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O melhor marcador da Taça é este homem: “Chamam-me o Jonas da Malveira”

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Pedro Bonifácio tem 30 anos e é avançado do Atlético Clube da Malveira, do Campeonato de Portugal

Tiago Miranda

Jonas, Slimani, Aboubakar. Os goleadores de Benfica, Sporting e Porto jogaram todos na Taça de Portugal, mas nenhum conseguiu fazer melhor do que Pedro Bonifácio. Jogador do Malveira à noite e monitor num ATL de dia, foi profissional no Doxa, do Chipre (onde lhe pediram para perder um jogo), e no Vardar, da Macedónia, mas em Portugal nunca saiu da 3ª divisão - e de Mafra, de onde é natural.

Mariana Cabral

Mariana Cabral

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Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Já sabias que és o melhor marcador da Taça?
Sim. Não é normal, não é? Quer dizer, em princípio, se não houver algum jogador do Porto ou do Braga a fazer seis golos... [risos]

Como é que um jogador do Campeonato de Portugal faz estes golos todos?
Jogámos quatro eliminatórias e tive a sorte de fazer dois bons jogos. Primeiro, em casa com o Barreirense, ganhámos 5-2 e fiz três golos; depois, na eliminatória seguinte, marquei mais três golos, no campo do Sacavenense. Ganhámos 3-0, num jogo um bocado pragmático da nossa equipa.

Quer dizer, pragmático és tu.
Pois, neste caso fui. Não acontece todos os dias fazeres um hat trick. Fazer um já é difícil, quanto mais dois seguidos. E no campeonato foram 15 golos, ou seja, foi a minha melhor época enquanto sénior.

Mais à Slimani ou mais à Jonas?
Mais Jonas. Por acaso aqui chamam-me "o Jonas da Malveira" [risos]. Foi depois de eu ter marcado os seis golos, porque saiu uma notícia a dizer que já tinha marcado os mesmos que o Jonas, que foi o melhor marcador da Taça na época passada. Mas identifico-me mais com o estilo do Jonas, porque o Slimani tem um jogo mais físico e eu nesse aspeto não sou tão forte.

Por aqui reconhecem-te como o craque do Malveira?
[risos] Mais os miúdos. Como trabalho no ATL, vou buscá-los à escola e estou com eles muitas vezes, e eles dizem uns para os outros: “É o Bonifácio, é o Bonifácio”. É engraçado porque joguei muitos anos no Mafra e não sentia por parte dos miúdos tanto interesse e carinho.

Nunca tiveste convites para entrar nas ligas profissionais em Portugal?
Há uns anos tive uma oportunidade de ir para o Vitória de Setúbal. Estava no Mafra e o Vitória quis que eu fosse para lá, mas as direções não chegaram a acordo e a transferência não avançou. Depois fui para o estrangeiro e quando voltei tive uma boa época no Mafra, mas percebi que depois disso já não ia ganhar nada com o futebol profissionalmente. Por isso, há três anos, optei por arranjar uma profissão e tentar partilhá-la com o futebol, treinando à noite. Abdiquei de ser profissional porque a certa altura achei que já não se justificava.

Tinhas 27 anos. Bem, o Vardy também apareceu tarde...
[risos] Vardy é o conto da cinderela do futebol. Acontece com um em mil. Claro que nunca dizemos nunca, mas não é provável que aconteça.

Pensas nisso como uma oportunidade perdida?
Não. São coisas que acontecem na nossa vida por algum motivo. Se calhar não ter assinado naquele momento depois permitiu-me ter experiências no estrangeiro. Portanto não vejo como algo que foi perdido, foi apenas mais um capítulo.

Tiago Miranda

Tens empresário?
Não. A este nível acho que não faz falta.

Mas para dares o salto...
[pensa] Não creio que seja indispensável. Pode ajudar em algumas situações, mas não vejo como indispensável.

Como foste jogar para o Chipre?
Na altura jogava no Mafra e surgiu o convite através de... não era um empresário, era um intermediário, colega de colegas, que propôs essa possibilidade através de um empresário cipriota que trabalhava com ele. Na altura achei que estava um bocado estagnado aqui e decidi arriscar. E foi o melhor que fiz.

Porquê?
Era profissional, não fazia mais nada. Eles pagavam-nos tudo, casa e carro. Só tínhamos de treinar e jogar. Era uma boa vida [risos]. O Chipre é um país ótimo para se viver, sempre com bom tempo e boas praias. E como éramos treze portugueses acabou por ser quase como estar em Portugal [risos]. Fazíamos companhia uns aos outros. Passava-se bem o tempo.

Quanto é que foste ganhar?
Fui ganhar umas quatro vezes o que ganhava aqui. Ganhava cerca de 800 euros, portanto fui ganhar mais de 2500 euros. Agora ganho 500 euros.

Mas trabalhas durante o dia.
Exacto, acabo por conseguir ganhar mais do que se fosse "semi profissional", vá, a treinar de manhã, como alguns clubes agora fazem e com o que pagam. Acaba por me compensar mais trabalhar de dia e treinar à noite.

