adicionem alguma mais-valia. Não podem ser, pura e simplesmente, indivíduos de mão esticada, que complicam, que fazem a cabeça dos jogadores e que põem os jogadores a ter más atitudes com os clubes. Já tive situações de chegar a acordo com o clube — e é assim que a FIFA manda — e, quando o clube me autoriza a falar com o jogador, o agente diz-me que ele agora não vai. Não vai porquê? Porque não fui primeiro ter com ele, que também queria ganhar algum.

Não respondeu à pergunta.
Não tenho relação com Jorge Mendes.

Porquê?
Porque não tenho relação.

Correu alguma coisa mal?
No dia em que deixar de ser uma pessoa normal, no dia em que deixar de ter os pezinhos assentes na terra, achar que sou o Rei Sol, achar que sou o melhor do mundo e que os outros todos não prestam... esse é o dia em que o cidadão Bruno de Carvalho leva o presidente. Pois. Não gosto disso em mim e não gosto disso nos outros. Tirei o curso de gestão. Não tirei o curso de malabarismo. Não sou o David Copperfield, nem gosto do David Copperfield. Felizmente, ensinaram-me a matemática certa. Um mais um são dois. E um mais nove são dez. Ensinaram-me a tabuada. Não gosto de combinar contabilidade e criatividade. Acho que uns devem fazer contabilidade, outros quadros ou esculturas. Pouco me interessa vender um jogador por 300 milhões e entrarem 3 milhões no clube. Ouço que são muitos milhões, milhões, milhões, passaram-lhe 500 mil milhões pela mão, isto e aquilo e aqueloutro... Felicidades. Não vejo nenhum clube em que ele está metido a vingar, mas tudo bem. As pessoas acham que sou um tipo arrogante. Sou um tipo 100% humilde, detesto é a estupidez. Quando há estupidez no meio, sou, de facto, arrogante. Imagine que olhava para si e dizia: vou-lhe dar uma coisa magnífica, um exclusivo, o tipo mais magnífico do mundo para lhe dar uma entrevista, e depois o homem dizia-lhe uma única frase. É um bocado isto que se passa. O maior filho da mãe que eu conheço no mundo, se for útil para o Sporting, eu aturo-o 100 anos, 24 horas por dia. Cem anos! Agora, ser isso tudo e não ajudar o Sporting? [risos] De facto, aí, nem um segundo.

Não acha que houve coisas ditas que são inaceitáveis?
Se englobar os comentadores na televisão, sim. Mas, se reparar, não houve quaisquer problemas em jogos grandes, dérbis ou clássicos. Mas, já agora, diferencio-me dos outros porque não sou cobarde. Dou a cara, não mando dizer. Há pessoas que têm ‘ene’ pessoas que mandam dizer. Há por aí um comentador, que vai à CMTV, que fala num movimento pró-Vieira e ataca-me por isto e por aquilo. Eu não sou o Bruno de Carvalho que tentou ir a votos no Benfica [houve um candidato derrotado por Vieira noutras eleições chamado Bruno de Carvalho]. Sou outro Bruno de Carvalho, presidente do Sporting. E só me preocupo com o futuro do Sporting.

E o que é o futuro do Sporting?
Não precisamos de vender peças nucleares. Estamos a cumprir o fair play financeiro, e ao nível de reestruturação financeira e cash também estamos positivos. E isso suporta o aumento com os custos no plantel. As contas apresentam um resultado negativo, em parte, devido ao processo Doyen, que representa 14 milhões dos 17 milhões de euros de prejuízo nos primeiros nove meses desta época. Se o Sporting tivesse passado à fase de grupos da Champions, isso não se punha. E não sabemos ainda como ficará, de facto, o caso Doyen.

É verdade que o Sporting tem uma cláusula caso o Benfica faça uma revisão do contrato com a NOS? Há uma percentagem?
Não há percentagem. Você acha que o Sporting é uma percentagem seja de quem for? Os outros é que podem ser uma percentagem do Sporting. Se eles fizerem uma revisão, tanto melhor.

Ou seja, se há saúde financeira e se não vende ninguém, o Sporting estará ainda mais forte no ano que vem?
Somos um sério candidato ao título, um seriíssimo candidato. Mostrámos este ano que temos uma dimensão que as pessoas subestimam. Fomos muito consistentes. Em seis jogos com os grandes, ganhámos cinco.

O que lhe passou pela cabeça no golo do Mitroglou?
Foi tudo tão surreal... Só queria chegar a casa e dormir.

