Siga-nos

Perfil

Expresso

Desporto

Nós podíamos ser o País de Gales

  • 333

Dean Mouhtaropoulos

Os galeses ganharam por 3-0 à Rússia com uma receita que conhecemos bem de outros tempos: defender bem, contra-atacar melhor, e a bola num rapaz rápido e musculado e goleador do Real Madrid. Bale fez o terceiro golo do jogo - e o terceiro da sua conta pessoal

Não sei se já repararam naquela equipa que joga de vermelho ou de branco, de um país pequeno que tem o verde e o vermelho na bandeira e cujo número de habitantes - só para usar o jargão económico - é baixo face à média europeia.

Esse mesmo país (se ainda não estão a ver qual é) fica à esquerda de um outro que é muito maior, infinitamente mais poderoso e influente. E esse hectar de terra vive à sombra do grande e na América - ou noutro lugar em que a geografia é um bicho - até os confundem, como se fossem o mesmo, com prejuízo, pois claro, para o primeiro, obrigado a demarcar o território e as fronteiras a cada oportunidade se lhe apresente.

O futebol deu-lhe essa oportunidade.

É que este desporto permite aos pequenos olharem os maiores nos olhos, sobretudo se tiverem do lado deles um jogador que não é só um jogador mas um dos melhores jogadores do planeta. E a natureza, na sua generosidade, quis dotar um rapaz desse país pequeno e periférico que joga de vermelho ou de branco e que tem o verde e o vermelho na bandeira e como vizinho um gigante; e a natureza, dizia eu, quis dotar o tal rapaz com um talento incrível que o levou até ao Real Madrid depois de umas épocas em Inglaterra. E esse tipo que quase que se confunde com o país que o viu nascer (e que vocês já estão a ver qual é), transformou-se num herói nacional, ofuscou outros heróis nacionais do pontapé na bola que a nação já conhecera - e carregou a sua equipa para outro nível competitivo.

Essa seleção, que não é mazinha de todo e tem outros dois ou três futebolistas jeitosos, uniu-se à volta desse extremo/avançado musculado, grande e rápido, inventor de jogadas e de livres diretos - porque com ele, tudo seria mais fácil.

Toda a gente sabe o que esta seleção é e o que vale. E toda a gente sabe qual é a estratégia: defender, defender bem, entregar a bola ao adversário, pôr o matulão là à frente, à solta e à espera de disparar para um contra-ataque ou para um remate com uma barreira à frente. Em qualquer dos cenários, costuma dar golo.

Acontece que o rapaz está num momento de forma incrível neste Europeu. Está na força da idade, tem a pontaria afinada, leva três golos (hoje marcou o terceiro) em três jogos, e põe sempre os adversários em sobressalto sempre que toca na bola. Não fosse este guarda-redes que hoje apanhou pela frente, o craque do Real Madrid teria marcado mais ou teria dado mais a marcar.

Era bom que este país pequeno e periférico fosse o nosso. E era bom que este craque fosse Ronaldo. Mas não é. É o País de Gales. E é Gareth Bale.

Todas as semelhanças são pura coincidência.