Quando estiveste no Chipre viste alguma coisa fora do comum relacionada com apostas?
Eu, infelizmente, senti o problema das apostas desportivas na pele. Não sei se posso dizer isto se não, mas pronto, já foi há tanto tempo... Nós estávamos na 2ª Liga e íamos jogar para a Taça contra uma equipa da 1ª Liga. Começou o jogo, tudo normal, nós não sabíamos de nada. Mas, às tantas, começámos a perceber que os jogadores deles não queriam jogar. Deixavam-nos passar, não queriam tirar-nos a bola, incentivavam-nos a rematar... Começámos a achar aquele jogo muito estranho, não é? Ao intervalo, a ganhar 2-0, chegámos ao balneário e tudo em silêncio. O treinador não foi falar, ninguém estava lá, mas de repente apareceu o presidente do clube, a dizer-nos que tínhamos de perder o jogo na segunda parte. E assim foi, perdemos o jogo, 2-3. Estas coisas acontecem mesmo, é verídico. Fizemos o que eles fizeram na primeira parte: deixámos passar, deixámos rematar... E eles já estavam com interesse em jogar, porque supostamente uma das apostas seria eles estarem a perder ao intervalo.

Foi a única vez?
Foi a única vez que soube que havia problemas com as apostas. Nunca fui abordado individualmente, nem lá nem em Portugal.

Como é que se continua uma época depois disso?
Nessa altura houve uma revolta enorme de todos, houve jogadores que inclusive recusaram ir jogar a segunda parte do jogo. Mas o que nos explicaram é que aquilo tinha de ser feito, porque precisavam de nos pagar os salários e as coisas não estavam fáceis a esse nível. Iam pagando mas sempre com dificuldades, com atraso. Por isso pediram-nos para fazer aquilo porque era a única forma de nos pagarem os ordenados até ao final da época. E tu... longe de casa, sem garantias de dinheiro e sem saberes se ias receber o que era teu... Tivemos de nos sujeitar, entre aspas. Mais tarde os dirigentes foram investigados pela polícia, mas não sei como isso acabou. Mas duvido que tenha dado em alguma coisa, porque lá praticamente fazem o que lhes apetece.

Depois foste para a Macedónia.
Lá não tive problemas desses. Pessoalmente foi um período mau, porque não fui opção como queria. Cheguei quando a época já tinha começado e o ponta de lança deles era o titular da seleção, por isso foi difícil conseguir entrar na equipa. Mas foi bom porque fomos campeões nacionais. Pensei que fosse uma experiência excelente para mim. Acabou por não ser, até pelas condições. O nosso estádio até era bom, porque era o estádio nacional, mas os restantes eram muito maus, eram 100 vezes piores do que em Portugal. Relva horrível, tudo maltratado, condições péssimas. O que era pena, porque até havia havia qualidade nos jogadores. Mas as infraestruturas são terceiro mundistas.

Aí estavas sozinho?
Sim, fui sozinho. Lá tinham um espanhol e foi ele o meu colega mais próximo. Mas também tive lá boas experiências. Jogámos com o Schalke 04, porque as claques deles e do Vardar têm uma boa relação e combinaram um amigável para nós. Perdemos 3-2, mas foi giro [risos]. Estava o Huntelaar, o Raffael, o Michel Bastos, assim dos mais conhecidos. Foi de longe o jogo que gostei mais. Consegui trocar a camisola com o Michel Bastos, tenho-a lá em casa bem guardada como recordação [risos].

Tiago Miranda

Depois voltaste para Portugal.
Sim, ainda estive em Mafra um ano como "semi profissional", mas depois decidi começar a trabalhar, em Atividades Extra Curriculares, porque tenho uma licenciatura em Educação Física, que tirei a conciliar com o futebol.

Já pensaste ser treinador?
Já fui um ano, nos infantis de futebol 11 do Mafra. Até subimos de divisão nesse ano. Mas depois como voltei a treinar à noite deixei de ter tempo. Aqui treinamos quatro vezes por semana, terça, quarta, quinta e sexta.

Pensas num futuro no futebol? És o único trintão do Malveira, de resto só são putos.
É a primeira vez que sou o velho do balneário [risos]. Sinceramente não sei se continuarei ligado ao futebol. Chega a uma altura em que isto tira tanto tempo à família... Não sei se se justifica.

Então porque ainda continuas?
Sei lá, jogar é diferente. Sentir o balneário, os colegas... É um sentimento diferente, certamente diferente de ser treinador, seja a que nível for. A vivência do dia a dia com os colegas é algo de que vais sempre sentir falta.

Vale a pena jogar no Campeonato de Portugal?
Vale. Acho que o nível baixou um bocado, nos últimos anos, até porque os miúdos que os clubes grandes antigamente emprestavam à II B hoje em dia emprestam à 2ª Liga. Agora é mais malta nova, daí eu com 30 anos ser o mais velho do plantel. Aqui há uns anos isso era impensável. Mas é o campeonato das oportunidades, há mais visibilidade. Não digo para mim, que já estou quase no final da carreira, mas para os jovens que estão a começar. Há cada vez mais olhos aqui, até porque os clubes têm menos dinheiro e precisam de arranjar alternativas para construir os seus plantéis.

Já não há aquela coisa do presidente ir ao balneário oferecer dinheiro para ganharem jogos?
Não, isso já não existe, infelizmente. No início, quando comecei em Mafra, havia prémios de jogo semanalmente. Se ganhássemos havia sempre qualquer coisa. Hoje em dia não há nada disso, tirando se calhar os clubes que lutam para subir de divisão, nas alturas decisivas do campeonato.

Vais à final da Taça?
Não. Não tenho bilhete. Não me arranjas um? [risos]

Estás com azar. Nem bilhetes nem prémio por seres o melhor marcador.
É verdade. Está mal [risos]. Não interessa, fica a recordação.

Vais torcer pelo Porto ou pelo Braga?
Não... sou do Benfica. Tricampeões [risos].

[versão integral da entrevista publicada na edição de 21 de maio de 2016 do Expresso]

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