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A “formiguinha” portuguesa de nome impronunciável que manda no estádio do Portugal-Islândia

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A POSTOS. Cátia Relíquias Teresa

FOTO MARIANA CABRAL

O Euro a sério para nós, portugueses, começou esta terça-feira, com o resultado que já se sabe. No estádio de Saint-Étienne, uma compatriota preocupou-se com tudo menos com o desilusão final pelo empate. Não há quem atine com o nome dela, mas ela não se importa. Fala português, inglês e francês, mora na Suíça há seis anos, mas está na cidade francesa desde março a preparar tudo o que há a preparar para que o estádio Geoffroy-Guichard estivesse perfeito para o Portugal-Islândia e os outros três jogos que aí vão realizar-se. Mesmo que ela não possa vê-los

Mariana Cabral

Mariana Cabral

Texto, enviada ao Euro 2016

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Infografia

Infografia

Tiago Pereira Santos

Tiago Pereira Santos

Ilustração de capa

Tem de ser devagarinho para todos perceberem: Cá-ti-a Re-lí-qui-as Te-re-sa. Pronto. Não é assim tão difícil. Ou é? “Costuma ser assim: ‘What’s your name again? Rei-li-cui-az? Tei-rei-za? That’s weird. Where do you come from?’” [“Qual é o teu nome outra vez? Que estranho. De onde vens?”], imita a portuguesa Cátia Relíquias Teresa, entre gargalhadas. “Só sabem dizer Cátia. Por isso é que toda a gente me chama Cátia, só assim, não há apelido [risos]. Acham sempre o meu nome muito estranho, mas adoram, é um desbloqueador de conversa fantástico.”

Cátia mora na Suíça há seis anos, mas está em Saint-Étienne desde 31 de março a preparar o estádio Geoffroy-Guichard para os quatros jogos do Euro que a casa do AS Saint-Étienne irá acolher: Portugal-Islândia (1-1), República Checa-Croácia (17 de junho), Eslováquia-Inglaterra (20 de junho) e uma partida dos oitavos de final (25 de junho). “A minha posição é venue logistics coordinator. Em português, significa que sou coordenadora da logística de todo o estádio e das infraestruturas temporárias que estão à volta”, explica.

getty

Fluente em inglês e francês, a emigrante portuguesa foi escolhida por já ter alguma experiência numa área “muito difícil de descrever”, diz, sentada com a farda do Europeu, numa das tendas do Geoffroy-Guichard. “Convenci-me a sair de Portugal para fazer um curso de francês em Genebra, durante o verão, para ver coisas diferentes, e depois concorri a um mestrado em Lausanne, em sports administration and techonology [administração do desporto e tecnologia]. Fui ficando por lá e comecei a trabalhar na SportAccord, que é a associação das federações internacionais do desporto”, explica esta ex-professora de Educação Física, natural de Sintra.

“Tínhamos cerca de 90 federações como membros, entre as quais a FIFA, a federação internacional de ténis de mesa, a de remo, a de voleibol… A UEFA não era nosso membro mas também utilizou os nossos instrumentos. Víamos o que eles precisavam, a nível de responsabilidade social e desenvolvimento da modalidade, e tentávamos fazer de intermediários entre eles e os peritos internacionais”, explica, ressalvando com um brilho nos olhos que adorava o que fazia.

“Trabalhei diretamente com alguém que me marcou muito, Ingrid Butler, que já tinha estado na United Nations Office for Sport for Development and Peace, alguém que conhece muito bem o mundo do desporto e das ONG. Quando entrei ainda estava muito verde, a nível de comunicação a nível internacional, aquilo que se pode dizer ou não, como é que se fala a um presidente…” E como é que se fala com um presidente de uma federação internacional? “Não se fala muitas vezes [risos] Esperas que ele se dirija e ti e que com um bocadinho de sorte se lembre que recebeu um email, a dada altura, com um nome português muito estranho. E depois, com um sorriso, a coisa desenvolve-se”, graceja Cátia.

foto mariana cabral

A portuguesa raramente perde a boa disposição, mesmo quando ficou sem trabalho devido a um incidente diplomático digno de filme. ”O presidente da SportAccord na altura, Marius Vizer, acusou o Comité Olímpico Internacional, numa assembleia-geral em Sochi, de estar ultrapassado. Aquilo não caiu nada bem, porque o mister Bach [Thomas Bach, presidente do Comité] estava na sala, assim como o Putin, que entrou alguns momentos depois, e aí houve alguns membros, como a Federação Internacional de Atletismo, que abandonaram a SportAccord para se dissociarem desse tipo de ideias. O resultado disto tudo foi a demissão do meu presidente e cerca de dois, três meses depois já não havia trabalho nenhum”, conta.

