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A luta de Paulo Bento para sair da “marca de penálti” no Cruzeiro

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Pedro Vilela / Getty Images

Escassos dias depois de aterrar em Belo Horizonte, já a capacidade de Paulo Bento para recolocar o Cruzeiro nos dias de glória era posta em causa. Campeão brasileiro em 2014, o clube mineiro vive tempos difíceis, com um plantel “pó de arroz” onde a juventude impera. Mas o treinador acredita que com tranquilidade e trabalho será possível chegar a bom porto

Paulo Luís de Castro, com Plínio Fraga, correspondente do Expresso no Brasil

Não está fácil a vida de Paulo Bento à frente do Cruzeiro Esporte Clube. Contratado em meados de maio para trazer à ribalta um dos maiores clubes de futebol do Brasil, em nove jogos realizados sob o seu comando a equipa de Belo Horizonte regista três vitórias, dois empates e quatro derrotas e segue posicionada na metade inferior da tabela do Brasileirão. A goleada obtida na noite desta quarta-feira sobre o Ponte Preta (0-4) terá safado o treinador português do despedimento iminente, uma vez que antes da deslocação a Campinas a equipa ocupava o 20.º e último posto do Brasileirão e nos media já se dizia que Bento se encontrava “na marca de penálti”.

O horizonte pode estar um pouco mais desanuviado mas a verdade é que tem sido tudo menos tranquila (para usar um adjetivo que lhe é muito querido) esta primeira aventura estrangeira de Paulo Bento, cuja aterragem na capital do estado de Minas Gerais pôs termo a um período sabático que já durava há mais de um ano, depois de acordar com a FPF a sua saída do cargo de selecionador nacional.

O antigo treinador do Sporting foi contactado pelo Cruzeiro logo depois da 1ª jornada do campeonato brasileiro, onde o clube ainda orientado por Geraldo Delamore entrou a perder (1-0 na deslocação ao terreno do Coritiba). Uma semana depois, a 21 de maio, o português estreou-se com um empate caseiro (2-2) diante o Figueirense. Mas ainda antes disso já o seu futuro no Brasil e no clube começava a ser questionado.

Nada que Paulo Bento não soubesse antes de zarpar para Belo Horizonte, onde chegou como segunda opção. Ricardo Gomes, atual técnico do Botafogo, era o desejado mas recusou a proposta do Cruzeiro. Foi então que Deco, o ex-portista e internacional português e que agora trabalha como agente, apresentou os nomes de três técnicos portugueses à direção do clube. Bento foi escolhido pelo seu currículo, onde além da passagem pela selecção constam, sempre à frente do Sporting, quatro segundos lugares na I Liga, duas Taças de Portugal e duas Supertaças.

Dois diretores do Cruzeiro viajaram até Lisboa para o conhecer. No jantar de apresentação, o treinador já levava trabalho de casa bem realizado depois de ter visionado três jogos do Cruzeiro em vídeo: na conversa com os interlocutores brasileiros, sentiu-se à vontade para comentar e avaliar o plantel da equipa, jogador a jogador, pormenor que terá sido determinante para ganhar o lugar. O salário acordado foi de 450 mil reais (116 mil euros).

getty

A aposta feita pelo Cruzeiro em Paulo Bento decorre também do facto de no Brasil, presentemente, treinadores brasileiros estarem a ser vistos como ultrapassados no que respeita a táticas e processos de treino. Uma realidade particularmente evidente nos mais recentes resultados da seleção brasileira: depois de falhar em 2014, e na condição de anfitrião, a conquista do sexto título mundial, ainda por cima depois de uma derrota histórica e humilhante (1-7) perante a Alemanha, no início desta semana a “canarinha” foi incapaz de passar a fase de grupos da Copa América que decorre nos Estados Unidos e cuja final se decide este domingo com um Argentina-Chile.

Paulo Bento foi por isso uma aposta na modernização, em especial num clube com um plantel formado por jogadores jovens. Depois de ter conquistado em 2014 o quarto título de campeão brasileiro, o anterior presidente do Cruzeiro Zezé Perrella não foi capaz de manter o plantel e desatou a vender os jogadores de maior mercado, acabando também ele por sair para optar por uma carreira política. A crise depressa se instalou, com o corropio de futebolistas e o “rodízio de treinadores” (cinco nos últimos oito meses), como referiu um jornalista brasileiro numa questão colocada durante uma das primeiras conferências de imprensa realizadas por Bento em Belo Horizonte.

