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“A ambição de Jesus ser campeão pelos três grandes é perfeitamente legítima”

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PALPITE. Aos 70 anos, Manuel José tem sido requestado por clubes marroquinos, convites a que resiste por causa da neta e da mulher, com quem já percorreu Ceca e Meca

ANA BAIÃO

Manuel José vai torcer este domingo pelo seu Benfica, que recebe o Nacional com dois pontos de vantagem sobre o Sporting. Na despedida da época, o Sporting vai a Braga, à espreita de um deslize na Luz. O antigo treinador de águias e leões, timoneiro do célebre dérbi dos 7-1 e detentor de tantos títulos como Mourinho (22), diz que Rui Vitória será campeão com todo o mérito, apesar de admirar mais o futebol de Jorge Jesus. “Só se pode queixar de si próprio se lhe escapar o título”

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

É verdade que mantém a forma no ginásio?
Vou quatro vezes por semana. Tenho 70 anos e tenho de me manter ativo, com a ajuda do recurso pomposamente chamado personal trainer. É um indivíduo porreiro...

Obedece às instruções?
Mais ou menos, o ritmo de treino é meu. Sinto-me muito bem, não me dói nada.

Antes da época começar previu que o Benfica ia mudar de ADN com Rui Vitória. Mudou para melhor?
Lembro-me de dizer que ia ser uma época difícil, como tem sido, apesar do sucesso à vista. Substituir um treinador que esteve à frente de uma equipa seis anos e que ganhou 50% dos títulos e outros troféus nacionais nunca é fácil. Mais ainda depois da saída de jogadores e de uma pré-época desastrosa para ganhar dinheiro, que atrasou as tais mudanças de hábitos que Rui Vitória queria fazer, ele teve a atitude inteligente, ao manter o 4x4x2 de Jesus. É preciso não esquecer que o Benfica esteve com sete pontos de atraso em relação ao Sporting...

E não desmoralizou...
Não, e teve sempre o suporte do presidente, que foi fundamental numa altura em que já havia descontentamento dos adeptos, o que é normal quando não se ganha. Nos momentos certos, Luís Filipe Vieira soube proteger, e bem, Rui Vitória.

Um lição para os dirigentes apressados?
Sem dúvida. Rui Vitória soube controlar a pressão, manteve-se sempre sereno, com exceção do jogo da derrota da Supertaça, no Algarve, ao responder às agressões verbais do Jorge Jesus. Ninguém é perfeito. A partir daí, teve um comportamento excelente para alguém que chega pela primeira vez a um grande.

Superou as expectativas?
Claramente. Lançou jovens jogadores, mas o determinante foi o Renato Sanches, que deu ao meio campo a profundidade que o Benfica não tinha, a agressividade e objetividade que a equipa precisava. Foi a grande revelação da época

Que justifica a transferência de 35 milhões...
Em pleno. Hoje em dia o jogador não tem uma casa, tem muitas. É só uma questão de dinheiro.

Depois de liderar folgado o campeonato, o que aconteceu ao Sporting e a Jorge Jesus para se terem distraído tanto?
Distrair-se, já Jorge Jesus se distraiu outras vezes com o Benfica. Se não se tivesse distraído, se calhar em seis anos tinha ganho quatro ou cinco campeonatos seguidos. Teve quebras que só ele pode explicar. Se o Sporting não ganhar este campeonato, deve-o a si próprio. Perdeu pontos com o Tondela, Paços de Ferreira, Rio Ave…

Fixou-se nos jogos grandes e negligenciou os pequenos?
Nos jogos em que era obrigatório ganhar, e apostou tudo na Liga, o que a meu ver foi errado. Não quis saber da Taça da Liga, não direi tanto da Taça de Portugal, e desistiu da Liga Europa. Para ele, ser eliminado nessas provas podia não lhe fazer diferença, mas para os jogadores e adeptos fez. À medida em que iam sendo eliminados, a pressão foi subindo na Liga e a perda de pontos acabou por ser inevitável. É a minha opinião. Mas não deixou de ser a equipa que mais me apaixonou...

Apesar de ser benfiquista...
Sou benfiquista e quero que o Benfica ganhe, sem dúvida. Mas a equipa que mais gosto de ver jogar, que tem um jogo mais bonito e intenso, é a do Sporting. Agora é o Benfica que vai ganhar o campeonato, é uma inevitabilidade, e com todo o mérito pela recuperação notável. Com mais ou menos brilho, os campeonatos ganham-se pela regularidade. O Benfica será um campeão justo, está na final da Taça da Liga e jogou os quartos de final da Champions, sem desistir de nada.

Foi treinador do Sporting e do Benfica. São clubes muito diferentes dos da sua altura?
Hoje é tudo muito diferente. O mediatismo não tem nada a ver com a altura em que estive em Alvalade e na Luz. Nas duas vezes em que treinei o Sporting, a maioria dos jogadores eram portugueses, no Benfica eram 50/50...

Numa altura de grande de grande desorganização...
Isso já foi mais do que contado. Não vale a pena exorcizar fantasmas, mas exumar cadáveres...

