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Ele é a lenda

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A 25 de fevereiro de 1964, Cassius Clay tornou-se o mais jovem campeão mundial da história do boxe. O homem que veio a chamar-se Muhammad Ali tinha apenas 22 anos quando derrotou o corpulento e superfavorito Sonny Liston, de 32, por KO técnico no final do sexto assalto. Os relâmpagos caíam duas, três, quatro vezes no mesmo sítio (no corpo do adversário) quando entrava no ringue. Morreu esta madrugada, com 74 anos

AFP / Getty Images

Esta não é a biografia de Muhammad Ali, mas a de Cassius Clay. Como em todas as outras, há nela um arranque, que é o arranque possível, pois a vida de Clay como a conhecemos começou aos 12 anos; e também há um remate, que coincide com a manhã em que Clay morreu para fazer nascer Ali.

Mas é entre o início e o fim que tudo o que realmente conta se conta: a história do pugilista que se esquivou de todas as previsões para conquistar o seu primeiro título mundial num combate lendário. Aconteceu há 50 anos, a 25 de fevereiro de 1964: Cassius Clay vs. Sonny Liston.

O arranque

Cassius Marcellus Clay, Senior era um tipo bem-apessoado, um negro que ganhava a vida a pintar cartazes no Sul da América. Tocava piano, bebia muito, era mulherengo e o melhor dançarino de Louisville, no Kentucky. Clay, Senior casou-se com Odessa Grady, mulata religiosa e neta de um irlandês, e da relação de ambos nasceram Cassius, em 1947, e Rudolph, no ano seguinte.

Eram quatro afro-americanos orgulhosos das suas raízes; sobretudo Cassius, Junior que não deixava uma provocação sem resposta.

Foi assim, aos 12 anos, que prometeu ao polícia Joe Martin que daria cabo do canastro ao ladrão que lhe roubara a bicicleta. “Talvez seja melhor aprenderes a lutar primeiro”, aconselhou Martin. Clay calçou as luvas e as sapatilhas: corria de manhã, treinava à noite, ganhava combates e somava troféus amadores durante a adolescência até conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. O seu estilo? Nunca antes visto. Alto, rapidíssimo, felino e bailarino. Como o pai. Estava destinado a grandes coisas e foi preparado para tal pelos seus colaboradores quando se profissionalizou: apareceram-lhe adversários acessíveis que ele foi batendo consecutivamente para ganhar rodagem, calo e um nome dentro do ringue. É assim que as coisas se fazem: um pugilista cresce e aparece enquanto espera pela oportunidade.

No caso de Clay, a sorte bateu-lhe à porta quando foi 'escalado' para o combate do título frente a Sonny Liston, a 25 de fevereiro de 1964, em Miami. Em teoria, era um confronto desigual, como carne para canhão: Clay tinha no currículo a medalha de ouro em Romam, mas Liston somava dois títulos mundiais e um sem número de vitórias por KO; o miúdo tagarela e esguio de 22 anos que fora treinado por um polícia enfrentava o homem misterioso de 32 que aprendera o ofício na prisão após espancar um polícia. Dos 46 jornalistas especializados para avaliar a contenda, 43 escreveram que Sonny Liston ganharia por KO: a pinta de peso-pluma de Clay não faria figura no mundo dos pesos-pesados que esmurram menos, mas com mais força.

“Isto vai durar a quase totalidade do primeiro round”, ironizou então o “New York Times”.

Clay tinha outros planos para essa noite - e estavam todos na sua cabeça.

STR/AFP/Getty Images

O que conta

Cassius Clay decidiu atacar antes do primeiro gongo. Tinha de desestabilizar Sonny Liston, tirá-lo do sério, puxá-lo para o confronto verbal.

“A única coisa em que Clay consegue bater Liston é na leitura de um dicionário”, escreveu-se no “Los Angeles Times”. Nos tempos que antecederam o combate, Clay usou o espaço público da forma que quis para tentar abespinhar o adversário.

Logo no dia da assinatura do contrato, em que ambos se comprometeram a lutar em Miami, Cassius alugou um autocarro, pintou-o com as palavras “Liston tem de cair no oitavo round”, convocou a imprensa e foi estacioná-lo em frente à casa de Sonny, em Denver. Às três da manhã, buzinou e desafiou-o: “Anda cá fora. Vou dar-te uma tareia agora.” Sucede que Sonny acabara de mudar-se para um bairro de brancos e não gostou nada dos distúrbios. A perseguição de Clay a Sonny prosseguiu no campo de treinos do rival, na Florida: “És um urso grande e feio [a alcunha de Liston era Grande Urso]“; “Depois do combate, vou construir uma bela casa e usá-lo como tapete de pele de urso”; “O Liston cheira como um urso e vou doá-lo, depois, a um zoo”; “Se o Sonny me vencer, vou rastejar, dizer-lhe que é o maior e apanhar um jato para fora do país.” E por aí fora...