Avisado ao que ia, o treinador tem procurado assumir toda a responsabilidade, libertando os jogadores da pressão colocada pelos media. “Acredito nos meus jogadores e no trabalho de base. Mas as pessoas terão de ter alguma paciência”, disse na sequência da derrota em casa com o Flamengo, que aconteceu logo depois da vitória fora de casa sobre o maior rival, o Atlético Mineiro, e lhe concedeu alguns dias de “folga” no coro de críticas.

A relação entre o português e os jornalistas também não tem sido pacífica. No início deste mês, ao cabo do seu quinto jogo no Cruzeiro e de uma derrota caseira diante o São Paulo, na conferência de imprensa Paulo Bento envolveu-se numa troca de palavras com um jornalista. Tudo por causa da utilização de William como avançado, que segundo o autor da pergunta não era avançado “nem nunca foi”. O treinador não se ficou, respondeu que quem manda na equipa é ele, mas o jornalista voltou à carga e disse que tinha jogado futebol. “Curioso, que eu também… Por isso, você fica com a sua estranheza e eu fico com as minhas ideias”, disse-lhe Bento.

As notícias do divórcio iminente começaram a surgir com mais intensidade depois da derrota no passado domingo no terreno do Grémio de Porto Alegre, que Bento admitiu ter sido a pior exibição da equipa desde a sua chegada. “Para dizer o que faltou, teria de enumerar uma lista demasiadamente extensa para poder justificar a nossa atuação. Creio que faltou praticamente tudo”, disse em declarações publicadas no site do Cruzeiro.

Lá como cá, a discussão faz-se também nas redes sociais, e se muitos exigem a saída de Bento, outros alinham com ele e reconhecem que o português faz o que pode. “O time é muito fraco, tudo pó de arroz”, escreveu um deles numa rede social.

Com Paulo Bento colocado “na marca do penálti” pelos media brasileiros e segundo estes em vias de ser substituído por Mano Menezes (um dos mais credenciados técnicos brasileiros, antigo selecionador da “canarinha” e atualmente livre depois de terminar o seu vínculo com os chineses do Shandong Luneng), o Cruzeiro desmentiu esse desfecho em comunicado e também que o português já se tivesse despedido dos jogadores: “O Cruzeiro Esporte Clube lamenta que notícias como essa, sem nenhum fundamento, ocupem espaços na mídia, trazendo desconforto aos funcionários, atletas, comissão técnica e diretores do Clube. Também não é verdadeira a notícia de que o Cruzeiro teria procurado qualquer outro profissional para assumir o cargo de técnico da nossa equipe. Qualquer notícia veiculada nesse sentido não passa de mera especulação falaciosa.”

antónio pedro ferreira

A goleada desta quarta-feira veio no melhor momento e garente alguns dias de sossego ao treinador de 47 anos. “Foi uma vitória exclusivamente dos jogadores, que tiveram de lutar para inverter uma situação que não era fácil e continua a não ser, apesar desta vitória por 4-0. Vínhamos de um jogo em que pouco conseguimos, em Porto Alegre, e em menos de 72 horas demos uma resposta extraordinária”, disse.

Com estes três pontos somados, o Cruzeiro deixou de ser “lanterna vermelha” e de ocupar um dos quatro lugares que levam à despromoção: é, para já, 15.º classificado, com 11 pontos somados em 30 possíveis. Mas este sábado tem pela frente um adversário de peso, o atual líder Palmeiras, que se apresentará no Mineirão com um registo de quatro vitórias e um empate nos últimos cinco jogos. Uma derrota e outros resultados negativos podem fazer com que Paulo Bento não tenha tempo para se adaptar ao futebol brasileiro, cujo campeonato com 20 equipas e 38 jornadas decorre em apenas sete meses (contra os dez da Europa), obrigando a um ritmo intenso de jogos e viagens. Ou seja, quase não há tempo para treinar, precisamente o que Paulo Bento mais desejaria ter neste momento.