A SportAccord, entretanto, deixou de existir nos mesmos moldes. “Foi uma coisa muito complicada, acabámos por levar por tabela sem ter feito nada. O desporto é um mundo muito político, mais político do que a política”, opina Cátia, que está mesmo na capital do desporto político, por assim dizer. “Há um cluster do desporto internacional em Lausanne, capital olímpica, o que facilita muito nas relações na área e na procura de trabalho. E há a UEFA, ali a dez minutos da minha casa, que também seria um sítio muito simpático para trabalhar [risos] Lá chegaremos, espero eu.”

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Foi lá que Cátia Relíquias começou as sessões de formação, a 29 de março, antes de vir para Saint-Étienne, onde ficará até 3 de julho. E depois... logo se vê. Aos 32 anos, só sabe uma coisa: não voltará para Portugal. “Tenho saudades das minhas pessoas em Portugal, tenho saudades da minha praia, tenho saudades da convivialidade. É possível trabalhar na minha área em Portugal, mas não quero, por enquanto. Tenho muito para ver e aprender lá fora e se um dia puder contribuir para Portugal quando voltar, com muito gosto. Mas não agora, ainda não é hora.”

Ainda para mais, Cátia gosta de viver na “calma” Suíça. “É muito organizada, não há grandes euforias. Quando uma pessoa diz que vai tomar um café, é mesmo tomar o café e ir embora, não é como em Portugal, que vais tomar café e ficas três horas a falar com os amigos - e o preço do café também é um bocadinho diferente [risos]. E depois também é bom para fazer desporto, nunca precisas de pegar no carro, porque as infraestruturas estão muito próximas, numa série de vilas”, conta, explicando que joga futebol “para brincar” e râguebi no campeonato nacional, mas sempre de pé atrás, por ter receio de se magoar e faltar a eventos no trabalho.

Foi precisamente essa demonstração de Lei de Murphy (tudo corre mal na pior altura possível) que aconteceu em Saint-Étienne. “Tinha chegado aqui há duas semanas e fui jogar com os colegas depois de um dia de trabalho. Joguei uns 15 minutos e de repente ouvi um ‘pop’, já o tendão de Aquiles estava perto do gémeo. Rasgou”, recorda, notando a ironia. A logística da coordenação de logística passou então a ser diferente: “Fui operada dois dias depois, estive uma semana de baixa e voltei em tempo recorde porque tenho colegas muito queridos que estavam dispostos a serem as minhas pernas nessa altura.”

Colegas esses que se juntaram em Saint-Étienne provenientes um pouco de todo o mundo. “No outro dia estávamos a tomar café na cidade com um australiano, um belga, uma francesa, um alemão e eu, portuguesa. E é o normal, uma pessoa já nem repara. Na Suíça é igual. Muitas das vezes as conversas lá nem começam em francês, muita gente fala e trabalha em inglês”, explica, o que faz Cátia pensar mais em Portugal. “Tenho uma ideia bastante diferente do país agora, dou comigo muito mais patriota do que era.”

infografia carlos paes

Ainda assim, a trabalhadora portuguesa não poderá ver o jogo desta terça-feira entre Portugal e Islândia, mesmo estando no estádio até às 3 da manhã. “Não tenho bilhete. Nós temos o grande privilégio de contribuir. Estamos todos super entusiasmados com o facto de termos o jogo aqui hoje, porque trabalhámos dois meses para isto. O nosso trabalho é este, é saber todos os pormenores de tudo, é o trabalho das formiguinhas que faz com que haja jogo e que tudo corra bem. As pessoas pagaram para ver o jogo, nós somos pagos para fazer com que o jogo aconteça, não para ver o jogo”, explica. Mesmo sem ver, o que interessa é que Portugal ganhe. “Acredito que possa ir bem longe. Claro que a Estónia não é uma Alemanha, mas o jogo motivou os portugueses e é o suficiente para começar o Euro com o pé direito. E depois continuar a seguir.” Para Cátia, até 3 de julho, para Portugal, até 10 de julho.