Os americanos-brancos torceram-lhe o nariz. Clay era um fanático religioso, com ligações à Nação Islâmica, e, se não era louco, pelo menos parecia, pela forma como constantemente queria irritar um tipo muito maior e mais violento do que ele. De repente, o público ficara sem favoritos: o mulato vaidoso iria encontrar o negro criminoso. “Esta será a luta mais popular de todas desde Hitler e Estaline: há 180 milhões de americanos a torcer por um duplo KO”, leu-se. E quando se julgava que Clay tinha afrouxado, a pesagem e os exames físicos que antecedem o combate mostraram o contrário.

Cassius chegou ao local com um casaco de ganga onde se lia “Caça ao Urso” nas costas e gritou: “Sou o campeão! Digam ao Sonny que estou aqui! Tragam esse urso feio para o pé de mim. Alguém vai morrer hoje! Estás com medo, banana!” Exagerou e teve de pagar 2500 dólares de multa pelo mau comportamento.

Mas conseguiu o que queria. “O Liston não estava a pensar em mais nada a não ser matar-me. E quando alguém pensa assim, não está a pensar lutar, não está a pensar treinar para lutar. E eu sabia que o Liston, de tão convencido que era, nunca treinaria para um combate com mais do que dois rounds”, confessaria Clay na biografia.

Os rumores sobre a má forma de Liston eram mais do que muitos: dizia-se que emborcava cerveja e fumava como um reformado; que as ligações à máfia e à família Lucchese o iriam deixar endividado; que o vício das mulheres o deixava esgotado; que corria uma milha em vez de cinco para se preparar; que tinha um ombro amassado. E que, enfim, não tinha 32 mas 40 anos. Clay estava nos antípodas: treinava como um louco, continuava a beber só leite e a comer ovos, e revia os vídeos dos combates de Liston até à exaustão - até ao ponto de saber que o Grande Urso tinha um tique nos olhos quando disparava a sua esquerda mortífera.

O remate

O Convention Hall de Miami estava à pinha e junto do ringue havia consenso: Sonny Liston atropelaria Cassius Clay. Feitas as apresentações e as recomendações, soou o gongo: Liston entrou a todo o gás, porque queria acabar com aquele rapaz de uma vez por todas. E rapidamente.

Só que Clay era tão rápido a andar para trás como Liston para a frente. Um atrás de outro, os golpes de Liston acertaram no ar enquanto Clay lhe ofereceu a cara e uma guarda baixa.

Ninguém previra aquilo, todos ficaram de queixo caído. Aos terceiro e quarto assaltos, com Liston a esgotar reservas e Clay a apimentar o combate com jabs-relâmpagos que não matavam mas moíam, era claro que o título de campeão mundial iria mudar de mãos. E nem a cegueira temporária de Clay no 5º assalto, provocada pela soda cáustica usada por Liston para limpar as feridas, o travou. Durante esse round, Cassius só conseguiu enxergar um vulto e foi à volta dele que trabalhou o seu boxe até a vista clarear. Depois, no 6º assalto, as suas combinações voltaram a resultar em cheio na cara de Liston, cujo rosto inchou como um balão até quase implodir.

De raiva. Mas, acima de tudo, impotência.

“Pronto, acabou”, terá dito aos homens que o acompanhavam no seu canto. Liston cuspiu a proteção dos dentes e ficou sentado quando o árbitro chamou os pugilistas para o sétimo assalto.

Estava sentado e arrumado. Cassius Clay pulou como uma mola, de braços no ar, dançando e repetindo até à exaustão: “Eu sou o maior! E eu abanei o mundo.” Foi a primeira e última vez que o fez como Cassius Clay. No dia seguinte, renasceu como Muhammad Ali.

Barry Jarvinian

Os maiores embates

ALI VS. LISTON II

No combate da desforra, em 1965, Liston foi ao chão no primeiro round. Diz-se que perdeu de propósito.

ALI VS. FRAZIER I

Ali perdeu para Joe Frazier, em 1971, naquela que foi uma das suas maiores derrotas. Frazier tornou-se um dos seus mais temíveis adversários.

ALI VS. FOREMAN

Um combate pessoal e político, porque se disputou em Kinshasa (antigo Zaire), em plena emancipação dos países do Velho Continente (1974). Foi um triunfo estratégico de Ali, que se foi encostando às cordas e protegendo o corpo e a cara durante os primeiros assaltos para depois se libertar nos últimos e ganhar por KO quando Foreman estava exausto.

ALI VS. FRAZIER III

Ali ganhara o segundo encontro (1974, aos pontos) entre ambos, mas o mais épico que opôs Ali a Frazier aconteceu um ano depois, em Manila (Filipinas). Foi uma carnificina humana entre dois tipos que se odiavam. “Nunca estive tão perto de morrer”, confessaria Ali. Sob um calor e humidade inimagináveis para um combate de boxe, Ali venceu por KO técnico, quando o treinador de Frazier o impediu de prosseguir.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 22 de fevereiro de 2014.