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Quem tem medo do lobo Mou?

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Tiago Pereira Santos

José Mourinho vai para o Manchester United mas a mudança está longe de ser consensual entre adeptos, crítica e ex-jogadores. Porquê?

Pedro Candeias

Pedro Candeias

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Coordenador

Mourinho achava que tinha feito tudo bem: fora campeão português e inglês mais do que uma vez, ganhara uma Taça UEFA e uma Liga dos Campeões. Estava na hora de voltar, de provar-lhes que já não era o tradutor-intérprete-adjunto de Robson e de van Gaal, mas um treinador de elite. Um treinador para o Barcelona. O treinador certo para o Barcelona. Em Lisboa, Mourinho fez uma apresentação powerpoint detalhada aos manda-chuva catalães, mostrou-lhes o que faria daquele 4x3x3, disse-lhes que queria Pep Guardiola para adjunto, mas também lhes garantiu que não ia deixar de ser quem era nas conferências de imprensa.

O resto é história: o Barcelona escolheu Guardiola, Mourinho seguiu para o Inter de Milão, o Inter de Mourinho bateu o Barcelona de Guardiola e chegou à final da Champions de 2010 - e o português venceu-a, contra o Bayern do antigo mentor, van Gaal. Foi o primeiro golpe de Mourinho no Barcelona, mas ele queria mais - queria derrotar Cruijff, Guardiola, o Barcelona, o tiki-taka e a escola holandesa no seu próprio terreno, com o Real Madrid. Não foi isso que aconteceu e Mourinho perdeu mais jogos dos que os que ganhou ao Barcelona. Mas não foi só isso que aconteceu.

Alessandro Bianchi / Reuters

Durante aqueles anos em Madrid, percebeu-se que Mourinho tinha mudado e que aquela meia-final Inter-Barça de 2010 não fora uma exceção. Já havia muito pouco daquele FC Porto e daquele Chelsea que dominavam e pressionavam; o Real Madrid, com um plantel de milhões e de multimilionários abdicara do bom futebol pelo futebol do resultado - Mourinho, o ideólogo, era agora Mourinho, o iconoclasta. Deixara de ser especial para se tornar pragmático. E aborrecido. E porquê?

Há várias pistas espalhadas por biografias não autorizadas e fontes anónimas, e quase todas elas vão dar ao dia em que o Barcelona preferiu Guardiola a Mourinho. Nesse instante, Mourinho terá escolhido ser o antiGuardiola só para mostrar que havia outro caminho. E ele nunca o escondeu. “O meu problema é que não sou muito esperto. Se fosse esperto, teria escolhido um país onde até um roupeiro conseguiria ser campeão num determinado clube.” A dia 5 de maio de 2015, minutos depois de ter conquistado o título pelo Chelsea, Mourinho atirou-se a Pep Guardiola. Sempre Guardiola.

Premier League, parte 3

Reuters

Mourinho é muito melhor do que David Moyes e melhor do que Louis van Gaal, os dois sucessores de Alex Ferguson no Manchester United, e na Premier League só Pep Guardiola tem um currículo semelhante ao dele. Ainda assim, Mourinho não é consensual. Diz-se que Mourinho tem mau feitio e que isso o leva a disparar contra árbitros, rivais, jogadores e até contra o próprio staff, como aconteceu com Villas-Boas ou Eva Mendes - e isso é verdade. Diz-se que Mourinho não aguenta mais do que três épocas até os futebolistas começarem a conspirar contra ele - e as guerras com Casillas, Sergio Ramos, Hazard ou Fàbregas não desmentem.

No tempo dele, Ferguson atirou com uma chuteira à cara de Beckham, pegou-se com Wenger, disse que os jornalistas eram “estúpidos de merda” por criticarem Veron, e chamou gordo a um árbitro. E se o escocês esteve bem para lá dos três anos, foi só porque lhe foi dada a hipótese de renovar o plantel sempre que as coisas começavam a aquecer no balneário. E já que é de tempo que falamos, o próprio Guardiola assumiu que após as três épocas da praxe a comunicação perde o impacto, os jogadores deixam de se sentir desafiados, e tudo fica mais difícil de controlar - até Messi.

O problema de Mourinho é outro - é a ideologia. “Eu adoro Mourinho, mas ele não é Manchester United. Ele até pode ganhar algumas coisas, mas não sei se os adeptos vão gostar do estilo de jogo da equipa”, disse Eric Cantona ao “Guardian”.

HANNAH MCKAY/EPA

Contexto: o Manchester United é o clube que se refez grande com a classe de 1992 de Bekcham, Giggs, Scholes e dos Neville, e que depois apostou em miúdos geniais, como Ronaldo. E os adeptos do Manchester United estão habituados a equipas de ataque, que mexam com as emoções e que evoquem o imaginário da Champions de 1999, contra o Bayern de Munique. Se quisermos, o Man United quer ser o que o Liverpool de Jürgen Klopp hoje é, e não é por acaso que Alex Ferguson convidou o alemão para sucedê-lo no cargo em 2013 - o escocês queria Guardiola ou Klopp, ambos disseram não, David Moyes disse sim, e Mourinho terá chorado. Ferguson não quis Mourinho porque era refilão, não apostava nos jovens e, sobretudo, jogava à defesa.

Mas agora que a vontade de Ferguson foi quebrada pela administração, chegou a vez de Mourinho em Old Trafford. O Manchester United deixou de poder negociar o futuro, decidiu-se por um tipo vencedor para acabar com o jejum, e prometeu investir €380 milhões para reforçar o plantel. Restam duas saídas ao Special One: jogar para os pontos ou para o espetáculo. A primeira garante-lhe títulos porque já aconteceu antes e não há razão objetiva para isso deixar de acontecer; a segunda pode garantir-lhe troféus e a oportunidade de fazer algo que perdure além dos números de que ele tanto gosta. Se fizer isso, o resto ser-lhe-á perdoado como um fait diver, um capricho.

A questão é saber se Mourinho ainda vai a tempo de recuar no tempo, até ao tempo em que nos inspirou a todos. Ao tempo em que todos gostávamos dele.

Artigo publicado na edição do Expresso diário de 24/05/2016