Mas é impossível não recordar os célebres 7-1 ao Benfica. Como é que uma equipa capaz de tamanha goleada ao arquirrival falha o campeonato?
O futebol tem dessas coisas. Na altura, o Sporting quis renovar comigo por mais dois anos, e recusei. “Se tiverem de me despedir vão ter de pagar tudo, e quero é o dinheiro que ganho com o meu trabalho”, disse. Dois meses depois fui despedido. Foi um resultado fantástico, mas o Sporting não era uma grande equipa. Preparámos a época na Aldeia das Açoteias com 12 jogadores. Depois, a cada semana, aparecia um jogador...Foi um jogo negro para o Benfica, porque na época anterior, na penúltima jornada, fomos ganhar à Luz após 23 anos e perderam o título para o FC Porto. É um resultado para a história dos derbis. No Egito tenho outro, entre o Al Ahli e o Zamalek (6-1).

Falhou a profecia que o campeonato iria ser disputado a três até ao fim, ao contrário dos últimos anos.
Só me enganei porque devia ter posto um ponto de interrogação se Lopetegui continuava ou não. Esqueci-me disso. Do FC Porto saíram jogadores importantes, mas a verdade é que entraram outras já feitos, que o treinador foi destruindo uns atrás dos outros, retirando-lhes a confiança toda. O FC Porto transformou-se naquilo que é hoje. O FC Porto cometeu nos últimos anos erros tremendos na formação da equipa, principalmente no sector defensivo. Deve ser a única equipa no mundo que jogou com dois centrais canhotos. Era um treinador de barco a remos que de repente pegou num transatlântico.

O seu amigo Vítor Oliveira disse esta semana ao Expresso que no futebol português existe preconceito em relação aos técnicos mais velhos. Sente isso?
Não sou a melhor pessoa para responder. Fiz uma opção de vida quando fui para o estrangeiro. Fui para o Egito, voltei para treinar o Belenenses, e a partir do momento em que regressei ao Al Alhi decidi que não voltaria a treinar em Portugal. Já tinha cá treinado muitos clubes e não me interessava, nem me interessa, treinar cá mais. O que me dizem é que há quase uma guerra aberta entre técnicos mais novos e os mais velhos. Acho que a idade é um sinal de sabedoria. No Egito, a um homem da minha idade chamam-lhe o mais velho de forma respeitosa. Aqui apareceu um pseudo deputado que chamou aos idosos “peste grisalha”. O Alvin Tofller, em “A Terceira Vaga”, de 1985, já dizia que a partir de 2000 os mais velhos iam ser odiados pelos mais novos. Com o aumento da esperança média de vida, os mais velhos iriam tirar emprego aos jovens, e é que o está a acontecer. Hoje, em 70% das equipas da I Divisão não vale a pena ser treinador.

Porquê?
É trabalho precário. Perde-se três jogos seguidos e está-se na rua. Os salários normalmente são pagos a 90 dias, o mesmo para os jogadores, e fazem-no com a conivência da Liga e da Federação. A oferta é imensa e os salários baixíssimos. Na II Liga é a mesma coisa. E os dirigentes, em época de crise, tratam os profissionais como se fossem escravos, pagando o mínimo possível. A mim, até hoje, ninguém me tratou mal. Também sabem como sou, e o meu currículo. A par de Mourinho, sou o treinador português com mais títulos conquistados. Até em relação a isso a imprensa é sectária comigo. Dizem que o Manuel José é o treinador com mais títulos conquistados no estrangeiro. Títulos são títulos, onde quer que sejam conquistados. São 22 títulos e a maioria dos que ele ganhou também foi lá fora...

Se calhar são mais valorizados por terem sido conseguidos em clubes do topo europeu...
São mais mediáticos, mas o grau de dificuldade é o mesmo. Se eu tiver 300 milhões de euros para investir em jogadores, onde está a maior dificuldade? Digo isso sem vaidade nenhuma.

Diz que nunca o trataram mal, mas o presidente do Al Alhi referiu que era velho de mais para treinador. Até foi a um programa de televisão disfarçado de velho...
Nunca trabalhou comigo, foi na altura em que o José Peseiro foi para lá. Estava lá porque me convidaram para fazer uma reportagem da minha carreira no Egito e, em vez de responder que ele era parvo ou estúpido, pedi para me arranjarem uma barba até ao umbigo e uma bengala. Foi uma gargalhada geral. A realizadora, que é também cineasta, comentou no final da entrevista: “Mr. José, perfect”.

Em Portugal não treina mais. E lá fora?
Tenho no telemóvel uma mensagem, enviada domingo, depois de me terem falado há uma semana para substituir o John Toshack, no WAC, de Casablanca. Há três meses o Raja, de Casablanca, também me convidou e não fui...

O que o faz resistir?
A minha neta de quase 5 anos e a minha mulher, que já correu Ceca e Meca comigo.

Acredita que Jorge Jesus irá para o FC Porto, se hoje for campeão?
O Jorge Jesus tem a ambição de ser campeão pelos três grandes. Há quem o critique por isso, mas eu acho perfeitamente legítimo. Seria inédito. É o nosso espírito de navegadores, de chegar cada vez mais longe. Se for campeão, está feito o serviço no Sporting e admito que possa acontecer, embora não saiba se tem ou não uma cláusula que lhe permite sair.