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Shprygin, o russo ultra que a França teve de expulsar (e que voltou à socapa)

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Alexander Shprygin, o dirigente da associação dos adeptos russos que a França decidiu expulsar conjuntamente com outros 19 ultras, voltou incógnito a França e esteve esta segunda-feira no estádio onde a seleção do seu país sofreu a terceira derrota no Euro 2016. O Expresso republica um perfil deste homem que defende que “o nazismo evoluiu para o nacionalismo e não há mal nenhum nisso”. O pior é que conta com clara conivência dos responsáveis políticos do seu país

Alexander Shprygin, o dirigente da associação dos adeptos russos que a França decidiu expulsar conjuntamente com outros 19 ultras, voltou a França e ao Euro 2016. A prova está numa imagem publicada pelo próprio no Twitter, onde se deixa fotografar no exterior do estádio de Toulouse, onde esta segunda-feira se realizou a partida País de Gales-Rússia.

Shprygin foi um dos 20 adeptos russos deportados para Moscovo na semana passada, acusados pelas autoridades francesas de envolvimento nos confrontos com extrema violência antes do jogo Inglaterra-Rússia, em Marselha. Na sua conta no Twitter, Shprygin refere que reentrou em França por uma "estrada secundária e a coberto da noite”.

Mas quem é Alexander Shprygin? Neste caso as imagens valem por vários milhares de palavras, porque é de várias fotografias que estamos a falar. Numa delas, ele surge a fazer a saudação nazi, durante um concerto dos Korrozia Metalla, conhecida banda de rock russa de extrema direita; noutra a segurar uma Kalashnikov; noutras mais recentes junto do presidente Vladimir Putin, que acompanhou no funeral de um adepto russo.

Shprygin, atualmente com 38 anos, explica que não há nada de assustador em relação à primeira imagem. Primeiro porque foi tirada há dez anos, quando era muito mais jovem, segundo porque diz não se tratar de uma verdadeira saudação nazi, que explica ter de ser feita com o braço esticado para a frente. Depois acrescenta: “Atualmente, o nazismo já não existe oficialmente nos estádios. E não está nos estádios em nenhuma outra forma”. Em seguida dá o remate final - a explicação sobre a sua filiação ‘ideológica’: “Evoluiu tudo para o nacionalismo e não há mal nenhum nisso. É a mesma coisa que o patriotismo, porque é amor pela nossa nação, pela nossa terra por exemplo. E, mais do que tudo, eu sou um patriota pelo meu país, e da minha terra mãe”.

Em relação à seleção da sua “terra mãe”, declarou que gostaria de ver por lá “apenas caras eslavas”: “Claro que em 2018, quando a nossa equipa jogar em casa no Mundial e antes do início do jogo o nosso hino nacional tocar e os 11 tipos estiverem orgulhosamente erguidos a cantar, com lágrimas a escorrerem-lhe pelos seus rostos, despertando sentimentos de patriotismo, eu gostaria que esses jogadores tenham rostos eslavos”. Entretanto, no Twitter criticou uma foto da equipa da França por ter “imensas muitas” caras negras.

Apesar de tudo, consta que o seu discurso atual é uma versão moderada daquele que tinha quando em 2007 criou a Associação dos Apoiantes da Rússia. Na década passada esteve detido durante um ano em Moscovo devido a atos de violência. Já este ano foi investigado pela polícia por ter destruído a câmara de um fotojornalista.

Adepto do Dinamo de Moscovo, tem vários negócios no seu país. Terá fretado um avião para ir com adeptos para o Euro de França, seis dos quais nem sequer chegaram a conseguir entrar no país dados os seus antecedentes.

A França decidiu agora expulsá-lo conjuntamente com outros 19 ultras russos, em sequência das cenas de violência que começaram logo em Marselha no passado fim de semana, onde se defrontaram as seleções da Rússia e de Inglaterra. Dos incidentes de sábado resultaram 35 feridos, a maioria dos quais britânicos, um deles em estado grave, mas estável.

Os 20 adeptos que vão ser expulsos do país fazem parte de um grupo de 43 russos detidos na terça-feira. Três outros elementos desse grupo foram também esta quinta-feira condenados a penas de prisão por um tribunal de Marselha. Alexei Erunov, alvo da pena mais elevada, de 24 meses de prisão, Serguei Gorbatchev, punido com ano e meio, e Nikolay Morozov, condenado a um ano de cadeia, ficam posteriormente impedidos de entrar em França durante dois anos. Os restantes 20 serão libertados.

Shprygin – que faz parte do grupo que será extraditados sem ser alvo de acusações - é apontado como um dos grandes promotores do neonazismo junto das claques. A rede Fare, que vigia para a UEFA e para a FIFA comportamentos racistas dos adeptos durante os jogos, diz que ele comanda a rede de grupos de de extrema direita, expressando preocupação pelas ligações políticas a alto nível na Rússia, realçando que a situação especialmente delicada por se tratar do país anfitrião do Mundial de 2018.

Mas o pior é que parece contar com a conivência dos líderes políticos do seu país, cujas declarações têm ido no sentido de desculpar ou mesmo de apoiar os atos de violência de adeptos russos. “Eu não vejo nada de mal no facto de os adeptos a lutarem (…) Muito pelo contrário, boa rapazes, continuem!”, escreveu no domingo no Twitter Igor Lebedev, vice-presidente do parlamento russo, com o qual Shprygin colabora como conselheiro. “Eu não percebo aqueles políticos e responsáveis oficiais que estão a criticar os nossos adeptos. Nós devemos defendê-los e depois resolver o assunto quando eles regressarem a casa”, referiu ainda Lebedev no passado fim de semana, antes das condenações e da decisão das extradições ter sido tomada.

[Texto original publicado no Expresso Diário de 16 de junho de 2016]

  • Russo expulso de França detido em Toulouse

    O russo Alexandre Chpryguine, um dos adeptos expulsos de França no sábado, foi hoje detido em Toulouse, onde decorria o jogo Rússia-País de Gales, do Euro2016 de futebol, disse o ministro francês do Interior, citado pela AFP.