O que aconteceu com André Carrillo? Sempre mantém a intenção de o processar?
Isso está com o departamento jurídico. Vamos lá ver uma ou duas coisas. Um atleta é obrigado a renovar? Não. Mas o atleta é obrigado a ser vendido? Não. A verdade dos fatos é que estava tudo acordado para a renovação do contrato e, de repente, o jogador voltou atrás na palavra. Eu não sou de coincidências, se é que me faço entender. Esta história já estava preparada, estruturada.

Foi uma resposta do Benfica a Jorge Jesus?
O Jorge Jesus não saiu de forma abrupta do Benfica, o Benfica é que não o quis. O Carrillo saiu de forma abrupta do Sporting. Em segundo lugar, o Jorge Jesus deu vários títulos ao Benfica, sobretudo títulos nacionais. O Carrillo não me deu nenhum título nacional. Portanto, se foi uma resposta, eu não trocava.

O vermelho entra na sua casa?
Se me está a perguntar se eu gosto da cor, não. Detesto. É uma coisa factual. Não gosto.

E as suas filhas são sportinguistas?
Sou 100% democrata, e elas têm sempre três hipóteses. Elas porque só faço meninas. Têm três hipóteses: ser do Sporting, do Sporting ou do Sporting...

E a sua mulher?
Foi a primeira pergunta que lhe fiz.

Foi a primeira pergunta que lhe fez?
Sim.

josé carlos carvalho

E o que é que ela lhe disse?
Que era do Sporting.

E a partir daí?
Fiquei maravilhado e sentei-me logo à frente dela, que era onde me queria sentar.

Tem amigos do Benfica?
O meu amigo mais antigo, o que tenho há mais anos, é benfiquista.

A sua mulher deixa-o ver futebol em casa ou só vê os jogos de...
Jogos de quê?

Jogos que o Sporting disputa.
Bem, eu não tenho nenhuma sala cheia de plasmas, mas temos televisão na sala, temos televisão em cada um dos quartos. Se ela estiver na sala, posso fugir para o quarto. Se ela estiver no quarto, posso fugir para a sala. E tenho sempre o quarto da minha filha. Agora posso-lhe dizer que 90% do que passa na TV tem a ver com programas infantis. Nós já sabemos quase tudo de cor. Sobretudo ela.

Quais?
Vou dizer-lhe uma coisa, acredite ou não: o filme que ela já deve ter visto 200 vezes e fica absolutamente siderada, mas siderada, e pára sempre para ver é o “Rei Leão”. E agora vai pensar “que coincidência, eh, pá, este homem é só coincidências”, mas com o “Rei Leão” ela fica doida...

Como é a sua vida familiar?
A minha vida normal é ter a família toda à minha espera. Terem feito de propósito um prato que eu adoro e chegar tarde.

Qual é o prato?
Bife Wellington. Eu cheguei era meia-noite e meia, comi e já toda a gente se tinha ido embora. Não são equilíbrios fáceis. Não posso ir ao parque com a minha filha mais velha passear porque nunca sei o que vai acontecer. As pessoas não distinguem a vida privada da do presidente do Sporting. Sei lá o que me podem dizer. Nós somos pessoas de carne e osso, somos pais, filhos, e eu já estou farto de dizer isto, somos maridos, e às vezes tratam as pessoas, as chamadas figuras públicas, e os presidentes dos clubes como se fossem uma realidade virtual. Eu alimento a minha família daqui.

Quanto é que ganha?
Ganho 10 mil euros brutos.

Última pergunta: perdeu quantos quilos?
É mais do que público que estou no Tallon. Mas vou dizer-lhe uma coisa: não há milagres. A boquinha conta muito. Estive a observar os jornalistas ao almoço e vi que fui o único a comer saladinha e sopinha. E acabei com umas uvinhas. Isto exige muito, muito sacrifício, mas era absolutamente fundamental em termos de saúde, porque cheguei a um ponto onde me doía tudo. Isto era uma mochila de 25 quilos. Imagine-se durante 14 anos com uma mochila de 25 quilos às costas. Tudo na vida é esforço, dedicação e devoção. Mas não se esqueça do que lhe disse há bocado: 50% dentro do campo, 50% fora do campo. E sempre é menos uma coisa que podem escrever nos flyers: já podem tirar o gordo e podem dizer que roubei outra coisa qualquer.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 25 junho 2016