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New Albion, old habits

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Laurence Griffiths/REMOTE

Esta nova Inglaterra, renovada, teve tudo para reescrever a história em jogos inaugurais das fases finais de Europeus. Mas deixou-se empatar no último suspiro do encontro contra a Rússia

Há várias teorias que explicam o sucesso do futebol. A primeira, a prática, diz-nos que não são precisas grandes parafernálias para o jogar. Podes fazê-lo descalço, com duas pedras a fazer de baliza, e uma bola de trapos - ao contrário do basquetebol ou do andebol, não é crucial que a bola saltite quando ressalta do chão; e é mais simples do que jogar com um melão, como se fosse a oval do râguebi.

A segunda, mais filosófica, mostra que o futebol é democrático, inclui mais do que exclui, e é por isso que tipos pequenos podem jogar tão bem ou melhor - muitas vezes melhor - do que os calmeirões. Só precisamos de puxar um bocadinho pela cabeça para recordar Messi, Maradona, Xavi ou Chalana. Os grandões também têm o seu lugar, sendo Ronaldo e Ibrahimovic os exemplos mais atuais. Basicamente, toda a gente pode jogar à bola.

A terceira teoria é mais tática: o futebol recicla. Não há nenhuma regra que diga um tipo que fez, digamos, 80% da sua carreira como número 10 ou avançado, não possa recuar até ao meio campo, defesa ou até para trás dos centrais - Mathäus e Olaf Thon são os casos mais paradigmáticos, Pirlo foi a transformação que deu mais pinta a este jogo; e Wayne Rooney é o exemplo mais recente.

Esta Inglaterra que joga em 4x3x3 e deixou o 4x4x2 para trás, com Rooney ao lado de Delle Ali e à frente de Dier. E Rooney, que tem o 10 nas costas e jogou quase sempre como nove, está agora feito num oito, porque passa bem a bola e é brigão e tem um bom remate. Ele é a personificação desta nova Old Albion, composta por futebolistas mais continentais, que joga de pé para pé e não no pontapé para a frente. Jogando e treinando com e às ordens de espanhóis, portugueses, holandeses, franceses e argentinos, os ingleses entraram noutro nível. E isso viu-se contra a Rússia, que conseguiu adiar o golo inglês porque tem centrais e médios experientes e, sobretudo, um guarda-redes incrível chamado Akinfeev. Só que nem ele conseguiu prender o livre direto de Dier (ex-Sporting, lembra-se?), numa altura em que os Ingleses já praticamente tinham esgotado os truques todos do livro de estilos: ataque planeado, bolas paradas, contra-ataque, jogo interior, jogo exterior, cruzamentos, etcetera.

Depois disso, a Inglaterra continou a rematar enquanto a Rússia procurou responder, com Kokorin e Smolov à procura do gigante Dzyuba, mas também nada parecia resultar. Talvez fosse desta que os ingleses iriam ganhar o primeiro jogo num Europeu. Talvez fosse desta que a bazófia inglesa seria justificada. E quando os talvez se transformavam em certezas, Vasily Berezutskiy fez o empate nos descontos, num cabeceamento. A nova Albion mantém os velhos hábitos.

P.S: Logo após o final, os problemas que aparentemente tinham ficado à porta passaram para as bancadas, com cenas de pancadaria entre adeptos.