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“Convite a Paulo Bento não me surpreende”

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MIGUEL RIOPA / AFP / Getty Images

Líder da Associação Portuguesa de Treinadores de Futebol (ANTF) não ficou surpreendido com a ida de Paulo Bento para o Brasileirão. “A reputação dos técnicos portugueses está em alta, enquanto a dos brasileiros estagnou”, diz José Pereira, que lembra que não foi por acaso o ex-selecionador canarinho Mano Menezes escolheu Portugal para fazer o curso de IV nível da UEFA

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Depois de treinadores como Artur Jorge, Carlos Queiroz, José Mourinho, Fernando Santos, Marco Silva, Leonardo Jardim e Paulo Sousa terem migrado para o primeiro mundo do futebol europeu, e de Manuel José, Pedroto, Jaime Pacheco ou Henrique Calisto terem ajudado a abrir as portas de campeonatos em todo o mundo, é agora a vez de Paulo Bento partir à conqusita do país do futebol, um mercado por desbravar e até agora resistente à fama crescente dos técnicos portugueses.

Do outro lado do Atlântico, o ex-selecionador nacional, de 46 anos, junta-se ao pioneiro Sérgio Vieira, técnico do Ferroviária que o ano passado se estreou no futebol brasileiro na equipa de sub-23 Atlético Paranaense. Um e outro são os primeiros a trilhar um caminho inverso ao de tantos treinadores brasileiros que invadiram o futebol português nos anos 80 e 90, rota rasgada por Otto Glória, treinador três vezes campeão nacional pelo Benfica e Sporting nos anos 50.

O último dos brasileiros vencedores da I Liga foi Carlos Alberto Silva, bicampeão nacional pelo FC Porto no início dos anos 90. Mais recentemente, Luiz Felipe Scolari levou a seleção portuguesa à final do Euro 2004 e às meias finais do Mundial da Alemanha. O mesmo Felipão que em 2014, de novo à frente do Brasil, ao perder por 7-1 com a Alemanha, ajudou à queda em desgraça dos técnicos brasileiros, cada vez menos pretendidos fora da terra natal.

O convite a Paulo Bento foi uma surpresa para si?
Não me surpreendeu nada. A reputação dos treinadores portugueses há muito que começou a ser cimentada dentro e fora de portas, muito antes de José Mourinho. Acho que a marca diferenciadora dos nossos treinadores evoluiu muito desde que Carloz Queiroz foi bicampeão do mundo de sub-20. Mesmo que o mediatismo de Portugal como grande exportador de treinadores só tenha acontecido com a ida de Mourinho para Inglaterra, já muito antes sentia nos encontros internacionais de treinadores que havia um enorme interesse pelos técnicos do país natal de jogadores como Rui Costa, Paulo Sousa e Figo. Uma procura que se acentou, claro, com o mediatismo de nomes como Mourinho e Ronaldo.

Depois de ter sido um país exportador de técnicos para os quatro cantos do mundo, e em particular para Portugal, a que se deve esta abertura do mercado brasileiro?
Os treinadores brasileiros que me desculpem, mas em geral, talvez por comodismo. estagaram no tempo, não atualizaram suficientemente os seus conhecimentos. Os brasileiros ganham fama por se basearem muito na técnica mas descuraram muito outras vertentes, fundamentais no futebol atual. Os treinadores portugueses, pelo contrário, aprofundaram a metodologia de treino e organização das equipas como um todo, e hoje estão ao nível dos melhores do mundo ao nível tático ou da preparação física.

Como explica esse salto?
As faculdades de desporto contribuíram muito para a formação e competência dos nossos profissionais, a par da exigência dos nossos cursos de treinadores, da Federação Portuguesa de Futebol, frequentados por jogadores portugueses mas também estrangeiros, no fim de carreira. Se os cursos não fossem bem cotados, não teríamos tido, o ano passado, em Fátima, o Mano Menezes, ex-selecionador do Brasil, a frequentar o nosso curso de IV Nível da UEFA Pro, muito elogiado por ele. Tanto que convidou Jorge Castelo, um dos docentes do curso, a ir com ele treinar um clube para a China (Sandong Lunang).

A escolha de Paulo Bento será um ponto de viragem?
É um passo importante na abertura de um grande mercado inexplorado. Os responsáveis do futebol brasileiro têm a consciência de que pararam no tempo e que a fama alicerçada no seu futebol não chega. Têm de atualizar conhecimentos se quiserem voltar a ser reconhecidos internacionalmente.